30.12.20
Ainda não foi em 2020 que aprendi a "fazer uma fotografia"! Mas já estou a tratar da dificuldade - comecei a estudar a obra do Alexandre Barão, Fotografia com Câmara Digital e Smartphone"...
Passei metade do ano a
ler os dois volumes de Pensar o Mundo, de Manuel Maria Carrilho.
Diga-se, a talhe de foice, que o filósofo tem razão no diagnóstico que faz do
estado da nação e que, se fosse lido e ouvido com mais atenção, provavelmente
este país poderia ter sido governado por gente menos ignorante, menos carreirista
e amiga do alheio.
Passei outra metade, a
estudar Alemão para contrariar a ideia de que burro velho não aprende línguas…
e começo a pensar que a sabedoria popular não erra… De qualquer modo, os
neurónios continuam ativos, o que já é motivo de satisfação.
Em matéria de caprichos,
continuo com este blogue, dando conta de ideias, certamente inúteis, que mais
valeria calar, mas que fazer?
Na verdade, 2020 foi o
ano da minha aposentação, iniciada no dia das mentiras, mas coincidindo com um
facto que nos fechou a sete chaves - talvez menos! - o que bem visto nem foi
assim tão difícil! Para mim claro, pois, passei metade da adolescência a atirar
bolas contra a muralha fernandina que, à época, me cercava. Com ou sem vírus!
Para 2021, nada antecipo,
porque a realidade é quem mais ordena e eu pouco voto tenho na matéria. Fica
dito!
28.12.20
Uma literatura
específica, empenhada em desfocar a realidade, procurando, através de
associações inesperadas, questionar a ordem vigente…
Uma literatura vítima do
poder, que dele se propôs escarnecer.., mas que raramente o conseguiu
incomodar… (ideia controversa!)
Vale, no entanto, a pena
visitar a exposição Fazedor do Nada Perfeito, até 30 de Dez. 2020,
na SNBA.
26.12.20
Mais valia que
aprendêssemos o silêncio antes de começar a barafustar a torto e a direito…
Parece que o
primeiro-ministro deveria ter prometido, para 2021, o que sabe, de antemão, não
poder cumprir.
Creio que ainda não
percebemos que a mentira não nos tira do pântano em que nos vamos afundando.
Se, em 2021, António Costa conseguir assegurar as necessárias vacinas e estas
nos livrarem da ameaça que nos fustiga, já teremos razões de sobejo para festejar…
25.12.20
Em dia de Natal,
sol e frio. Só nos faltou o chá!
24.12.20
As verdadeiras flores
estão no jardim. Estas 'colhidas' hoje são apenas representação, ilusão
visual.
Um bom Natal para todos!
- familiares, amigos e estranhos para que não se percam na 'floresta de
enganos'...
22.12.20
De quando em vez,
regresso só para observar
as vírgulas.
Coloco uma aqui, retiro
outra ali.
Por mais estranho que
possa parecer,
a mudez do censor das
vírgulas incomoda-me.
De imediato,
o que me inquieta é o
tempo - o atraso que não vou ser capaz de ultrapassar, com ou sem vírgula.
Superada a inquietação,
desci até à ruina do lugar, até à nulidade da ação política.
20.12.20
Apesar dos sinais serem
de despojamento, tal não significa que a vida se extinga. O recolhimento apenas
significa uma desaceleração do ritmo, criando uma harmonia. Está nas nossas
mãos compreender essa necessidade ou, pelo contrário, continuar a pensar que
somos superiores, virando as costas aos ensinamentos fundamentais do Vida.
A própria morte, se não resultar da nossa incúria, ganhará sentido
por muito que não o queiramos aceitar.
18.12.20
Entre mortos e feridos,
algum se há-de salvar!
Crentes ou não, vamos lá
celebrar o Natal!
No íntimo, todos
acreditamos que o azar espreita, mas que, em regra, bate à porta do vizinho… o
que não parece muito inteligente se aceitarmos a definição de inteligência
formulada por António Damásio:
«É essa capacidade que
permite resolver problemas e ajustar o comportamento de um ser vivo a esses
problemas de forma a permitir a continuação da vida.» Jornal
i,
18-12-2020
16.12.20
Longe de mim
impedir quem quer que seja de se divertir. No entanto, nunca entendi o espírito
da época - sempre que olhava à volta, por mais próxima ou distante que ela se
me afigurasse, não conseguia enxergar o motivo para tanta celebração… Com o tempo,
fui compreendendo que o mundo era extremamente desigual e injusto… o que me
obrigava a refletir na extraordinária capacidade humana para celebrar como se
tudo corresse pelo melhor ou pudesse transformar-se sob o efeito de uma taça de
champanhe e algumas passas...
Até nas igrejas se
erguiam para-ventos para que o frio ficasse lá fora… e o presépio, apesar da
sua própria génese, era um lugar acolhedor, cheio de figurinhas gorduchinhas
indiferentes aos ventos que se levantavam… Por mais que, em 2020, a perceção da
fatalidade próxima e distante tenha crescido, a verdade é que insistimos em
viver no fingimento milenar, sem sequer colocar a hipótese de o suspender.
13.12.20
… em 24 horas!
Entre 1 de Janeiro e 10 de Dezembro, faleceram 110.000
portugueses.
É demais!
Continuamos a correr atrás do prejuízo ou nem isso…
São velhos, meus senhores! A quem é que podem
interessar?
Ainda por cima, há tantos outros que morrem
diariamente, segundo as estatísticas. Oficialmente, ninguém sabe porquê. Leva
tempo a apurar as causas…
Desde 1949, que não morria tanta gente! O que é que
aconteceu naquela data?
- O ano em que as senhoras deixaram as meias
em casa! CAUSA: UMA ONDA DE CALOR.
12.12.20
… então não serve, não cumpre o seu dever - servir o
país, respeitando os direitos humanos, e não servir-se a si próprio. Por
respeito à semântica, o ministro deve ser substituído.
11.12.20
O dinheiro! E a
cultura?
Já não se trata de
investir na cultura ou em subsidiar os artistas. Trata-se de desvalorizar as
atividades artísticas, de as reduzir a ZERO.
Por toda a Europa, a
Cultura passou a parente pobre. Parece que a aposta é, definitivamente, na
barbárie, hipotecando, de vez, os valores democráticos.
E ainda há 'democratas' que se queixam!
10.12.20
Há na república uma rã
que insiste em ser boi. Sempre que aparece, incha desmesuradamente, coaxa
altivamente… e no fim, deixa o palco convencida de que outros são todos
estúpidos…
O problema é que esta rã
não é única, pois, se o fosse, um destes dias rebentaria e a república ficaria
em sossego.
Não. No palco, sucedem-se
as rãs à espera de vez. Algumas já têm o tamanho de burros. Zurram e dão coices
a torto e a direito.
7.12.20
E não se chama Ernesto!
Só que não nos quer
deixar no meio da temível tempestade que nos atormenta...
Nasceu para unir e não
para separar. Tudo o que pensa, diz sempre em tom magistral... para que nada
nos possa acontecer de mal...
E não se chama Ernesto!
Chega mais tarde, não
porque tenha perdido a estrela de Belém, mas porque não quis misturar o
presidente com o candidato.
Doravante, o presidente e
o candidato vão dormir, um no palácio, o outro na cabana do pastor Viriato...
E não se chama Ernesto!
5.12.20
O
discurso de Costa descola da realidade
Nos últimos dois dias, o
número de infetados cresceu, isto é, nos dias 3 e 4 de Dezembro. Ora, o senhor
primeiro-ministro dirigiu-se, hoje, ao País com uma avaliação construída com
dados de 2 de Dezembro, como se a realidade não fosse dinâmica…
Gostaria que António
Costa fosse capaz de se libertar do PowerPoint das
quintas-feiras e nos dissesse que pelo caminho trilhado o melhor é cancelar o
Natal, deixando-se de jogos que inevitavelmente acabarão por agravar a
situação.
O discurso apresentado
obedece ao guião acordado com Marcelo e Rio, mas não acompanha a
realidade.
Depois queixam-se do
extremismo, mais ou menos populista...
4.12.20
Parece que o cérebro se
esvaziou. Apenas uma palavra me convoca - a distância. É como se o que já
esteve perto se fosse esfumando… e depois do fumo, nada.
Da proximidade, apenas a
memória, também, ela cada vez menos nítida.
Todos os dias, o
obituário covid se avoluma à custa da ocultação da mortalidade diária.
E num gesto de
propaganda, ainda há quem nos queira enganar, falando-nos de generosidade, de
confiança e de esperança.
1.12.20
Este é o homem de
todo excelente: quem tudo compreende por si só, pensando no futuro e nas coisas
que levam a um fim melhor. (Hesíodo, Os
Trabalhos e os Dias)
Partiu o homem com quem
aprendi a ler as incongruências de Portugal e da Europa.
Partiu Eduardo Lourenço
que me soube explicar Fernando Pessoa... um dia depois.
Se lá no Céu o calendário
tiver cabimento, terão doravante todos os dias necessários ao esclarecimento
dos mistérios desta Europa que insiste em torpedear o futuro.
Eduardo Lourenço ao
Expresso de 9.03.1996, a propósito da morte de Vergílio Ferreira:
Para um escritor,
a longevidade, graça ou excesso de zelo da vida, é um acidente. O tempo de uma
obra, aquilo que lhe dá coerência por dentro e a torna única, não se mede pela
balança dos anos. Ninguém sabe o que o peso dos anos acrescenta ou rouba a esse
outro tempo fora do tempo onde a obra existe.
29.11.20
Sempre supus que
estivéssemos todos a prazo. Afinal, há uma exceção: Jerónimo de Sousa.
Ah, a glória de mandar!
28.11.20
Um tempo velho, se tal
faz sentido... Mas, provavelmente, apesar dos sinais de tempos distintos, o
envelhecimento é uma questão que só ao homem diz respeito. Só ele tem
consciência da ruina em que se vai tornando.
Há, no entanto, exceções.
Por exemplo, o Partido comunista português remoça a cada congresso que realiza
ou, pelo menos, apregoa-o.
Bem sei que não devemos
esquecer os 100 anos que se avizinham, sobretudo os tempos da clandestinidade.
Talvez, por estes dias, o Partido esteja a rever-se nessas horas de luta de
outros camaradas que a maldita História tende a olvidar.
25.11.20
De partida, tantos!
Vítimas disto e daquilo e muitos de si próprios… Pouco importa! Não resistimos
a destacar uns e a ignorar os restantes...
Hoje, é dia dos 'amigos'
de Maradona subirem ao palco para lhe enaltecer as virtudes futebolísticas e as
rebeldias, colocando uma pedra sobre a alienação coletiva que, durante tantos
anos e em tantos lugares, o catapultou para o lugar de Deus.
Doravante, só o mito
perdurará, porque Deus não tem culpa... O que seria de nós se a morte se
esquecesse dos heróis?
22.11.20
O excesso de velocidade
dos motards é perdoado, porque o Miguel de Oliveira triunfou no Moto GP...
Já passa das 13, as
meninas, afinal, tinham ido almoçar a Matosinhos… Uma senhora fora dar
banho ao cão, de carro... Os estabelecimentos continuam a repor os stocks...
Mas há algo que não
entendo: - Como é que há tanta gente a circular, se não há atividade económica?
E ainda dizem que as
forças da ordem são abusadoras! Mas como, se a mensagem que transmitem é que o
povo é cumpridor!
Ou será tudo a fingir?
20.11.20
À conta da gestão do SNS,
ontem, passei o dia em Leiria. Um vale cirurgia enviou a minha mulher para o
Centro Hospitalar S. Francisco. (Ainda, não sei qual deles - Assis,
Xavier, Borja...)
Que remédio, há 5 anos
que desesperava por uma taciculectomia no Hospital Central de Lisboa!
Vale, no entanto, a pena
considerar que a bondade do SNS não é cristalina, pois uma cirurgia ambulatória
tem encargos que ele não suporta.
No caso, três deslocações
a Leiria, com pernoita num hotel - 2 noites; custos de deslocação e de
alimentação... e falta de comunicação...
17.11.20
Dizem-me que o
cacto é de Natal. Façamos como ele, antecipemos o natal!
O menino Jesus certamente
também estará de acordo. Cansado do ventre virginal, só espera um raio de sol
que o leve ao encontro dos reis magos, evitando-lhes esforços inúteis, e,
sobretudo, que lhe permita trocar as voltas ao déspota Herodes...
Por seu turno, as
crianças já não têm paciência para esperar pela noite natalícia, habituadas que
andam a reclamar o seu presente diário.
E nós, os mais velhos, só
queremos que não nos matem com repastos pantagruélicos que, na maioria das
vezes, nos deixam indispostos até ao dia de Reis...
(Sem falar do alívio de
Maria e da tortura do carpinteiro...)
15.11.20
Não
precisa de máscara para observar
Vá ao Jardim da Quinta
dos Condes dos Arcos! E faça como o palhaço, sem o ser… Lá não há alarmistas,
nem aventureiros.
Já me disseram que na
primeira foto é visível um espantalho e não um palhaço.
Não duvido, mas por estes tempos, qual é a diferença?
Nestas hortas, há de
tudo… até orvalho!
13.11.20
Na caixa de correio, nada
do que fora prometido - um pequeno acessório de um aparelho de ar condicionado.
Nada de essencial, não fosse um acessório… E nesta vida, valorizamos cada vez
mais os acessórios!
Na caixa de correio
eletrónico, dezenas de promoções não solicitadas… todas acessórias, mas com uma
particularidade - os chineses querem que eu lhes confirme o contacto, pois o
que têm para me oferecer é significativo, essencial.
Na realidade, eu nem
queria abordar tal tema, mas lembrei-me dos tempos em que não havia caixa do
correio. Se correio houvesse, seria entregue em mão ou, até, em corpo inteiro,
mesmo que alma tivesse andado transviada.
Por exemplo, naquela
sexta-feira - dia treze? - o romeiro, a fingir de 'ninguém', apresentou-se no
palácio que dele fora, a saber novas de sua esposa…
Tudo teria sido menos
dramático, se ele tivesse enviado um e-mail. Madalena tê-lo-ia bloqueado e as
mortalhas teriam sido poupadas.
9.11.20
Talvez pudesse eliminar o
hífen, mas ele ajuda-me a superar a inquietação mental e física. Claro que não
estou sozinho, o mal-estar parece ser geral - ia a escrever 'coletivo', mas não
entendo a substância da palavra. Poderia ter escrito 'significado'… o que me
levaria à referência, à ideia de uma mole enorme pesarosa, sofredora,
cambaleante… Mas não, o mal-estar é geral.
Qualquer sintoma desperta
dramatização. No palco entram em cena múltiplas situações, todas derrotistas,
como se a espada do velho Dâmocles se multiplicasse… e agora, surge a dúvida: -
velho, porquê? A lenda. apenas, diz que era um cortesão… que, mais tarde,
acabou por ser útil a Cícero.
E o mal-estar também tem
origem nesta dispersão em que o popular e o académico se combinam, querendo
nós, por força, moldar o sentido do que a pouco e pouco se vai degradando…
Felizmente, este
mal-estar não é diferente do de outras épocas, em que, apesar das sucessivas
barbáries, alguma luz voltou a brilhar.
Ah! se eu pudesse
eliminar o hífen!
8.11.20
"E vi subir
da terra outra besta, tinha dois chifres semelhantes aos de um cordeiro; e
falava como dragão." (Apocalipse 13:11)
Afinal, a Besta foi
derrotada, mas, como todas as bestas, tem dificuldade em aceitar o resultado…
Esperemos que, no tempo que lhe resta, não faça nenhuma asneira que nos atire
para o abismo.
5.11.20
No século XXI, nos
Estados Unidos, os votantes não são todos iguais. Num estado, valem mais;
noutro valem menos…
230.000 mortos não
parecem ser motivo suficiente para desalojar uma Administração que deu sobeja
prova de incompetência e de desrespeito diários - uma administração abjeta.
Por cá, os sinais são,
também, de preocupação. Oficialmente, 2740 indivíduos já morreram de COVID-19.
No entanto, as entidades oficiais e a comunicação social desvalorizam o
problema, ao repetirem permanentemente que a grande maioria dos falecidos tem
mais de 80 anos…
1.11.20
O moço chama-se Simão! Aquele
que ouve. Ouvinte. De facto, o moço brasileiro tem essa rara qualidade e
sabe contar estórias…
Enquanto esperava o café,
comecei a pensar em chamar-lhe Pedro. Ali, ao lado, as mesas estavam ocupadas
por clientes habituais, mas que, neste dia, «fazem horas» para ir à missa…
Talvez o olhar para aquelas criaturas de Deus me tenha despertado a ideia de
que também eu poderia transformar o pescador em pedra…
No entanto, tal criancice
- ou seria desafio? - afligiu-me, despertando estranhos vislumbres de violência
doméstica - distante, sim, mas presente, sobretudo, quando Deus se atravessa,
rebatizando as criaturas sem lhes pedir anuência…
O problema não é tanto o
da violência humana, para a qual certamente contribuímos, ao ponto de lhe
assumirmos uma parcela de culpa, mas, sim, a violência gratuita que nos confina
sem qualquer explicação ou, quando exista, nos seja apresentada de forma paternalística.
29.10.20
Quando todo mundo quer
salvar o Natal, alguma coisa vai mal! O que a classe política europeia quer é
salvar os votos e o negócio.
Novembro é para esquecer,
a começar pelos defuntos e pela cultura...
Vá lá, aplainemos a curva
para que, em dezembro, possamos invadir as lojas, os hotéis, comer e beber à
farta, viajar sem constrangimentos… tudo isto para celebrar o Natal, apesar da
maioria se estar nas tintas para o significado da data, até porque logo a
seguir não podemos perder a passagem de ano.
E depois, em janeiro...,
regressamos à casa de partida.
Política de casino!
27.10.20
Por vezes, distraio-me e
dou comigo a pensar no que move a decisão política. E chego sempre à mesma
conclusão: o interesse mesquinho, no sentido de visão limitada.
Essa decisão é, no
entanto, apresentada em nome do interesse público - seja dos trabalhadores e do
povo, seja, simplesmente, do povo português.
Na atual situação de
profunda crise económica, social e humana, o debate em torno do OGE causa-me
nojo.
E por mais que me digam o
contrário, este tipo de debate só ajuda a compreender a mesquinhez de cada um
dos partidos, incapazes de se unirem na procura das melhores soluções para
atenuar a crise em que iremos viver nos próximos anos, se não formos 'ceifados'
pelo vírus.
25.10.20
Por
unanimidade, o Bloco vota contra o OGE
Então, o Bloco de
Esquerda quer salvar / apropriar-se do Serviço Nacional de Saúde?
Lembra as falsas grávidas
que rondam as maternidades com o objetivo de roubar os recém-nascidos.
Parece que o Novo Banco,
a TAP e o Montijo já deixaram de incomodar!
Por unanimidade, o Bloco
vota contra o Orçamento. Voto democrático, certamente!
24.10.20
Ontem, foram as
irritações; hoje, as dúvidas.
De ontem, tudo parece ter
ficado como estava. Penso, no entanto, que não será bem assim: as vítimas não
deixam de o ser quando o silêncio impera.
Hoje, não sei se devo ser
vacinado contra a gripe, porque, apesar do que se diz, custa-me a aceitar a
ideia de que o que não faz bem, também não fará mal, no atual contexto.
Bem sei que o senhor
Presidente Marcelo já se chegou à frente, mas, a mim, falta-me a luz que o
ilumina.
Nesta incerteza, começo a
debater-me com uma dúvida caprichosa. Será que estar aposentado é o mesmo que
estar reformado?
De momento, estou a
sentir-me reformado, o que não me agrada por aí além-palavra fatal, o Além!
23.10.20
Não vou avançar o motivo
do sobressalto. Não gosto de voltar atrás. Mas há telefonemas que irritam, que
nos colocam perguntas insensatas ou pouco piedosas, se quiserem.
Há perguntas que revelam
desvario ou pior, porque deixam no ar a ideia de que os justiceiros não olham a
meios para atingir certos alvos que sabem fragilizados.
22.10.20
Sem máscara, perder-se-ão
imensos votos… Está dito!
A verdade vem sempre ao
de cima. É preciso começar a preparar as eleições autárquicas.
Por isso, o melhor é
seguir o exemplo de quem anda sempre mascarado - estes e os outros…
Entretanto, vou esperando
pela resposta… porque na propaganda, candeia que vai à frente alumia duas
vezes.
Tudo serve, até o
infortúnio!
20.10.20
Dizer o óbvio para quê?
Basta abrir os olhos e
deixá-los pousar nas primeiras páginas, nas aberturas dos telejornais, nas
postagens das redes sociais… e nem é preciso pensar no que possa estar errado,
porque está tudo certo. É a nossa imagem refletida nos figurantes do momento.
Ainda pensei em solicitar
a vacina contra a gripe, mas perdi a vontade depois de ver o nosso Presidente
Marcelo em tronco nu.
Não me lembro de que
alguma vez me tenham mandado tirar a camisa para o efeito. Ainda se fosse uma
radiografia!
Se apanhar a gripe, a
culpa será do Presidente!
19.10.20
Aí está a chuva! Talvez
os solos agradeçam que nós continuamos afastados do essencial.
A estatística alarma-nos,
deixando-nos atormentados em vez de nos obrigar a ser humanos, protegendo quem
deveria merecer o nosso respeito - os mais velhos, encerrados em lares, mais ou
menos clandestinos...
A obrigação do Estado é
vistoriar todos os lares, independentemente do seu estatuto, acabando com os
abusos de quem vive à conta da velhice.
18.10.20
Um domingo chato,
quezilento... O sol ainda aqueceu, mas nem assim ... Talvez, amanhã seja um
pouco melhor - vem aí o mau tempo para compensar!
16.10.20
Os amigos não esquecem.
Meia centena, cada um de per si, deu-me os parabéns. Muito obrigado a todos.
14.10.20
Apenas a música passa das
notas às frases, que só fazem sentido se apreendidas globalmente. Eu não sei
nada de música!
De palavras, sei um pouco
mais. Sei que são constituídas por fonemas e que sem eles não há frases
verbais… O problema é que somadas não fazem sentido - falta-lhes a coesão da
história.
Mas isso pouco importa, a
história deixou de explicar o passado e apontar o futuro. Estamos de regresso
ao tempo dos mitos cuja função parece ser a de justificar a identidade
clânica.
Longe de qualquer clã,
sigo o movimento da nora sem, no entanto, conseguir a harmonia que rege o dia,
mesmo quando nos anunciam tempos de amargura.
12.10.20
Dia sim, dia não, vou ao
rabisco e não fisgo uvas, só engaços como se… Os bagos já lá vão e os
prometidos parece que já têm dono.
Assim sendo, aproveito
para ficar em casa, em vez de me enfiar na adega. Creio que já não faz sentido
ir lá provar o vinho. Nem mesmo pelo S. Martinho!
Por aqui, o Natal chegou
mais cedo, mesmo sem luzes, se quiserem vir, sempre se arranja um copo de
vinho… Mas por favor, venham apenas dois ou três…
10.10.20
Quando se observa o
número daqueles que 'entram' num blogue, fica sempre a impressão de que anda
muita gente a navegar ao engano. Por que porta, perguntará o ironista.
Em geral, o número de
leitores é reduzidíssimo, o que significa que os visitantes acidentais
proliferam.
Seria interessante saber
por que motivo tropeçaram em certos 'posts' e, em particular, o que procuravam…
e certamente não encontraram.
Passam como os insetos,
mas não deixam marca... não replicam.
Se me desse ao trabalho
de expor o que tenho feito por estes dias, o blogue talvez fosse mais
apelativo. Mas para quê tornar público o que é privado? Por outro lado, da
informação colhida é melhor nem falar - ela é tão absurda, tão fantasista, tão
maçadora e perigosa… infantilmente desastrada que, mesmo à beira do precipício,
somos convidados a dar o passo derradeiro…
(Claro que me estou
a referir a blogues desinteressados e desinteressantes como Caruma.)
9.10.20
«Atualmente estamos
ameaçados pela perspetiva de sermos apenas consumidores, indivíduos capazes de
consumir seja o que for que venha de qualquer ponto do mundo e de qualquer
cultura, mas desprovidos de qualquer grau de originalidade.» Claude
Lévi-Strauss, O pensamento 'primitivo' e a mente 'civilizada'.
Não resistimos aos
estímulos de toda a ordem que determinam as nossas ações, apesar de sabermos
que o consumismo é fator de desigualdade social e de ruína física pessoal e
telúrica.
7.10.20
«A ciência nunca nos
dará todas as respostas. O que podemos tentar fazer é aumentar, lentamente, o
número e a qualidade das respostas que estamos capacitados a dar, e isto,
segundo penso, apenas o conseguiremos através da ciência.» Claude
Lévi-Strauss, O Encontro do Mito e da Ciência.
Pois é, a Ciência anda
tão esquecida ou, melhor, desrespeitada. E por quem? Por gente que nada sabe,
mas que opina como se detivesse a verdade.
Habituámo-nos a ouvi-los,
a concordar e a discordar. Sobre o quê? Apenas, a vaidade, o momento... Do
problema nada sabem … e nós continuamos a ouvi-los, a lê-los.
E até votamos neles,
mesmo que eles sejam os coveiros dos seus próprios irmãos.
4.10.20
Há muito que o homem
atribui à palavra a capacidade que lhe falta para explicar os acontecimentos,
para explicar a sua própria origem. E com esse procedimento, as palavras
tornam-se mágicas, tornam-se poéticas.
As palavras ganharam vida
própria, dispuseram-se em doutrinas, o que deu aos homens a possibilidade de
agirem contra os seus opositores, chegando ao ponto de os mandar matar - em
nome de Deus, em nome do Rei, em nome da Lei.
Hoje, as palavras
continuam a cegar o homem que, irresponsavelmente, se esconde nelas para
proclamar a segurança - vivemos num tempo que, perante o desconhecido, em vez
de nos calarmos, insistimos na magia da palavra.
Insistimos na mentira da
palavra…
1.10.20
Correu tudo conforme o
protocolo consignava. Eles cumpriram a parte deles. Eu cumpri a minha... quer
dizer, estou a tentar cumprir…, pois ainda falta recuperar da intervenção, e,
sobretudo, ter a sensação de que o perigo desapareceu. A certeza será do especialista,
mas só em novembro…
Eles, os médicos, os
senhores enfermeiros e outro pessoal do recobro tudo fizeram para que o ato
cirúrgico decorresse com rigor e em segurança… Seis horas mais tarde,
enviaram-me para casa com guia de procedimentos - acompanhando-me até à porta
do veículo que me embarcava, não fosse eu perder-me nalgum corredor do hospital
(Curry Cabral).
O SNS, neste caso, cumpre
plenamente a razão para que foi criado. Até a UFS promete receber-me para o
devido acompanhamento sem hora marcada, desde que o faça das 8 às 19h.
(A nota pode parecer
hermética, mas não é. Falta-lhe a contextualização, mas tal fica para a
programação das TVs.)
29.9.20
Amanhã, vou testar o SNS.
Vamos lá ver se o não deixo ficar mal.
Pelo menos, não levo o Covid 19 comigo. Garantia do mesmo SNS.
Em síntese, vou ficar de
boca fechada - afinal, o melhor antídoto para muitos casos.
Como dizia um ilustre
clínico: - pela boca morre o peixe!
27.9.20
Se não combatermos os
vírus, eles acabarão por nos destruir.
As sociedades não podem
continuar a tolerar indivíduos cujo único objetivo é aniquilar o que há de mais
humano na humanidade: a fraternidade.
E estes indivíduos têm
todos um ponto em comum: fazem tábua rasa do diálogo.
Defendem o confronto como
estratégia de conquista do poder.
Por mim, já chega!
25.9.20
É preciso ver o espaço
envolvente para compreender a atenção do ganso do nilo, que não é apenas
visual... creio que é, sobretudo, auditiva.
Qualquer movimento de
aproximação é lido como um ataque iminente, principalmente se a prole está por
perto.
Um som mais estridente é
o suficiente para que a ordem de retirada seja dada e... logo obedecida.
Pois, e nós como é que
nos comportamos perante o perigo? Preferimos o desafio, porque acreditamos ser
livres.
24.9.20
Quem anda à chuva,
molha-se... E há quem goste! Gostos não se discutem.
O provérbio dá conta da experiência popular, provavelmente daqueles que
souberam abrigar-se.
No entanto, nesta
pandemia, a experiência esfuma-se: Há cada vez mais idosos que insistem em
expor-se, sem qualquer necessidade…
E o mais preocupante é
que a experiência parece estar a ceder o lugar aos «espertos» que saltitam de
galho em galho à espera do momento oportuno para deitar a mão às sobras...
22.9.20
No
outono ainda não estamos sós
Por muito que escureça,
por muito que nos queiram confinar, não estamos sós...
Claro que há uns que
proclamam que somos vítimas da conspiração da ciência com os politólogos, e
outros que pensam que o melhor é encerrar de vez o planeta... desde que possam
continuar a gozar a vida.
Bem sabemos que só os
outros é que morrem, mas isso pouco pesa... Na primeira pessoa, os mortos
perdem a voz e por isso é melhor não olharmos à nossa volta, mesmo que a vida
germine sob as nossas idiotices...
Se os próprios bispos
temem os efeitos da educação para a cidadania, partindo do princípio de que
ainda não perderam a razão, então alguma coisa de muito errado estará a
acontecer às convicções que, tradicionalmente, suportavam a sociedade...
De qualquer modo, a
esperança mora em qualquer jardim que atravessemos. E se estivermos atentos, a
coragem não nos faltará.
20.9.20
A instabilidade não
existe na natureza. Nem sequer existem regras... Nós é que as criamos, e ao
fazê-lo, abrimos a porta ao medo e à loucura.
Em setembro, os gansos do
Nilo reproduzem-se, alheios à ciência, mas mudam de plataforma sempre que o
predador espreita…
Nós, no entanto,
incapazes de detetar o inimigo, desrespeitamos as regras que fomos criando,
como os loucos que partem para o campo de batalha à espera de vencer os
ventos...
Vigilante, o ganso sabe
que o futuro da espécie depende da sua vigilância.
E nós?
19.9.20
Apelar à responsabilidade
individual fica bem, mas não convence, sobretudo quando o apelo vem de quem tem
dificuldade em compreender que nem sempre a esfera privada é distinta da esfera
pública.
Saltar de uma esfera para
a outra é uma tarefa arriscada, porque os amigos são para as ocasiões.
Neste país, há tantos
amigos à espera de uma oportunidade!
Por outro lado, ser
responsável pressupõe distanciamento...
18.9.20
Para o evitar o
crescimento da pandemia — já que "o vírus não anda sozinho" —, é
necessário, segundo o primeiro-ministro, seguir cinco regras fundamentais:
“Temos de travar a pandemia por nós próprios”, afirmou António Costa,
destacando 5 regras fundamentais: usar máscara "o mais possível e
obrigatoriamente sempre que necessário", manter a higiene regular das
mãos, respeitar estritamente a etiqueta respiratória, manter o afastamento
físico e utilizar a aplicação Stayaway Covid.
Parece simples, mas não
é!
Estamos a necessitar de
ajuda na travagem da pandemia. Ajuda das forças da ordem, que não podem
continuar a fechar os olhos perante situações de clara infração das regras, por
desconhecimento, por irresponsabilidade ou por desafio.
Estamos a necessitar de
coragem para clarificar que a máscara é obrigatória, não deixando a sua
utilização ao critério de cada um…
E sobretudo, não
precisamos que nos venham dizer que uma aplicação é meio caminho para a
solução, porque não há nenhuma evidência de que o seja...
É preciso ser muito mais
rigoroso no controlo das deslocações, das entradas e saídas das escolas, dos
lares, das igrejas, dos hospitais, dos locais de trabalho...
O senhor
primeiro-ministro sabe muito bem que as regras, por si, não bastam. É preciso
vigiar a sua aplicação.
E depois, há regras que o
não são, e que não passam de pura propaganda…
E já agora o vírus não
anda nem sozinho nem acompanhado! Nós é que o transportamos e propagamos!
17.9.20
Lisboa, Campo Pequeno, 18
horas.
A rapaziada convive ao
som de músicas periféricas. Não sei se estes jovens já foram à escola ou se,
simplesmente, fizeram gazeta…
De qualquer modo, não
parecem preocupados - o tempo para eles é de alheamento, sem contemplação...
nem comprometimento.
16.9.20
Da morte, prefiro a
imagem da vida, por mais imprecisa que ela possa ser. E agrada-me a ideia de
que a alma se liberte da morte e, ao cair da noite, se recolha na árvore mais
próxima, mesmo que o lugar seja numa área de serviço, na margem da A1.
Com o despertar do dia,
as almas podem seguir o seu caminho, trocando as voltas à morte... e pouco
importa que a imagem vá ficando indistinta.
14.9.20
Portugal Continental vai
estar em situação de contingência entre 15 e 30 de Setembro...
(As Ilhas têm o seu próprio estatuto…)
Ora se contingência
significa incerteza ou significava, isso quer dizer que pouco vai
mudar: tudo se resume em viver com o medo de ser apanhado ou em arriscar
permanentemente, desafiando a racionalidade...
Verdade seja dita que a
segunda atitude parece querer vingar, pois até os cientistas sociais se
manifestam contra a educação cívica e democrática.
A educação é, por estes
dias, o novo vírus que é preciso combater em nome de uma outra ideia de
liberdade que definitivamente deixa de fora a fraternidade... porque ou se
nasce cidadão ou ...
12.9.20
Nas atuais
circunstâncias, ver um Primeiro-Ministro integrar a Comissão de Honra do Senhor
Luís Filipe Vieira, é triste!
Independentemente do
passado poluto ou impoluto do Senhor, aquilo a que estamos a assistir é
indecoroso: o desperdício de dinheiro na contratação de treinador e de
jogadores ofende não só os benfiquistas, mas também todos aqueles portugueses
para quem o futuro dificilmente sorrirá.
Espero que o Senhor
António Costa não tenha ficado preso na rede que foi tecendo enquanto
presidente da autarquia lisboeta…, não podendo, agora, dizer NÃO.
11.9.20
Há quem necessite de
confessar, mas longe do confessionário, sabendo todavia que esse é o único
lugar onde a partilha está favoravelmente proibida - uma confissão sem
auditório!
No entanto, esse lugar
apaziguador não serve de nada, porque deixou de se acreditar no perdão divino e
se teme, em simultâneo, a condenação dos homens incapazes de analisar as
situações… Homens sem ou com demasiada memória!
Por isso mais importante
do que enterrar o passado é preservar a palavra, é não a partilhar…
8.9.20
Arrancada ao mar, a alga jaz na praia. Desafiada pela
sombra, não resiste, porque espera uma onda que a devolva à origem e a liberte
da intrusão…
A onda levou o Vicente Jorge Silva e eu vejo-me mais
pobre, porque sempre apreciei a sua forma de pensar, a sua coragem… o seu
combate contra os tiranetes.
Enquanto a onda não regressar, vou continuar a ler,
mas vai ser difícil encontrar quem ainda saiba pensar, quem ainda saiba
combater os tiranetes nas ilhas e no continente...
5.9.20
Para que serve a ponte,
se mais não fazemos do que repetir as mesmas frases, sem ter consciência de que
vivemos num rio de equívocos?
Atravessamos o rio, mas
ignoramos o tabuleiro. Podemos até valorizar o veículo, indiferentes à água que
banha os pilares; preferimos as caravelas que se erguem dos telhados de Lisboa…
Metálicas, as caravelas
já não reparam nos corvos, absortas que andam com lugares que de tão comuns só
servem para destruir as pontes…
2.9.20
Hoje, pensava escrevinhar
sobre a melancolia em idade avançada, e na tendência para exaltar experiências
vividas ainda não há muito tempo…
Escrevinhar sobre o
afastamento do 'aqui-e-agora'- e da tristeza inerente com a inevitável
condenação do presente…
Todavia, esse estado
decadente pode ser mitigado, desde que estabeleçamos um objetivo prático - a
lição é do velho Freud!
Eu, por exemplo, resolvi
estudar alemão. A sério! Quero ler o original e não sentir que estou a ser
traído…
Só que a Lua decidiu
interromper-me as toscas ideias.
Ela lá saberá porquê!
31.8.20
Os filósofos podem ser
cansativos, no entanto há que não desesperar, pois alguns acabam, efemeramente,
por se dedicar à política, mesmo se da Cultura… Refiro-me a Manuel Maria
Carrilho, cuja obra vou percorrendo com algum vagar - PENSAR O MUNDO, vol. I, página
818, encontrei a seguinte pérola:
«... ao contrário
do PSD que é permanentemente ziguezagueante, com Marcelo Rebelo de Sousa a
apresentar uma política de manhã e outra à tarde. À noite, em geral não tem
nenhuma, porque está a pensar na do dia seguinte: Marcelo é, do meu ponto de
vista, pura gelatina política.»
Ambos, Manuel Maria
Carrilho e Marcelo Rebelo de Sousa, atribuem supremo valor à política cultural,
mas… Ambos são cultos, mas… vivem em estado líquido.
28.8.20
L'avenir n'est plus ce
qu'il était. Paul Valéry
Era esperança, solução.
Era vida!
Hoje, fechou-se a
janela… É um ponto de fuga, numa estação de serviço ocupada por mutantes…
Todos querem ser bruxos e
curandeiros, dispondo da vida a seu bel-prazer…Enredados, pensamos que
caminhamos, mas não - alcatruzes de uma nora de outrora, falhámos o pomar e,
embora oiçamos a ave, deixámos de a ver...
Quanto à Festa do Avante,
continuo a não ter nada a dizer, embora não perceba a preocupação da rapaziada
do CDS - lembra-me aqueles jovens da linha de Cascais que, logo a seguir ao 25
de Abril, vinham atacar os alunos do Passos Manuel.
27.8.20
Cada um segue os seus
instintos. Pouco ou nada há a acrescentar. No fim do dia, nem sequer há a
perceção de mudança, a não ser que a fome aperte ou que o frio incomode…
Crises para quê? Os
sobressaltos já são em demasia e ninguém quer perder o tacho, grande ou
pequeno…
(Todos os dias escrevo
aqui, para depois recuar, sobre a Festa do Avante. E até hoje nenhuma ideia me
pareceu razoável!)
26.8.20
À espera de que a maré
suba, que a noite chegue ou nem por isso. Mas se assim for, já não é espera,
nem sequer do Godot.
Dizem que saber esperar é
uma virtude. Por exemplo, o alentejano é virtuoso porque sabe esperar. Espera
no banco à beira da casa…
O alentejano, no entanto,
só sabe esperar no banco da rua. Se o mandam para casa esperar, morre de
tristeza. Não sabe o que fazer ao olhar...
24.8.20
Durante uns anos, o
professor Carlos Eduardo Nunes Diogo colaborou comigo na formação de
professores na Universidade Autónoma de Lisboa - a relação foi sempre cordata,
apesar de parca em palavras… Mais tarde, encontrei-o na escola Secundária de
Camões, como colega diligente e quase sempre sorridente. E as palavras
continuaram raras, como se houvesse uma distância intransponível…
Hoje soube que o Carlos
Diogo partiu, adiando as nossas palavras. Talvez, com mais tempo…
23.8.20
Não creio que as palavras
possam acrescentar o que quer que seja. Por elas, o silêncio é mais
esclarecedor… O absurdo está em querer dizer por palavras o que nos
escapa. Ou em insistir em dizer por outras palavras. Metáforas para quê?
22.8.20
Agradeçamos!
Vinde e dizimai-os!
O Reino Unido anunciou
hoje um aumento do número de novos casos de covid-19, com o país a registar
1.288 infeções nas últimas 24 horas. Já em Itália, foram registados 1.071 casos
de contágio, o maior aumento diário desde maio.
Ávidos da moeda do
estrangeiro, abramos os mãos e acolhamo-lo nas nossas casas, deixemo-lo
usufruir do pão e da cerveja e, no fim, revigorados da sua presença, dancemos
até ao nascer do dia... se a ira divina não se tiver, entretanto, abatido sobre
as nossas cabeças…
20.8.20
Não é um juízo! Pelo
menos, livre. Apesar da rebeldia, que imaginava legítima, tudo o que dizia,
mais do que fazia, era sempre uma resposta, embora não fosse confrontado…
Se a morte do estímulo acontecesse, a revolta perdia motivação e, no lugar
dela, sobejava somente desorientação ou, em muitos casos, teimosia que, por
vezes, era lida como convicção.
Não ter a quem servir
aborrece-o. Falta-lhe um rosto, mesmo se irado, mesmo se oculto.
Paradoxalmente, hoje,
serve um bicho invisível que o obriga a cumprir um dos objetivos da retórica -
instituir a distância, estar atento aos movimentos do outro para que haja lugar
para o confronto.
O confronto e não o
consenso! Como se a vida da Terra dependesse da eliminação quotidiana da
memória…
19.8.20
É assim! Uns correm para
o litoral, outros para o interior. Aqui ao lado, poucos se movem. Nem as canas
de pesca se agitam; descansam pensativas na corrente... Talvez as aves lhes
tenham desviado o cardume! A maré vai cheia - a água do mar sobe, ali, para os
lados da Póvoa de Santa Iria, ao contrário da mártir, que do Nabão foi dar nome
às areias do Tejo… para, depois, continuar o seu caminho para lá da foz.
18.8.20
Uns afrontam-se alheios à
condição. Outros, em nome de uma essência bacoca, descontextualizam tudo, como
se fossem os únicos portadores da verdade...
E depois há os apressados, formados na escola do oportunismo, que pensando
agradar a gregos e a troianos, se dedicam a criar mamarrachos e a plantá-los um
pouco por toda a parte.
E esta semana, sob
pretexto de uma homenagem no dia em que Miguel Torga faria 113 anos, na
quinta-feira, a junta de freguesia de São Martinho de Anta, lembrou-se de usar
a raiz (do negrilho) como base para uma escultura do rosto do escritor
transmontano, uma intervenção feita por Óscar Rodrigues. De acordo com o
presidente da junta, José Gonçalves, a raiz estava a entrar em podridão, e
houve, assim, uma súbita urgência de fazer alguma coisa.
Martinho de Anta, 26 de Abril de 1954
Na terra onde nasci há um só poeta.
Os meus versos são folhas dos seus ramos.
Quando chego de longe e conversamos,
É ele que me revela o mundo visitado.
Desce a noite do céu, ergue-se a madrugada,
E a luz do sol aceso ou apagado
É nos seus olhos que se vê pousada.
Esse poeta és tu, mestre da inquietação
Serena!
Tu, imortal avena
Que harmonizas o vento e adormeces o imenso
Redil de estrelas ao luar maninho.
Tu, gigante a sonhar, bosque suspenso
Onde os pássaros e o tempo fazem ninho!
16.8.20
Li algures - no
caso, talvez me acompanhem na alusão - que a retórica tem como objetivo
assegurar a superioridade à causa mais fraca… No entanto, a formulação deve ser
bem antiga, pois, no presente, observo precisamente o contrário… Exemplos todos
conhecemos… O melhor é não os mencionar!
O que me intriga, de
momento, é que haja gente tão inteligente e, ao mesmo tempo, tão estúpida - os
termos deveriam ser antitéticos. Mas não: são compatíveis.
De qualquer modo,
aceitamos ser governados por gente tão estúpida e que não tem pingo de
inteligência. Entretanto, alguém me explica o que é que está a acontecer ao
António Costa. Estou sem notícia dele desde o dia 11 deste mês!
14.8.20
Parece saber para onde
vai e voa facilmente. Procura a água e as flores. Vive mais anos do que é
suposto, mas só se deixa observar meio ano de cada vez...
Estranha forma de vida,
colorida, e que obedece certamente a leis que lhe são naturais. Nós, que nos
exibimos durante todo ano, não só definimos as leis, como as fazemos desiguais…
12.8.20
O retorno ao 'tempo
normal' não faz sentido. Se, no presente, suspeitamos a cada momento das ações,
nossas e alheias, isso não é expressão de 'anormalidade'. Pelo contrário, a
suspeita exige que olhemos à nossa volta, reconhecendo que no 'tempo normal' nos
habituáramos a viver como se a terra fosse toda nossa.
Infelizmente, a procura
desenfreada de uma vacina mais não é de que um sintoma de que não estamos
preparados para abandonar o estilo de vida capitalista que, desde o final da
guerra fria, foi derrubando fronteiras, enriquecendo uns, cegando outros, e condenando
à morte milhões de seres de todas as espécies…
O retorno ao 'tempo
normal' é uma ideia insensata.
9.8.20
O enunciado "só há
ida...", descobri-o em Manuel M. Carrilho. Não sei se é do próprio, mas
serve para questionar as noções de identidade, de saudosismo, de messianismo… O
regresso a um outro tempo individual ou coletivo não passa de uma fantasia por
muito apegados que vivamos...
O que vamos fazendo é que
nos define em cada tempo, sempre descontínuo. O relógio que carregamos é uma
prisão inventada por quem nos quer condicionar o caminho.
O ciclo das horas
mortifica.
6.8.20
A Avenida da Liberdade,
às quatro da tarde, de pouco serve. Pouca atividade, trânsito reduzido.
Turistas, meia dúzia…
No Jardim da Estrela, uma
outra faceta da cidade. Muitos lisboetas espalhados pelos relvados; alguns
turistas nas esplanadas; toilettes encerrados e os lagos, com muito pouca água.
Um deles parece ter secado há uns meses… Os peixes estão a acabar; os patos e
os gansos estão em extinção.
3.8.20
A força do ruído
mediático é avassaladora!
Os media repetem entre si
ocorrências, resultantes da falta de preparação profissional dos protagonistas
do momento, visando transformá-las em acontecimentos, em vez de se referirem à
miséria do amadorismo que se vai instalando - todos estamos aptos a desempenhar
qualquer tarefa…
Entretanto, o país exulta
com os resultados dos exames nacionais. Em determinadas disciplinas, as notas
subiram três valores, porque, a partir do Covid-19, passou a ser possível obter
20 valores, mesmo se as respostas falhadas (opcionais?) correspondessem 6
valores.
Correspondessem! Sim,
porque, quando se ignora um sinal vermelho numa linha férrea, os efeitos não
devem ser levados a sério - errar é humano… e, doravante, estimulado.
Espero que o pensamento
de Karl Popper não tenha em nada contribuído para este ruído e para esta
euforia.
E também espero que
ninguém tenha decretado a morte da ironia…
1.8.20
"Estúpido é
aquele que prejudica os outros sem obter benefícios para si…" (Carlo
Cipolla)
Bem verdade!
Como dos estúpidos não
reza a Filosofia, estou em crer que vivo no país em que inteligência não
escasseia. Basta observar a quantidade de processos que se arrastam na Justiça
para perceber que muitos portugueses sabem como tirar proveito de toda e qualquer
situação favorável ou desfavorável…
Nunca esqueci um livro de
ensaios do Jorge de Sena - 'O Reino da Estupidez'. Nele, 'o estreitamento
mental' era uma consequência do confinamento político e não um traço
genuinamente português.
31.7.20
Se
cada vida é uma enciclopédia
Se cada vida é uma
enciclopédia, o desafio de lhe percorrer as avenidas torna-se penoso, porque os
caminhos se tornaram encruzilhadas que foram determinando cada momento.
Foram-se os princípios e ficaram as circunstâncias…
A vida é determinada por
circunstâncias cada vez mais desligadas da narrativa anterior. Veja-se o que
está a acontecer em 2020! O elo quebrou-se e, agora, de nada serve olhar para
trás…
O presente é determinado
pelos erros que formos cometendo ou evitando. A astúcia está no jogo da vida
que pode ser de morte.
Agora joga-se à porta
fechada, mas melhor fora que as portas se abrissem e entrássemos com o respeito
devido.
30.7.20
O que é que significa
viver em estado de emergência ou de alerta?
Ir à praia ou ao campo...
ao shopping ou à boutique... ao bar ou à discoteca?
Gozar férias no
estrangeiro ou regressar à terra de origem?
(Tudo feito de acordo
com protocolos definidos pelas autoridades de saúde para que os hospitais não
voltem a entupir… e os velhos deixem de morrer em silêncio.)
A semântica parece variar
de contexto para contexto, como se o problema não fosse mundial. E depois há o
outro problema - o da derrocada económica e social. Por aqui ainda há quem
acredite que se formos à praia ou ao campo, ao shopping ou à boutique, ao bar
ou à discoteca; se os emigrantes regressarem à origem… e se nos empanturrarmos
de leitão e de marisco, de cervejas e outras libações, então, a nação
salvar-se-á…
Haja paciência!
28.7.20
A borboleta não incomoda,
mas um cão à solta pode incomodar e muito…
A borboleta, apesar da
cor, é quase invisível. Por vezes, não fosse a abelha, nem dávamos conta da sua
presença.
O cão também sabe
esconder-se, porém se a presa o atrai, torna-se audível e ataca a canela sem
olhar a quem… E pode ser irritante se nos toma de ponta.
E a irritação é algo com
que não sabemos lidar…
Vem isto a propósito do
quê? - De certas bandeiras que insistem em acirrar ódios antigos…
26.7.20
Uma pessoa foi morta a
tiro na principal avenida de Moscavide. Era sábado de compras e de
coscuvilhice, o sol começava a escaldar… Disse-se de imediato que a vítima era
negra e, mais tarde, que era ator… Não estou a ver a importância da cor, nem se
a pessoa era profissional ou amador…
Estou sem saber se o
homem que matou não gostava de negros ou de atores, mas dizem-me que tinha 80
anos e que foi imobilizado pelos populares. Estranho que estes não tenham
tentado fazer justiça pelas próprias mãos.
Será que os moscavidenses
não gostam de negros ou de atores? Ou será que a idade do homem lhes impôs um
certo distanciamento?
Entretanto, o
aproveitamento sectário já está em marcha.
Para perceber a causa da
morte gostava de saber se o homem que matou algum dia foi pessoa...
23.7.20
Dou-me mal com o calor… E
a prova disso é que, enquanto leio Pensar o Mundo de Manuel
Maria Carrilho, vou relendo uma velha Gramática Latina…
Claro que vou espreitando
a informação, mas esta é tão deprimente que já não sei o que pensar deste
pequeno mundo lisboeta: parece que decidiram pintar as ruas de verde, azul, de
laranja…
Os decisores de Lisboa e
Vale do Tejo deveriam era pintar a cara de preto. Afinal, na periferia e no
interior da capital, as condições de alojamento são miseráveis e quem lá vive,
se não é clandestino é precário… e trabalha para patrões habituados a pagar
impostos nos países frugais…
Outros vão reconstruindo
espigueiros, deixando o pavimento dos arruamentos ao abandono…
21.7.20
Concluída a estadia no
Caramulo, hotel Golden Tulip, o caminho de regresso... a casa, a última, porque
na vida há muitas casas, cada uma com a sua história…
Pena é que as casas vão
ficando desertas; as memórias dos seus habitantes apagam-se sem deixar notícia…
Talvez tenha sido por
isso que John Banville escreveu O Mar, numa derradeira tentativa de
prender o presente do passado.
Concluída a leitura, fica
a ideia de que Banville domina a técnica da composição, só que do passado o que
se pressente é a inventiva do autor.
19.7.20
O homem, que foge da
destruição, aposta na preservação e no restauro… A natureza, que de nada foge,
transforma…
Eu já não fujo nem
transformo, apenas observo, embora não queira cair no alheamento.
Só que as ações humanas
são tão cretinas que eu gostaria de ser vegetal numa encosta verdejante
de uma serra…qualquer… Sem jesus, nem vieiras, nem venturas, nem cristinas e,
sobretudo, sem espíritos santos, mexias, sócrates e outros cardeais…
16.7.20
A toponímia de certos
lugares tem particularidades evocativas inesperadas.
Desta vez, a associação
foi instantânea. Uma jornalista entrevistava o diretor de uma escola secundária
de Lisboa: - D. Jaime, o que é que pensa do modo como…; e o diretor respondeu o
melhor que soube, aproveitando para vincar a sua discordância…
Nada de novo, a não ser
que a jornalista se despediu de D. Jaime…
Ora a secular escola não
fica assim tão longe da rua Tomás Ribeiro, o autor de D.
Jaime ou a Dominação de Castela, nascido na Parada de Gonta,
Tondela, a 1 de julho de 1831...
O poema foi elogiado por
António Feliciano de Castilho, que chegou a compará-lo com Os Lusíadas,
de Camões.
Os caminhos por onde
passamos são pródigos e, talvez, a jovem jornalista estivesse a falar /escrever
direito por linhas tortas… Acontece a muita gente!
Não fosse o inimigo
invisível, diria que seria expressão de um viajante despreocupado...
Não vou referir o lugar
para não provocar nenhum indesejável ajuntamento.
Deixo apenas o registo de
que daqui se avista a serra da Estrela, o que, por instantes, me fez
pensar na montanha de "Aparição" do Vergílio Ferreira, eu que escolhi
ler por estes dias "O Mar" de John Banville.
No ano passado,
curiosamente, lia a "Montanha Mágica"...
Interrompo o registo,
porque, aqui, o canto das aves me desconfina...
13.7.20
O neto do marquês de
Pombal nunca imaginou que um dia a retina do cidadão comum haveria de dar mais
relevo ao guindaste que se eleva na praça do que à sua ação militar e política
ao longo do século XIX, já não falando dos estudos filosóficos e homeopáticos a
que se dedicou…
O olhar adapta-se às
alterações do contexto, o que se aceita… o que não se compreende é o
esquecimento em que mergulhamos, apesar de não ser difícil entender que o
fazemos por conveniência…
E as conveniências
alicerçam-se na manipulação diária da informação, havendo quem não se importe
de inventar ou de viciar as fontes…
11.7.20
(O tempo é de desacordo.
E isso, em si, não é assim tão mau…)
A atual pandemia trouxe a
nu a dificuldade em acordar procedimentos saudáveis (…)
O problema é que o vírus
não afeta, só, o local, tornou-se global, mesmo que uma parte da humanidade
reaja com desdém… E a solução parece estar cada vez mais distante de quem,
efetivamente, dela precisa…
A Ciência e a Política
coabitam promiscuamente, e a última não descansará enquanto não reduzir a
primeira à condição de criada…
10.7.20
Sexta-feira. 11:30. Muita
areia, mas o povo não resiste ao acantonamento…
No bar-restaurante da
praia, nova gestão - francesa. Ainda sem ritmo, mas promete, a cozinha...
Só é pena que o Município
de Almada ainda não tenha descoberto as vantagens do asfalto e de um
parqueamento disciplinado!
A água do mar continua
fresquinha...
8.7.20
Desproporcional? Talvez! Tudo
depende da distância…
Só quando nos aproximamos
é que podemos compreender a relatividade da nossa visão, da nossa crença…
Há quem ensine que a
crença é o que mais nos aproxima da verdade, da nossa verdade, porque, afinal,
a arquetípica não existe…
A ciência não tem
resposta, porque não descobre o sentido. Sem sentido não há ciência!
Resta, no entanto, o sem
sentido que, em muitos casos, se torna matéria da imaginação - esse planeta que
pode ser solução para o problema que é a vida…
6.7.20
Brilha ao sol, a cidade.
Asseada, espelha uma realidade distorcida, porque do outro lado, falsamente
confinada, a cidade despeja a obscuridade da pobreza nos transportes pensados
para a criadagem desgarrada…
Entre eles, há mordomos
cujo objetivo é passar para o lado de cá.
Quem é que sabe
verdadeiramente o que se passa do lado de lá? Por exemplo, na freguesia de
Santa Clara, que reúne as antigas freguesias da Ameixoeira e da Charneca…
5.7.20
524.000
pensionistas têm mais de 80 anos
Convém não ignorar a
informação da Segurança Social portuguesa, via Correio da Manhã. E nos outros
países, a situação é idêntica.
Perante esta realidade,
compreendo a reação do governo inglês. Na noite passada, as centenas de milhar
de britânicos que foram para a rua «agiram com responsabilidade».
A noção de
'responsabilidade' deve ser interpretada com uma boa dose de cinismo.
O governo inglês, afinal,
ao proibir a vinda de ingleses está a proteger os nossos idosos.
4.7.20
O
que seria dos ingleses sem os portugueses?
A História ensina que,
pelo menos, desde o século XIV, o destino de Inglaterra passou a estar
dependente da ação portuguesa: fomos nós que demos visibilidade à ala dos
namorados; fomos nós que elevámos a família Lencastre aos píncaros da fama.
Dona Filipa, mãe da ínclita geração, tornou-se madrinha de Portugal…
Sem a expansão
portuguesa, o que seria dos corsários e dos piratas ingleses? Se nós não
tivéssemos insistido no mare nostrum, os ingleses nunca teriam
lançado as bases do império britânico, nem teriam apostado na apropriação das
matérias-primas dos territórios que foram ocupando, incluindo a terra lusa… Até
o Ultimatum ficou a dever-se à insensatez do mapa cor de rosa!
E, sobretudo, nenhuma
destas proezas teria sido realizada sem a ajuda dos vinhos do Porto e da
Madeira.
Reconheça-se que nas
vitórias dos britânicos, houve sempre contributo português. Por exemplo, nas
últimas décadas, nós cedemos-lhes o Algarve para que pudessem gozar o sol e o
mar, os campos de golf… muita cerveja e vinho…
Perante a lamúria atual,
há uma coisa que eu não entendo: quem são verdadeiros beneficiários da
atividade turística algarvia? Os portugueses?
Os ingleses são uns
ingratos, apesar de, no Reino Unido, darem emprego a mais de 250.000
portugueses.
2.7.20
O Governo quer segurar
tudo ao mesmo tempo. No entanto, não há dinheiro. Se não há, para quê isentar,
subsidiar, nacionalizar, injetar capital, emprestar a fundo perdido, impor
moratórias? Prometer para não cumprir!
Anda tudo de mão
estendida nesta barataria…
Se não deixamos falir
quem nada fez para proteger a atividade, então o Estado diluir-se-á nas mãos
dos predadores e a Nação apagar-se-á de vez.
O COVID-19 apenas traz ao
de cima o pior de nós próprios - o medo e a irresponsabilidade.
30.6.20
Não são de vida nem de
morte. Estes três últimos meses são de hibernação. Uma espécie de purgatório
para quem ainda se sente ligado à tradição…
Para que o tempo passe,
ocupo-me com a inutilidade da filosofia que, na verdade, me coloca a questão de
saber o que andei a fazer durante tanto tempo - as certezas proclamadas
esboroam-se, deixando um sabor amargo, como se o passado se tivesse tornado numa
grande mentira…
Mas esta necessidade de
ocupar o tempo aborrece-me infinitamente. Viajar é provavelmente a única
atividade capaz de me fazer sair da clausura. Lá fora, há todo um mundo por
descobrir, mas devagar…
28.6.20
O que os venturas
procuram é visibilidade. Dissensão. A melhor forma de lhes responder é
ignorá-los, porque os venturas são meninos mimados que nunca souberam o que era
o trabalho, a dor, a fome…
Os venturas alimentam-se
da desigualdade social, da falta de instrução, da alienação.
Os venturas não são
pessoas, são indivíduos que se servem do rebanho para melhor subjugarem as
presas.
Se deixarmos, os venturas
farão tábua-rasa da Democracia.
A verdade é que hoje me
apetecia falar de hortas. Do seu cultivo. Da minha vontade de regressar à
infância, mesmo se dolorosa, em que as couves cresciam tanto que eu lhes podia
aproveitar a sombra, apreciar os tubérculos e os legumes… sem esquecer os frutos,
e a nora, e a burra que tudo suportava. No entanto, nessa infância também havia
venturas que desprezavam as pessoas e que tinham feito tábua-rasa da
Democracia…
27.6.20
O senhor ministro da
Educação bem podia analisar os "rankings" dos exames nacionais de
2019. Os resultados são uma tristeza!
Não vale a pena querer
esconder o sol com uma peneira!
Em matéria de educação e
de ensino, o futuro está comprometido. Será que há outra via?
26.6.20
Se começasse com uma
citação, situava-me. O que não é certo, porque o esforço de apagar a memória,
para além da indiferença, também eliminará as coordenadas…
Vamos, assim, fazer de
conta que o que me motiva é a verdade da vida, aferida pela sua utilidade,
permitindo-me aquilatar do seu valor, dela, por mais ambígua que seja…
Se agíssemos de acordo
com a verdade da vida, já teríamos percebido que, desta vez, o inimigo é
invisível, mas verdadeiro. Escondermo-nos poderia ser um caminho, mas não
basta: temos de o enfrentar.
O hedonismo tornou-se uma
forma de suicídio, embora se compreenda em indivíduos que não querem ser
pessoas.
Ando nos cais e só oiço
vozes vazias… algumas elevam-se aos céus como se o ignoto deo estivesse de
regresso para lhes iluminar… o quê?
25.6.20
Não conheço os
pormenores. Parece, no entanto, que a ministra da Saúde puxou o tapete ao Chefe
e este zangou-se: os dados do Primeiro eram desmentidos pelos factos
apresentados pelos epidemiologistas e, sobretudo, pela sua ministra sob o olhar
benevolente de sua Excelência…
De súbito, a Verdade era
questionada por outras verdades, menores, claro - todas elas confinadas a
visões parcelares…
Não assisti à zanga, mas
se bem entendi, o Primeiro deixou bem claro que estava farto de ser Segundo.
Porém, por agora, tudo
acabou em bem lá no INFARMED. Sua Excelência acabou por segurar o tapete ao
Costa…
24.6.20
O melhor é não bater no
Presidente. Com ele ao leme e a comunicação social a bajulá-lo, não precisamos
nem de governo nem de parlamento.
O homem é a soma das
qualidades do povo português, ou melhor, como diria o Poeta, a média das
virtudes da alma lusa.
O Ferro e o Costa que se
cuidem! Bem sei que o não convidam, mas ele aparece. E tem opinião sobre tudo,
como se fosse o verdadeiro 'dono disto tudo'...E se o convidam, então, são
pequeninos…
Um destes dias, lá
teremos de o aturar no Caia! Espero que já tenha lido a malograda Batalha
do Caia do Eça. O homem é capaz de ler o que ficou por escrever…
23.6.20
Marcelo Rebelo de Sousa
no adeus a Pedro Lima: "Ele era o retrato da vida, o retrato da
felicidade"
O senhor presidente não
resiste a uma metáfora!
O problema é que num caso
de suicídio, as metáforas podem ser perigosas. A não ser que o senhor
presidente estivesse a pensar em explicar-nos que a felicidade não corresponde
ao retrato que dela traçamos...
O senhor presidente
começa a perder o tino, facilmente.
22.6.20
Os cisnes podem morrer de
desgosto, mas os homens não…
Claro que certas culturas
souberam desenhar projetos capazes de cimentar a solidariedade intergeracional…
A família revelou-se um elemento essencial na construção e preservação da
identidade patrimonial, mesmo se o caminho exigia obediência cega…
O amor filial
transformava-se em amor paternal… porque o padrão assim o ensinava, o que não
impediu que milhões de jovens fossem sacrificados em conflitos sucessivos… sem
grande remorso.
Por estes dias, desfeita
a identidade patrimonial familiar, a solidariedade intergeracional está morta.
E não é por falta de beijos e abraços… Podemos fingir que nos faltam os beijos
e os abraços, mas a crise só será temporariamente superada, quando os amigos da
festa começarem a tombar.
20.6.20
Posso tentar descrever o
jardim: a uma zona relvada sucede uma canal de água mais límpida do que a de
outro registo; e depois, nova zona relvada, mais rara de início, onde pousam
alguns pombos, próximos de uma ninhada de patos já crescidinhos que, a espaços.
mergulham no pequeno lago, sombreado por uma meia dúzia de árvores… Nas zonas
de sombra e de luz, perdem-se folhas secas por entre pequenas flores de
estação… E finalmente há todo o tipo de vermes que apenas pressinto…
Esta descrição fracassada
não dá conta da verdadeira vida que habita o jardim. É apenas um exercício para
dizer que a verdade dos nossos governantes, para além de ser menos modesta, é
mais mentirosa do que a minha.
Eu pressinto os vermes,
mas eles fingem que neste nosso jardim não há minhocas quando nos querem
convencer (e aos outros países amigos do negócio) que a causa do número de
infetados é do grande número de testes realizados… Como se o vírus deixasse de
circular se o não incomodássemos…
18.6.20
E acabe enfim esta
consciência oca
Que de existir me resta.
(F.P., Fausto na taberna)
Findar ou aperfeiçoar?
Em consciência, quem é
que deseja que a consciência se extinga? O suicida, certamente. Mas para quê?
Fugir da vida que nos foi entregue para que a preservemos é um ato egoísta,
individualista.
Apetecia-me zancar na
sociedade individualista, mas o indivíduo não sabe nem quer viver em grupo e
muito menos em sociedade. Não há nenhuma sociedade individualista, apenas
predadores que, quando não se apoderam do poder, se imolam para não terem de
ouvir a consciência.
Em suma, melhor seria
apostar no aperfeiçoamento do que nos foi dado em vez de chorar o leite
derramado.
17.6.20
Mas não é inda o fim.
Inda é preciso
Que a morte me desmembre
em outro, e eu fique
Ou o nada do nada ou o de
tudo
E acabe enfim esta
consciência oca
Que de existir me resta.
(F.P., Fausto na taberna)
Pense o Fausto o que
quiser sobre o modo de ficar, pouco interessa. Nesta vida, só a consciência
atrapalha, porque desaprendemos de viver o tempo - essa inexistência que pesa
fora das tabernas, das adegas e dos bares deste mundo...
O tempo é o produto da
suspeita de finitude, onde o barqueiro deixou de ser necessário.
16.6.20
Não sei se são ideias…
talvez, enunciados; no limite, frases ou onomatopeias mal aparadas.. Vivo
de incertezas que caem quais pedras de granizo. São de neve, mas destroem…
Podia pensar em mentiras,
só que no verso não encontro qualquer verdade…
Sem verdade nem mentira,
não há certeza que me sossegue...
Sucedem-se os ministros,
os deputados, os cardeais… e já não percebo se são reais. Nem nos livros, me
encontro - pardais saltitantes à procura do arroz integral que lhes vou
servindo diariamente... e, no entanto, eles não duvidam... só suspeitam.
14.6.20
Para
quê derrubar ídolos de outros tempos?
Hoje cruzei-me com uma
figueira ornamental (ficus religiosus oriental). Nesta primavera oferece-nos
uma cor sedutora… Só que, entretanto, lembrei-me de uma ideia que matinalmente
se apossara de mim: para quê derrubar ídolos de outros tempos se os jardins nos
oferecem tantas plantas e árvores exóticas? Pensei, por exemplo, que por estes
dias nos deixamos seduzir pelos jacarandás, apesar da goma que nos pode atirar
ao chão.
E uma ideia arrasta
outra. Portugal deveria venerar as suas árvores de fruto, a começar pela
figueira torrejana ou algarvia... Deveria venerar a oliveira, a amendoeira, a
laranjeira, a avelaneira, o castanheiro, o sobreiro... e se ainda nos
apetecesse vingarmo-nos do passado, então deveríamos começar por abater tudo o
que, em nós, é supérfluo, exótico...
12.6.20
Do
Covid não há notícia nos santos populares
Popular: A rua está
triste! Em Alfama, não há Covid, como se vê! Só polícias!
Outro popular: Nem a neve
cai na Serra da Estrela. Só nevoeiro! Do Covid não há notícia... nem do Sol!
Bernardino Soares: O
Covid está aqui, em Loures, entre os desempregados e os precários, nos bairros
pobres, nos autocarros…
Graça Freitas: Uma
esplanada ao longo da avenida, um grelhador... Uma rica sardinha pode bem
animar a noite dos santinhos, sem incomodar o Covid, desde que seja servida por
mãos higienizadas e bocas amordaçadas...
(... até porque, em
junho, o Covid prefere as estátuas dos colonizadores e dos colonialistas,
indiferente à diferença...)
11.6.20
Em
1968, a gripe matou mais de 1 milhão de pessoas
Mais de 1 milhão de mortos. Já ninguém se lembra.
Porquê?
9 mai 2020
Grippe de Hongkong :
pourquoi on l'a tous oubliée
Il y a seulement 52 ans, la grippe de Hongkong causée par un virus H3N2
partait de Chine centrale pour se propager à travers la planète. Le bilan est
terrible : plus d’un million de morts dans le monde dont 30 000 à 35 000 en
France. Pourtant, plus personne ne semble s’en souvenir aujourd’hui, y compris
parmi les médecins qui étaient mobilisés à l’époque. Comment expliquer cette
amnésie collective ? Raphaëlle Rerolle, grande reporter au Monde nous raconte
cette épidémie oubliée dans Pandémie, le podcast du Monde consacrée à la crise
du coronavirus.
10.6.20
Vá lá, batam no Centeno
que ele merece… Não tenham vergonha! O sangue de Ourique não perdoa… Em nome de
Cristo, abaixo os sarracenos e todos os centenos de aquém e além mar!
O dia 10 de junho de
2020, com ou sem covid, nada deve a Camões a não ser a expressão "apagada
e vil tristeza" que praticamos com o maior fervor, da monarquia à
república, da direita à esquerda…
E como tal, este
apontamento é daqueles que vai cair no olvido. Reconhecer o mérito no tempo
certo nunca foi uma qualidade lusitana. Camões que o diga, apesar de todos os
patriotismos que encimou ao longo dos séculos... Em vida, deixaram-no
entristecer até que o vírus o levou...
9.6.20
Apesar da vingança se
servir fria, a classe política portuguesa não espera pelo inverno… Ainda agora,
o doutor Centeno começou a despedir-se, e já as portas começaram a fechar-se...
Pouco importa se o rigor
orçamental do ministério das finanças trouxe estabilidade ao país e alguma
esperança em melhores dias, o que é preciso é evitar que ele seja nomeado
governador do Banco de Portugal não vá ele persistir no seu propósito…
Lá no fundo, o homem não
é um político, ao contrário do que por aí se propala, o que é muito perigoso
para a classe política ávida de repartir o bolo, mesmo que ele resulte de um
bodo europeu aos pobres…
Se o Centeno não serve
para o Banco de Portugal, fico ansioso por conhecer as propostas da Assembleia,
apesar de, constitucionalmente, o direito de indigitação não ser dela…
Que S. Francisco nos
ajude!
7.6.20
Ela estava lá, mas não
tenho memória de a ter transposto. Agora dá para um parque de estacionamento…
Outrora, ali, joguei à bola ou melhor arrasei as canelas de quem ousava
aproximar-se das redes…
Desse tempo, a
única recordação futebolística que mantenho é a do impacto da bola na
muralha fernandina.
A porta invisível era
substituída pela porta dos fundos, por onde se entrava e saía, já que a porta
principal estava reservada a gente mais graúda e de subida etiqueta.
Lá dentro, tudo obedecia
a uma ordem divinamente estabelecida… Do que consigo enxergar do atual Paço
Episcopal, creio que o amadorismo dos últimos anos deu cabo da singularidade do
edifício… à exceção da fachada e da Igreja do antigo colégio jesuíta - talvez
seja ainda fruto da passagem do exército napoleónico!
5.6.20
Sentei-me. À direita, o
Seminário, agora Paço Episcopal… Ao lado, a Igreja da Piedade. À esquerda, o
Convento de S. Francisco. Na retaguarda, a Escola Prática de Cavalaria… sem
Salgueiro...
Em frente, uma placa - O
MIRANTE - o único jornal regional digital que leio diariamente…
Se alongar a vista, posso
imaginar todo o território - do Largo Sá da Bandeira às Portas do Sol; do
Tribunal à Praça de Toiros… e ver o Tejo, em tempos abundante, e por ora cada
vez mais assoreado…
Tudo o que vejo e não
vejo surge reconfigurado, com ares de moderno, mas também abandonado, como
acontece com o Cineteatro Rosa Damasceno… Pobre Santareno!
Aqui sentado, continuo a
vaguear pelas ruas estreitas repletas de igrejas vazias em que uma ou
outra Senhora me vai convidando a visitar os altares, imaginando-me forasteiro
inesperado, qual Cabral chegado do Brasil...
E lá ao fundo, à
esquerda, o Liceu Sá da Bandeira em dia exame, para lá de Santa Clara… sem
esquecer que, um dia, o Passos terá guiado o Garrett a um jardim só mais tarde
desenhado…
4.6.20
… antes das palavras…
antes do significado das palavras…, reconheço que o silêncio era uma aspiração,
porque o quotidiano era de trovoada, ora súbita ora fermentada…
O silêncio, que também
aterrorizava, era nesse tempo um refúgio, sem qualquer valor mítico que mais
tarde lhe pudesse ser atribuído…
E as palavras, quando
chegaram, eram falsos deuses atirados à toa num combate antecipadamente
perdido, o que explica que se tenham tornado ocas e postiças…, apesar das
analogias, fracas.
3.6.20
A frivolidade consiste em
falar por falar, sem objeto, sem finalidade, sem ter nada para dizer. Manuel
Maria Carrilho, Pensar o Mundo, vol.I, pág. 153
Alimentar um blogue é ser
frívolo, já que tudo convida ao silêncio - a lição inicial.
A razão ainda me convida
a regressar ao começo, a esmiuçar o que se passou antes de certos empurrões - a
analisar. Faltam-me, no entanto, as evidências. Apenas conjeturas,
hipóteses.
As palavras
revelam-se incapazes de dar conta se os atos foram voluntários ou somente
respostas defensivas, como se a vida corresse a cada momento sério risco…
Correr atrás das palavras
de nada serve, apesar de elas terem o dom de nos devolver alguma dignidade ou,
em contrapartida, de expressar a nossa monstruosidade.
31.5.20
De costas e a cismar. Em
quê? Nos estafermos que proliferam por esse mundo fora…
Em comum, a falta de educação.
Em comum, o narcisismo.
Em comum, a megalomania.
Em comum, a vaidade.
Em comum, a vontade de destruir os valores que todos deveríamos prezar.
30.5.20
É
estranha a vida neste final de maio!
Como se tivesse chegado a
hora de redigir o testamento da burocracia cívica, os atos ordenam-se numa
vertigem desinteressada…
De regresso à rua, o que
mais enfeitiça é o jacarandá… o resto são vidas paradas e mascaradas, como se o
todo tivesse desaparecido: fragmentos olham os teslas em movimento silencioso e
pesaroso.
Fujo do calor,
incomodado, sem saber explicar por que motivo o termómetro do meu corpo regista
35 graus. E volto à leitura de textos filosóficos sem conseguir pensar o mundo…
Falta-me o método
zetético! Já nem o mundo consigo julgar… E sobram-me os estafermos!
28.5.20
Ana Mendes Godinho:
“Com este Governo, os jovens não serão aconselhados a emigrar”
Talvez! Mas qual é o
plano de reestruturação da economia nacional capaz de os integrar numa vida
ativa e digna? Qual é o plano de formação capaz de os libertar do trabalho
precário e mal remunerado?
O próprio conceito de
emigração é falacioso, pois há muitas áreas de atividade em que o trabalho pode
ser realizado sem deslocalização. Provavelmente, uma parte dos jovens mais
empreendedores acabará a trabalhar para entidades transnacionais sem sair de casa…
Sozinhos não iremos a
lado nenhum e os jovens muito menos!
A emigração, na maioria
dos casos, sempre significou servidão, porque os emigrantes apenas são
reconhecidos se forem pau para toda a obra, como aconteceu na Europa do
pós-guerra ou mais recentemente, apesar da apregoada excelência dos nossos
jovens…
27.5.20
Acabo de atravessar o
Jardim Almeida Garrett na Portela de Loures. Oficialmente, neste
concelho há 894 casos confirmados de Covid 19. Neste jardim, grupos
de familiares ou de amigos confraternizam alegremente. Não os fotografo para
que não percam o anonimato - deixo-os com a insensatez de quem ainda não
percebeu o problema... ou talvez o complexo nominal «distância social» não lhes
diga nada ou não passe de absurdo verbal incapaz de representar a realidade.
Não é preciso imitar a
vaca, mas bem podíamos aprender a afastar as moscas...
26.5.20
A Organização Mundial da
Saúde (OMS) alertou para um «segundo pico
imediato» do novo coronavírus em países onde a taxa de infeção por Covid-19
está a diminuir, caso sejam levantadas demasiado cedo as medidas de contenção.
Mike Ryan, diretor do
programa de emergência da OMS, deixou o recado: Não podemos partir do
princípio de que só porque a doença está a diminuir vai continuar a descer».
«Temos alguns meses para nos prepararmos para uma segunda vaga», sublinhou,
deixando claro que «podemos ter um segundo pico» da doença.
O aviso chega depois de,
ontem, Maria Neira, diretora do departamento de Saúde Pública da OMS, ter dito
que é «cada vez mais» improvável uma segunda grande vaga de Covid-19.
Todos falam em nome da
OMS, mas cada autoridade tem uma opinião diferente sobre o problema. Ainda se
soubessem florir!
24.5.20
Em Alcochete. O novo
passeio ribeirinho continua interdito pela Proteção Civil - não falta espaço
para cumprir o distanciamento social!
Em consequência, o povo
vai-se atropelando nos passeios…, apesar de tudo estar mais ou menos às moscas.
Neste caso, as moscas são os turistas que continuam ausentes…
Hoje, o rio mais não era
do que um extenso lodaçal… Até o touro do parque infantil me pareceu farto do
confinamento…
23.5.20
Não é por causa dele, mas
este pavão irrita-me. É que há tantos pavões por esse mundo fora que se torna
impossível compreender o que está a acontecer à humanidade…
A sedução é cada vez mais
o caminho da aniquilação.
Gostaria de ser simpático
com o pavão, mas não posso. Nele só vejo trapaça...
22.5.20
De ontem, ficou-me a
sensação de que os códigos sociais de nada servem. O egoísmo arrasa qualquer
convenção humana - dá cabo da cultura já em si cada vez mais relativizada…
De hoje, o recato da
gestação - o isolamento como ato construtivo.
De qualquer modo, está em
curso a estupidificação da sociedade - a sua infantilização, a que nem a
ciência consegue esquivar-se.
21.5.20
Ministro do Ambiente
explica normas: Semáforo vermelho não proíbe entrada nas praias. É UM
CÓDIGO DE CORES!
O ambiente do senhor
ministro, João Matos Fernandes, não se rege por códigos…
Se a floresta está a
arder, para quê interromper o caminho?
Se o vulcão entra em
atividade, para quê abandonar o local?
Se no cruzamento abre o
semáforo vermelho, para quê parar?
Nunca percebi por que
motivo este senhor foi elevado à categoria de ministro do ambiente! Ainda
pensei que fosse porque já não havia mais ninguém disponível, mas não, foi
porque o exercício político é tão mais profícuo quanto mais ... for o titular.
(Falta-me o atributo ou,
em alternativa, a analogia - borboleta, talvez…)
20.5.20
Se o teletrabalho, se a
teleaprendizagem estão para ficar, então as grandes concentrações humanas parecem estar
a acabar…
Viver em torres de babel
será o futuro dos pobres, porque os ricos e os remediados perceberão que a vida
nas zonas, por ora, mais esquecidas é mais sossegada, isto é, mais feliz…
As metrópoles serão
ocupadas pela periferia, num combate suicida - a violência, a doença e a fome
tomarão de assalto as sobras do capitalismo até ao seu colapso definitivo.
Dentro de 50 anos, a
humanidade terá sofrido uma redução drástica, permitindo, assim, que a Terra
renasça.
19.5.20
Estamos a entrar na fase
cínica. Somos convidados a viajar, a ir à praia e aos restaurantes, para
satisfação do fisco. Saídos da fase de solidariedade mediática, ficamos por
nossa conta e risco… se só os velhos morrem, qual é o prejuízo?
Como escreveu Saramago: «os
velhos calados e sombrios, mal seguros nos pés, babam-se, dia de bodo é o único
em que se não lhes deseja a morte, por causa do prejuízo que seria. E há febres
por aí, tosses, umas garrafinhas de aguardente que ajudam a passar o tempo e
espairecem do frio. Se volta a chover, apanham-na toda, daqui ninguém arreda.» O
Ano da Morte de Ricardo Reis, pág. 77, Porto editora.
Até já deixou de chover e
o calor está aí, convidativo… quanto ao vírus, terá hibernado…
18.5.20
Observei-a hoje no Jardim
da Gulbenkian. Confinada como estava, não passava cavaco a ninguém. Ainda não
era hora de almoço, e creio que ela se escondeu pois temia ser obrigada a
almoçar com os nossos ilustres governantes.
Era lhe insuportável
ouvi-los a vangloriarem-se do presente e a anunciar o futuro - todos juntos
numa traineira no alto mar, a cumprir o esquema descoberto pelo líder supremo…
Que tristeza! Só pensam
em ir a banhos e encher a pança… e ainda nos querem convencer que é esse
o caminho para nos salvar da bancarrota.
Pareceu-me triste, a ave!
E eu gostava de lhe conhecer o nome...
17.5.20
A pinha está ali
escondida, tal como Caruma. Talvez seja a sua dita!
Da pinha poderá cair uma
semente, iniciando novo pinhal com muita caruma...
De Caruma pouco há a
esperar, perdida na floresta virtual. Nem uma borboleta se vislumbra!
Hoje é domingo, mas
poderia ser outro dia qualquer. O que todos querem é que os não aborreçam e os
deixem fugir para o areal, com ou sem pinhal.
Sob as agulhas já vejo
fagulhas, mas não faz mal!
16.5.20
A chuva que foi caindo
deixou um belo quadro de verde líquido.
Neste jardim, há mesas e
cadeiras, mas ninguém se senta... Não há café, pastel de nata... nem sequer um
jornal ou uma revista...
Há dois gansos com a
respetiva ninhada - parecem ter chegado do Nilo! Uma idosa olha-os, sem arredar
pé...
E depois há famílias,
pares de namorados, todos sentados na relva... e também há solidão escondida em
recantos sobrevoados por aves exóticas que insistem em ficar por Lisboa...
E lá por detrás, há
bairros de que ninguém quer ouvir falar!
15.5.20
Nesta avenida - que
exagero, não passa de uma rua com dois sentidos!- por volta do meio-dia,
torna-se difícil circular, de carro ou a pé… Há veículos em segunda fila
um pouco por todo o lado, e nos passeios, amontoam-se pessoas de todas as
idades para comprarem o almoço pronto a devorar… Parece que já ninguém se dá ao
trabalho de cozinhar!
Como não se entra nos
estabelecimentos, fica-se nas imediações a cavaquear… as máscaras sobem e
descem, de acordo com o grau de estranheza. Se caem ao chão, depois de uma
sacudidela, voltam a ser colocadas ao pescoço e depois, sobem à boca e ao
nariz, mas não totalmente, não vá o ar esgotar-se.
Nesta avenida de Lisboa,
os comportamentos não divergem dos, por exemplo, da Avenida de Moscavide. E
curioso, quando penso nisso, apercebo-me que ambas são encimadas pela respetiva
igreja…, uma mais rica, outra mais pobre, tal como os fregueses do estômago e
dos deuses.
13.5.20
Neste blogue, nunca
utilizei as palavras 'micróbio' e 'macróbio'. Aqui, desde 2006, terei repetido
tantos vocábulos, a propósito e a despropósito! No entanto, apesar do termo me
ser familiar, o 'micróbio' nunca despertou o meu interesse. Por sua vez, o 'macróbio'
chamou a minha atenção ao ler a seguinte afirmação de José Saramago: «ceia
melhorada nos asilos, que bem tratados são em Portugal os macróbios»... O
ano da morte de Ricardo Reis, pág. 29. À época consultei o dicionário
Aurélio, e fiquei esclarecido: aquele que vive muito ou tem idade
avançada.
Não mais pensei no
assunto até que, com a chegada do Covid 19, percebi que este vírus vitimiza
principalmente os longevos, provavelmente, os que têm ceia melhorada
nos asilos, se bem entendermos a ironia saramaguiana. Em Portugal e no
resto do mundo, sobretudo naquelas partes onde os mais velhos são colocados em
depósitos bem rentáveis…, frequentemente clandestinos…
Os macróbios incomodam,
mas enriquecem muita gente que, agora, vai sacudindo a água do capote.
11.5.20
De tanto ouvir, acabo por
me interrogar sobre o significado de certas expressões. Por exemplo: 'regressar
à normalidade'.
Se regressar já é, em si,
prova de irrealismo, e não vale a pena voltar à água do rio, então, regressar à
normalidade é uma monstruosidade...
Se antes do COVID-19, o
planeta estava à beira do caos, do abismo, para quê voltar a esse estado de
total desvario, de perdição?
O que sempre definiu o
homem foi a sua capacidade de adaptação, ou melhor, de transformação da
realidade.
Parece assim que este é o
momento certo para nos reajustamos mais em função das necessidades do planeta
do que dos nossos interesses. Ora o que ouvimos, a cada momento, é a voz do
interesse egoísta - individual e coletivo.
10.5.20
« Ce ne sont pas les informations qui font le journal, mais le journal
qui fait l'information. “Umberto Eco
Ficar em casa é deixar de
ver a realidade, é ficar refém da mediatização.
No rio não se especula,
não se intriga… as aves procuram o sustento, respeitando as distâncias...
Em casa, o mundo encolhe,
deforma-se... torna-nos amorfos…
Saia de casa, aprenda com
as aves.
9.5.20
Viajo
com os suspeitos do costume
Em casa. Viajo. Nas
últimas semanas, por Lisboa, com José Saramago. Ontem, iniciei nova viagem, por
Milão, com Umberto Eco…E assim, sem sair de casa, retomo viagens já realizadas,
mas que, vistas desta minha janela, estavam por concluir…Estas viagens, por
vezes exigentes, têm o condão de me fazer avançar por lugares que julgara
perdidos ou sem sentido...Quando viajo, não perco nada, ao contrário do Poeta
que andava perdendo países para os poder, simplesmente, fingir.
7.5.20
As aves passam, levam
consigo o arroz integral. Fazem-no em movimentos sôfregos e fortuitos… como se
temessem a voracidade felina ou até humana…
Não sabem o que é o medo,
mas pressentem o perigo, antiquíssimo, muito anterior à própria vida…
E nós, parece que não
temos medo, deslocamo-nos em movimentos sinuosos, silenciosos, sabendo, de
antemão, que as bombas de outras guerras foram suspensas - que não há razão
para nos recolhermos nas caves…
No entanto, o que mais
tememos é não ver nem ouvir o tracejado das gotículas assassinas, seletivas -
antiquíssimas, muito anteriores à própria humanidade.
Arroz integral? E se fosse trigo roxo? Provavelmente, as aves afastavam-se,
perdiam o apetite, deixavam de chamar a família para o repasto...
E nós? Ansiamos pela família e servimos-lhe trigo roxo!
5.5.20
Voluntariamente, tenho
vivido no ano de 1936, seguindo o caminho de Saramago. Não é fácil! Mas
liberta-me do discurso sentencioso de quem não sabe recolher-se e, desta vez,
não me estou a referir à prosa do nobel…
O confinamento como dever
cívico soa-me a astúcia política de quem não quer perder ou quer ganhar
votos…
Creio que o recolhimento
é a atitude mais sensata e mais desafiante. E, afinal, o José viveu uma parte
da sua vida numa ilha vulcânica!
3.5.20
Amanhã, sem sair do
lugar, o Tejo fica mais perto.
Embora haja quem pense
ser possível voltar atrás - viver no passado - eu fico-me com a cor de hoje.
Agora, que passei a ler
com a ajuda de uma lupa, sinto que a repetição está a tornar-se fastidiosa,
porque mata a novidade…O fulgor não se repete, apenas acontece.
Talvez seja por isso que
me apetece partir, fazer o caminho sem olhar para trás.
Hoje é um daqueles dias
em que descer até ao Tejo é proibido.
Porquê? Por causa da
delimitação de freguesias. Quem mora na Portela está obrigado a não atravessar
a linha férrea até à meia noite.
Por ignorância ou por
vontade de corrigir o destino, muitos desafiam a ordem instaurada… Censurável,
talvez!
1.5.20
Abril foi um mês absurdo!
Não fosse a fome das aves, a clausura teria virado pesadelo…
Os gráficos de abril,
apesar de animadores, foram desesperantes, porque, no essencial, servem para
anunciar uma segunda onda… e, apesar de muitos sonharem com o regresso à praia,
não estamos prontos para enfrentar este novo bojador.
Talvez maio nos possa
evitar o mergulho na outra metade da laranja!
De qualquer modo, maio
regressará! Resta saber se queremos voltar com as flores e os frutos ou se
preferimos soçobrar no areal.
29.4.20
- Sintonize um canal de cada vez.
- Não faça comentários enquanto
ouve e vê.
- Se considerar que lhe estão a
vender uma ideia ou qualquer outro produto, desligue.
- Antes de procurar novo canal,
faça uma pausa de pelo menos 30 minutos: converse com quem estiver por
perto - mas não demasiadamente - leia um livro, vá até à janela e observe
a linha do horizonte.
- Se lhe agradar a ideia, vá anotando
as suas sensações.
- Não diga a ninguém o que anda a
fazer.
- Não se queixe publicamente.
- Contenha as saudações, as efusões e
as libações.
- Bloqueie todas as comunicações que
não lhe sejam essenciais.
- Se sair de casa, proteja todos os
orifícios e procure os caminhos e as horas de menor movimento.
- Não evite o trabalho. Faça-o em
segurança.
- Não espere que as autoridades lhe
digam o que tem de fazer.
- Se se sentir mal, vá ao
hospital. Não fique à espera!
- Não se comprometa desnecessariamente.
- Faça como o diabo, evite a cruz!
28.4.20
«... a morte
devia ser um gesto simples de retirada, como do palco sai um ator secundário,
não chegou a dizer a palavra final, não lhe pertencia, saiu apenas, deixou de
ser preciso.» José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Porto
editora, p.360
Dizem que culpa é
de um vírus - o protagonista. De facto, as vítimas deixaram de ter nome. Mais
não são que dados estatísticos, nos quais não sabemos se podemos acreditar.
Nas guerras ainda havia o
cuidado de elaborar listas de nomes para mais tarde se erigirem memoriais,
agora escondem-se os nomes como se fossem leprosos.
Já não se sabe se as
vítimas deixaram de ser precisas ou se não estarão a prestar um serviço
silencioso aos estados de todo o mundo.
Todos os dias se aborda
necessidade de por um travão na crise económica, creio, no entanto que essa
crise chegou bem antes do protagonista.
Convém não esquecer que a
maioria das vítimas já era apontada como causa da crise. A peste grisalha!
26.4.20
Talvez
possamos reencontrar a alma
Haec omnia tibi dabo, si
cadens adoraveris me (Mt. 4, 9).
«Todas as coisas deste
mundo têm outra por que se possam trocar. O descanso pela fazenda, a fazenda
pela vida, a vida pela honra, a honra pela alma; só a alma não tem por que se
trocar. E, sendo que não há no mundo coisa tão grande por que se possa trocar a
alma, não há coisa no mundo tão pequena e tão vil por que a não troquemos, e a
não demos. Ouvi uma verdade de Séneca, que, por ser de um gentio, folgo de a
repetir muitas vezes. Nihil est homini se ipso vilius: Não há coisa para
connosco mais vil que nós mesmos. - Revolvei a vossa casa, buscai
a coisa mais vil de toda ela, e achareis que é vossa própria alma. Provo.
Se vos querem comprar a casa, o canavial, o escravo, ou o cavalo, não lhe
pondes um preço muito levantado, e não o vendeis muito bem vendido? Pois, se a
vossa casa, e tudo o que nela tendes, o não quereis dar, senão pelo que vale, a
vossa alma, que vale mais que o mundo todo, a vossa alma, que custou tanto como
o sangue de Jesus Cristo, por que a haveis de vender tão vil e tão baixamente?
Que vos fez, que vos desmereceu a triste alma? Não a tratareis sequer como o
vosso escravo e como o vosso cavalo? Se vos perguntam acaso por que não vendeis
a vossa fazenda por menos do que vale, dizeis que a não quereis queimar. E
quereis queimar a vossa alma? Ainda mal, porque haveis de queimar e porque há
de arder eternamente.» Sermão da Primeira Dominga da Quaresma
(excerto), Padre António Vieira
Desconheço o motivo que
levou José Saramago a escolher como leitura de Ricardo Reis o Sermão da
Primeira Dominga da Quaresma. Suspeito, no entanto, que, para além do
calendário de 1936, terá sido a suposta educação jesuítica do
heterónimo...
De qualquer modo, nem
Ricardo Reis conseguiu ler mais do que 10 páginas, nem Saramago se deu ao
trabalho de indicar o autor do trecho por si escolhido «Revolvei a vossa casa,
buscai a coisa mais vil de toda ela, e achareis que é a vossa própria alma» O
Ano da Morte de Ricardo Reis, Porto editora, pág.260
Não consta que Ricardo
Reis tenha tido tempo de visitar o Maranhão, nem que Saramago se tenha perdido
no Sermão, a leitura abre-nos, porém, a porta para que, em tempo de quarentena,
possamos procurar a alma lá bem no fundo do sertão... para que o gentio Séneca
deixe de ter razão.
25.4.20
Sem cravos, mas com
joaninhas, excelentes predadores…
Cansado de tanta
comemoração, celebro o que a Natureza me oferece, embora continue a ouvir os
apelos do passado, como se já não fosse necessário dar novas cores ao presente.
Há quem não entenda que o
modelo, mais do que abrir, encerrou um ciclo - o ciclo imperial.
E este comportamento,
como diria o Poeta, já tem o som de repetido.
23.4.20
Apesar do confinamento e
da liturgia anacrónica que se aproxima, a Natureza segue o seu caminho…
Perguntaram-me, hoje, se
recomendava algum conteúdo certificado para que os jovens possam evitar o lixo
que circula na Internet…
Fiquei sem
resposta. E agora que volto a pensar nisso, creio que não há volta a
dar.
Se eles quiserem,
encontrarão forma de separar o trigo do joio, porque a ideia de lhes dar só
trigo acabará por atirá-los para um canteiro onde qualquer erva daninha os
sufocará…
Talvez a leitura de Saramago possa ajudar na floração: «Portugal é um oásis,
aqui a política não é coisa do vulgo, por isso há tanta harmonia entre nós, o
sossego que veem nas ruas é o que está nos espíritos.» O Ano da Morte de
Ricardo Reis, pág. 204, Porto editora
22.4.20
O respeitinho é coisa
antiga. O simples sufixo 'inho' já indica que o respeito se foi tornando
numa prática social discutível.
Para uns era sinal de
reconhecimento da autoridade divina, estatal, familiar, profissional… Para
outros, uma forma de ridicularizar os 'submissos'...
Em terra de submissos, o
atrevimento libertava e, em alguns casos, tudo permitia...
É esse abuso que, por
estes dias, grassa. Numas situações, por falta de educação; noutras por falta
deliberada, abusiva, de respeito.
Por exemplo, hoje, numa
fila de atendimento nos CTT, vi-me obrigado a colocar uma máscara, porque uns
não respeitavam a distância e outros, simplesmente, tinham decidido
concentrar-se em grupo naquele lugar, tratando de por a conversa em dia
sobre os comportamentos do respetivo rebanho…
19.4.20
A distância social é
regra, mas o seu cumprimento é discutível, sobretudo entre os mais velhos que
parecem ter dificuldade em respeitar as marcas que lhes surgem no caminho.
Provavelmente não as veem!
O confinamento como
antídoto para o contágio tem uma dupla face. Ao mesmo tempo que nos tira das
ruas, dos espaços de trabalho e de lazer, enclausura-nos em casa ou em recantos
esquecidos e miseráveis.
A distância social gera a
cada dia que passa esquecimento, solidão.
Em certos casos, a rutura
é de tal monta que a vida começa a não fazer sentido. Trocados os dias, a
sucessão desfaz-se...
17.4.20
Dias houve em que Abril
empolgava, depois a liturgia partidarizou-se ou, ainda pior, oficializou-se…
num estado não muito diferente do novo.
16.4.20
O discurso do pico
e do planalto
O discurso do pico e do
planalto é redondo. Por vezes, desce-se ao sopé a pensar na planície, como se a
montanha fosse literal.
As novas metáforas são
expressão retórica de quem quer criar uma imagem de saber, mas que, na
realidade, esconde um código politico estéril.
Desde o princípio que
sabemos que o pico epidémico é inconveniente, porque o país não tem meios
financeiros, logísticos e técnicos para o suster.
Assim, passámos a viver
num planalto dentro de uma nuvem, esperando que o tempo a dissolva…num estado
de emergência que trata do mesmo modo a montanha e a planície.
Por vezes, tenho a
sensação de que o pensamento silogístico está de volta - o tempo da inação.
15.4.20
Palavras de tanta cor!
se as escutássemos todas…
se lhes déssemos tempo,
a distância teria outro sabor.
12.4.20
Há um mês, chovia...
seria uma quinta-feira!
O último teste presencial
tornara-se impossível - avisei os alunos de que a partir daquela data tudo
seria realizado através da Internet. Eles, incrédulos, lá registaram o meu
endereço eletrónico para me poderem solicitar o envio daquele que seria o meu último
teste...
Antes de sair da sala,
decidi esvaziar a gaveta da secretária e entregar o cadeado e a respectiva
chave ao funcionário... (privilégio recente!)
Entretanto, passei pela
Sala de Professores, onde abri o cacifo e o esvaziei, fugindo para a rua
- o meu filho esperava-me no carro na Almirante Barroso...
A emoção apertava-me o
coração, mas ninguém se apercebeu... se era de dor se de libertação.
Até hoje, não voltei,
embora me falte devolver duas chaves - inúteis.
Neste momento, a sirene
dos bombeiros avisa os incautos que devem abandonar a rua... Talvez a dor saia
vencedora!
11.4.20
Não se assustem! Não vou
voltar à escola, regresso ao presente... da desmaterialização... não só do
papel... Já que confinado, espero ter tempo para levar a cabo a tarefa...
embora tudo possa acontecer, até a desmaterialização do meu próprio
corpo...
Em poucos meses, sem
promessa de ressurreição, já foram desmaterializados mais de 100 mil corpos...e
esta purga vai continuar.
Falava de regresso para
esclarecer que nos últimos dias não tenho vivido no passado, apenas desterrei
umas ossadas de que, na azáfama, me esquecera.
E bom seria que não
esquecêssemos o passado!
10.4.20
Em novembro de 1996,
conclui o mestrado em Relações Interculturais na Universidade Aberta. Os meus
alunos da unidade orgânica "Ciências da Educação" da Universidade
Autónoma de Lisboa decidiram celebrar o acontecimento. Creio que nunca lhes agradeci
devidamente o gesto.
Por isso, hoje, apesar da
distância temporal e do confinamento atual, aproveito para lhes dizer que nunca
os esqueci e que espero que a mudança que se avizinha não lhes seja pesada...
Bem hajam!
7.4.20
No tempo em que a leitura
de 'As Viagens na minha Terra" ainda fazia sentido, organizávamos visitas
de estudo a Santarém - a pé, do Largo da Sá Bandeira íamos até às Portas
do Sol...
Por ali andara Garrett
guiado pelo Passos Manuel... E o que os meus jovens alunos não sabiam é que
também eu ali vivera e muito menos suspeitavam que os pórticos, aos quais
voltavam as costas, tinham para mim um significado inolvidável. No interior do
antigo Colégio Jesuítico vivera 5 anos e meio...
Muito menos imaginavam
que o professor de Português tinha começado a sua atividade docente no Liceu
Passos Manuel...
4.4.20
Uma forma diferente de
abordar Fernando Pessoa - toda no feminino...
Protagonistas: Idalina
Duarte; Rosa Badajoz; Clara Marques; Paula Sousa...
Lugar: Escola Secundária
de Santa Maria - Sintra.
2.4.20
Saio uma vez por dia,
pelas 9 horas.
Caminho durante 40
minutos, longe dos homens... só um ou outro cão se aproxima de mim. Observo a
displicência e a preguiça dos melros, sem esquecer a florescência...
É assim desde meados de
março!
E aproveito a caminhada
para fazer as imprescindíveis compras, sempre em lugares pouco concorridos.
Espero não estar a
cometer qualquer infração e, sobretudo, não estar a prejudicar quem quer seja -
sempre fui muito obediente!
(Um português nascido e
criado durante o Estado Novo com alguns assomos de rebeldia, que não sei se à
época foi devidamente registada.)
Neste abril para evitar
equívocos, decidi deixar o telemóvel em casa...
31.3.20
Não
sei se amanhã será diferente...
Nas presentes
circunstâncias, não sei se amanhã será diferente. Formalmente, estarei
aposentado.
No entanto, deixarei a
Escola onde, literalmente, entrei há quase 60 anos. Isso é estranho!
Foram muitas as escolas
em que entrei e permaneci, desde a aldeia à cidade, desde a escola primária à
universidade... Em todas elas aprendi e, em algumas, procurei ensinar... O quê?
Já não sei ao certo.
A resposta teria de vir
de quem comigo fez o caminho e cada um, espero, terá seguido o seu caminho. Se
assim tiver sido, ficarei satisfeito... Moldar nunca foi minha intenção... sem
nunca ter desprezado os conteúdos, pois sempre os vi como degraus de uma escada
que conduz das trevas à luz - da ignorância à lucidez.
29.3.20
«O morto saiu, de mãos
e pés enfaixados com ligaduras e o rosto envolvido num sudário. Disse-lhes
Jesus: «Desligai-o e deixai-o ir».» João 11...
Desconheço se Lázaro terá
agradecido o milagre.
As irmãs, sim. Servas do
desconhecido terão seguido o caminho da redenção, porque acreditavam. Não no
que viam nem no que sabiam, que era insuficiente para a compreensão do
desafio... Acreditavam no que sentiam.
Os vizinhos por um tempo
deixaram-se inebriar, mas depois duvidaram... Hoje, a dúvida já não faz
sentido. Por vezes, nem o medo!
Desligados - são selados
e depois cremados, os velhos deste mundo, sem esperança em qualquer tipo de
ressurreição.
28.3.20
Depois da curva do pico,
estamos agora a entrar na curva do planalto. Pena que a curva da planície ainda
esteja tão longe!
Posso estar enganado, mas
creio que este Covid 19 veio para punir aqueles portugueses que sobreviveram à
guerra de África...
Quando desenharem a curva
do tempo, talvez seja possível achatar-lhe a linha de modo que o Covid 19 se
perca na planície...
(Escrevo estas linhas
em homenagem à imaginação gráfica do último mês.)
27.3.20
Não tusso nem espirro.
Não tenho febre nem sofro de falta de ar. Só a sombra me arrepia.
Porém, sinto-me cansado.
Não sei se será do Covid 19 se do matraquear da comunicação social e das redes
sociais.
Com tantos números, com
tantos gráficos, com tantas pitonisas, apetece-me desligar...
Ficar em casa e desligar!
Só peço que me batam à porta quando o mafarrico se tiver sumido...
25.3.20
O que me cansa é a fábula
de que somos capazes de vencer, porque somos diferentes, porque somos
inteligentes e conscientes, como se guardássemos o segredo do universo...
No entanto, nada somos
perante a mortalidade das espécies e, por mais inteligentes e conscientes que
sejamos, não somos capazes nem de prever, nem de prevenir e, muitos menos, de
evitar que a epidemia nos derrote - já li muitas avaliações sobre a vida
e a morte do COVID 19, e começo a pensar que ele é capaz de ser mais
inteligente do que nós... Este ou outro! Assim foi, assim é e assim
será...
O orgulho humano não
passa de um capricho que nos impede de estar verdadeiramente atentos ao
essencial.
Talvez hoje devesse
regozijar-me por estar a encerrar a minha vida profissional. Contudo, tal como
vão os dias, a inteligência diz-me que ninguém sabe o que o dia de amanhã trará...
Por isso, fiquemos por aqui, em casa, de preferência... se a tivermos.
24.3.20
Não é preciso máscara
para esconder a estupidez... A falta de respeito pelo outro está nas ruas, nos
écrans, nos diretórios políticos...
O atraso nas decisões é
lamentável!
Quem já tenha entrado num
lar de terceira idade sabe que a maioria não está preparada para lidar com um
problema desta dimensão; a maioria não tem recursos humanos nem
materiais.
Esperar que os
proprietários privados ou as instituições sociais resolvam o problema é
absurdo!
Não é a virulência do
COVID 19 ou a falta de educação dos mais novos que explica totalmente a
letalidade entre os mais velhos.
Há medidas que foram
tomadas nos anos 80 e 90 do séc. XX que nos deixaram nas mãos dos
especuladores, como, por exemplo, o encerramento das fábricas de álcool no país
das figueiras e das vinhas... ia a dizer das uvas... / muita parra e pouca uva!
Hoje importamos quase
tudo o que é essencial em momentos da vida como o atual... E porquê?
22.3.20
As
máscaras não (...) servem para nada?
“As máscaras não
servem para praticamente nada. Dão uma falsa sensação de segurança. O pano não
é impermeável, vai ficar húmido e os vírus vão passar”, afirmou Graça
Freitas.
Não digo que a senhora
não tenha razão, convém, no entanto, relembrar que as autoridades médicas
chinesas impuseram o uso da máscara e, nos últimos dias, perante o
comportamento da população da Lombardia, voltaram a criticar a sua pouca
utilização.
Se o problema decorre da
falta de impermeabilidade do tecido, então as autoridades que fiscalizam a sua
produção ou a sua importação não podem continuar de braços caídos.
A certa altura, fica-se
com a sensação de que tudo é negócio ao alcance de gente sem escrúpulos.
O Carnaval já deveria ter
acabado!
21.3.20
alguma chuva, pouca
as flores que sorriem...
um poema aqui, outro ali...
alegre ou triste
e outra imitação do poema
sim, porque o poema deveria celebrar a vida e não a morte
agora, no intervalo, já não há dia... nem noite
já nem o sol aquece - os dias perderam os santos
e, sem fé, os fiéis arrefecem
mas este tempo é subjetivo
porque no mesmo tempo há quem tudo perca para cuidar de nós...
esses, sim, são a poesia que rima com
alegria, seja sábado ou domingo
20.3.20
O tempo, apesar de
dizerem que a Primavera já chegou, estagnou.
Lento, o tempo vive ao
ritmo dos sábios do momento e das hesitações do governo...
(No meu caso, há quatro
dias que me asseguram que faltam três dias, sabe-se lá para o quê...)
Este é certamente um
ponto vista subjetivo, porque o tempo para quem tem de preparar e tomar
decisões, para quem cuida da saúde de todos nós é avassalador, extenuante e
cruel.
19.3.20
Na foz do rio, há muita
vida!
Por mais que a nascente
se distancie, ainda resta muito tempo, mesmo que o dia pareça aziago...
Se olharmos atentamente,
talvez compreendamos que o distanciamento é uma virtude, que a efusão é
promíscua...
Olhemos apenas!
Aprendamos a apreciar a distância... sem Lídia... sem Ricardo.
18.3.20
Em matéria de COVID 19, o
melhor é cumprir as regras que estão a ser determinadas.
Deixemos as críticas, a
não ser que ajudem a solucionar, para momento mais oportuno.
Vivemos um tempo em que a
decisão, seja ela qual for, é extremamente penosa para quem a toma.
A má-língua não ajuda em
nada, tal como os comentários de quem nada percebe da gravidade da situação.
Há canais de televisão e
redes sociais que estão a prestar um péssimo serviço à comunidade, pois mais
não fazem que alimentar-se da desgraça alheia.
16.3.20
O vídeo é apelativo.
Pressupõe, no entanto, uma realidade que o Ministério da Educação sempre
descurou...
Falta formação de
professores e faltam ferramentas e conteúdos. Tudo o que existe é
obsoleto.
Como professor, estou à
espera de que o ME lance um vídeo em que mostre aos professores o trabalho
desenvolvido na área do ensino à distância e, sobretudo, como é que em poucos
dias se estabelece a conexão entre professores e alunos, a não ser que se
entregue a tarefa a duas ou três editoras...
Há certamente nichos
capazes de satisfazer os sonhos do senhor ministro da educação, mas o país real
não cabe num vídeo e muito menos na propaganda do ministério da educação... e
claro dos seus acólitos!
Ah! E aproveitem para ler
a obra da Margarida Pinto Correia!
14.3.20
Vou estar em casa. (Só
saio se a tal for obrigado.) À espera, não do Godot, mas de quem necessite de
mim. Por exemplo, os meus alunos podem aproveitar para tirar dúvidas, para
solicitar o teste agendado para o dia 17... Basta enviar e-mail para macagomes@hotmail.com
ou macagomes@gmail.com.
Quanto ao resto, vou
seguir as instruções oficiais, abster-me de seguir as redes sociais e as
televisões públicas ou privadas, de contribuir para a desinformação em curso e
para o alarmismo decorrente.
12.3.20
E
por agora, alguém é toda a gente
A luz frontal provoca-me
dor de cabeça. Sempre que o inverno se aproxima do termo, começa a enxaqueca.
Verifico a tensão
arterial e ela tende a subir, o que me leva a pensar que essa subida é a causa
da dor de cabeça. Tomo o medicamento estabilizador, e a descida é ténue, sem
eliminar o mal-estar. Desconfiado do efeito, leio a bula e descubro que o
medicamento também pode provocar dor de cabeça.
E depois viro-me para a
velha sinusite que aprendi a associar às alergias. Combato-a com um
anti-histamínico... (Durante o sono não tenho dor de cabeça, creio.) O efeito é
temporário!
Agora dizem-me que um dos
sintomas do COVIDIS 19 é a dor de cabeça., a qual, perante a informação, começa
a andar à roda...
Procurando afastar a
ideia de que possa estar a ficar hipocondríaco, meço a temperatura: raramente
ela chega aos 36 graus. E depois, há a tosse e os espirros e apercebo-me que
deixei de tossir e de espirrar... só que tal não me tranquiliza - afinal, este
ano a médica de família sujeitou-me à vacina contra a gripe - temo que ela
mitigue os sintomas... e neste caso, gostava que a situação fosse menos
ambígua.
Por mais que me indague,
não sou capaz de determinar a causa da dor de cabeça que, ultimamente, se
agrava sempre que alguém se pronuncia sobre matéria que desconhece. E por
agora, alguém é toda a gente...
De momento, estou nesta
sala, sozinho, sob o efeito de seis lâmpadas fluorescentes, os óculos colocados
de parte, à espera que a dor de cabeça desapareça. Entretanto... as escolas vão
fechar a partir de segunda feira até ao final de março... e eu fico sem
regresso e, certamente, com a velha dor de cabeça que, espero, incomode o menos
possível...
11.3.20
Tanta vida por um fio -
até a minha! - e eu por um fio espero a decisão. Está prometida para o dia doze
e, de repente, quem sabe, outra decisão pode prolongar o anseio de sair desta
vida para… e esse é o lado fascinante da questão: ainda não tracei o rumo, sim,
porque sem caminho é só desorientação…
E com tanto fio, talvez o
melhor seja seguir a lição da sardinheira…
8.3.20
Quando a tensão sobe e a
enxaqueca se instala, saio antes que a irritação assente arraiais…
Enquanto caminho,
sossego. Há sempre uma árvore que desvia a minha atenção do desaforo
comunicacional em que qualquer cidadão dá palpites sobre o que não sabe e,
sobretudo, aproveita para ajustar as contas de uma casa em que todos ralham e
ninguém tem razão.
A árvore que encontrei no
meu desvio obriga-me a pensar na cor que não sei definir e na leveza do seu
existir - apetece-me ser árvore.
7.3.20
Gosto desta figueira. Não
espera pela chegada da primavera e, para nos surpreender, esconde a flor…
Indiferente às abelhas e às borboletas, parece apostada em dizer-nos que há
outros caminhos, mesmo que, no final do ciclo, os frutos não satisfaçam a nossa
expectativa.
No jardim Almeida
Garrett, esta figueira contraria a lição do Poeta - das Flores sem Fruto.
Para mim, esta figueira
frutifica para nos lembrar que não devemos matar a esperança, mesmo que os
frutos não cheguem a cair de maduros…
A esperança, no entanto,
não deve ser cega. Melhor seria que não esperássemos pelo calor para combater o
COVID 19...
5.3.20
Parece que há uma diretiva
que exige que certas fachadas sejam preservadas...
Um pouco por todo o lado,
as obras vão decorrendo escondidas pelas fachadas...
Por mim, se a obra é nova
e nobre, esta deveria assumir o rosto de quem a arquitetou...
Creio que esta decisão de
manter a frontaria de certos edifícios, apesar de assegurar a ligação com o
passado, esconde outros benefícios para quem investe, desenha e
constrói...
É possível que eu não
tenha razão. No entanto, lá diz o povo "Quem vê caras não vê corações.»
Por estes dias de
incerteza, dou comigo a observar os rostos e não consigo descortinar-lhes os
segredos. Fechados, os rostos e os segredos.
4.3.20
À sorte e ao azar, há
agora que acrescentar a incerteza…
Já não é tanto o Fado que
preside à vida individual e coletiva…são mais as escolhas, que fazemos e
que nos habituámos a considerar seguras, que, num ápice, podem escancarar-nos a
porta da dúvida e do medo.
Assim, passamos a
suspeitar de tudo e de todos, avançamos sem saber se em cada esquina vamos
encontrar um amigo ou o inimigo…
De qualquer modo, a
incerteza sempre foi o caminho.
1.3.20
Entrámos em março, mês
que, hoje, não confirma a tradição. Cumpre quanto ao inverno, mas esqueceu-se
do verão...
O COVID-19 expande-se
alheio às fronteiras, tal como os migrantes rompem o arame farpado, mesmo que
novos muros os esperem, numa luta de morte...
O COVID-19 e as hordas de
migrantes são a expressão de territórios de exploração intensiva de
recursos...
E nós? Nem o Medo nos faz
repensar o caminho...
Março promete sol e vida,
mas hoje não!
29.2.20
Nunca se sabe o que nos
espera… o próprio espírito santo anda em dificuldades. O pai deixa-o marinar,
mas baixinho, porque os desígnios divinos foram subvertidos pelo filho-homem...
A galeria dos rebeldes é
extensa, de Orfeu a Sísifo sem esquecer Prometeu… todos eles, no entanto,
sofrem o divino castigo. Só não sei se o cumprem neste dia, em ano bissexto.
Eu cumpro-o, sem dúvida,
embora devagarinho para não incomodar as aves que por aqui passam… até porque
para o ano…
27.2.20
Quem aqui escreve não sou
eu, é um outro que, em certos dias, não sabe ao que anda. Vai andando, mas
volta sempre atrás… parece que os grilhões são elásticos, mas só até um certo
ponto…
O problema é que o eu já
percebeu que o ponto não é assunto seu. É um outro quem o determina, mas não
aquele que não sabe ao que anda…
E esse outro é mais do
que uma ideia, é o referente que vive em parte incerta, mas sempre para lá da
linha invisível que poderia esclarecer esta desfiguração.
Em suma, sem encontrar o
rosto, o eu vê-se desfigurado e é quanto lhe basta, por agora.
24.2.20
Não conheço o Francisco
Carvalho. Recentemente, descobri que publicara um romance - Os crimes
de Hamburgo (Outubro 2019, Coolbooks). Por coincidência, verifico que
o autor nasceu em 1978, tal como o meu filho, sendo ambos advogados e que, além
disso, a minha filha, um pouco mais nova, vive em Hamburgo, militando na defesa
dos direitos humanos: dos curdos atirados para o exílio, aos refugiados em
geral...
Eu próprio, em agosto
último, visitei, durante alguns dias, a cosmopolita cidade de Hamburgo, tendo
ficado com uma imagem de um lugar onde a diversidade humana é bem visível e
diferenciada e o clima severo e imprevisível.
Não tive tempo de tomar o
pulso à riqueza e à miséria, mas percebi que as relações entre autóctones e
estrangeiros não são fáceis e que há demasiado silêncio no palco e ajustes de
contas nos bastidores.
Sobre o romance, que li
numa semana, o que posso dizer é que está muito bem construído e que me
confirmou todas as minhas suspeitas e me ajudou a compreender um pouco melhor a
desconfiança alemã em relação aos estrangeiros, em particular de origem muçulmana,
na sequência da Queda do Muro de Berlim, da desagregação da União Soviética,
das guerras fratricidas da ex-Jugoslávia e do nacionalismo turco... sem
esquecer os restantes emigrantes, vindos da Ásia, da África...
Que me desculpem, sem
açúcar não é sabor original, pelo menos, se está pressuposta a sua presença...
Imagine-se o vinho do
Porto sem açúcar!
Este tipo de publicidade
está na base da idiotia que grassa a cada esquina e que se caracteriza pela
incapacidade de separar o excesso da sobriedade.
Sem sal e sem açúcar,
deixamos que nos levem ao fim do caminho ou agimos como senhores em terra de
escravos...
Da temperança, o melhor é
não falar!
23.2.20
Vinho não falta! Tradição
também não!
Sombrias e frias, as
caves guardam milhões de litros e de euros...
Embora também eu
conhecesse alguns segredos da produção do vinho - na adolescência vi-me em
apuros na limpeza dos tonéis -, não sabia que a aguardente vinícola tinha um
papel tão importante na preservação do açúcar da uva... Sempre pensara que a
aguardente só servia para martelar o vinho e dar cabo do fígado.
Desta vez lá fui à adega
e provei o vinho... ainda que em fevereiro... Também por lá encontrei o último
rei - D. Manuel II.
22.2.20
D. Afonso Henriques. Acabo
de o encontrar!
Não sei o que é que ele
pensa do estado do reino, sobretudo lá para os lados de Guimarães. De repente,
meio mundo desatou a atirar pedras, como se vivêssemos no tempo de Dona
Tareja...
Creio que o Soares dos
Reis lhe terá fixado um ar desafiante, mas pode ser ilusão minha...
Na realidade, em termos
absolutos, tudo não passa de ilusão, pelo menos, à escala humana, ainda que o
Porto possa testemunhar uma ideia bem distinta.
Por exemplo, ainda não
encontrei um traje carnavalesco!
20.2.20
A série sobre a viagem
iniciada e comandada pelo português Fernão de Magalhães e terminada pelo
espanhol João Sebastião Elcano terá quatro episódios de uma hora, um orçamento
de 20 milhões de euros e será dirigida pelo britânico Simon West.
Na apresentação oficial
do projeto, o produtor Miguel Menéndez de Zubillaga (Mono Films) explicou
que os filmes serão rodados em espanhol por um elenco de
"primeira linha internacional", ainda em negociação.
O início das filmagens
está previsto para o final do ano nos Estúdios Pinewood, na República
Dominicana, e será concluído ao longo de 2021 em Espanha, em localizações no
País Basco e nas Ilhas Canárias.
O projeto faz parte da
comemoração do quinto centenário da primeira circum-navegação do globo e é
financiado pela Coroa espanhola.
E quanto à República
Portuguesa, parece não haver notícia... Também nós, não temos limites. Sós,
como sempre...
Uma
morte digna em troca do quê?
Não creio que as árvores
sejam estúpidas, apesar de não alterarem a rota... estas já se adaptaram ao
lugar e são necessariamente hospitaleiras... Basta observar o enquadramento
para perceber que elas oferecem sombra e abrigo na maioria das estações, senão
em todas...
Ainda o inverno não se
cumpriu, e elas ali estão verdejantes, à espera de que os pássaros se adaptem
ao voo dos aviões, só temem que lhes falte a água onde eles possam lavar a
plumagem no estio...
Dentro dos pavilhões
vizinhos, uma enchente de cambaleantes, à espera de que lhes concertem os
ossos... Talvez pudessem vir até cá fora, faziam companhia às árvores,
seguiam-lhes os sonhos e respiravam, respiravam muito melhor...
Regressariam, certamente,
mais sossegados a casa, mesmo que a consulta não cumprisse a esperança e lhes
oferecessem a eutanásia... uma morte digna em troca... Do quê?
18.2.20
"Mas os pássaros
não são estúpidos e é provável que se adaptem. E este postulado arriscado é
tão cientificamente sólido como o seu contrário: o de que eles não vão
encontrar outras rotas migratórias, outras paragens estalajadeiras, como no
Mouchão. Ciência sem dados comprovados não é ciência." Alberto Souto de
Miranda, Um secretário de estado inteligente
No reino da estupidez, há
sempre alguém mais inteligente, há sempre alguém para quem as probabilidades
pouco importam. 'Logo se verá' é um argumento político inabalável. Caramba! Se
até os caranguejos mudam a rota, para quê tanto 'arruído"?
16.2.20
morcegos, criaturas
noturnas demoníacas; pangolins, acusados de hospedarem vírus mortíferos;
predadores humanos em todos os continentes. bandoleiros de todas as espécies -
presidentes, ministros, banqueiros, generais, gestores, especuladores de todos
os feitios… todos mortificam… e claro tudo serve para ganhar e acumular
dinheiro à custa da pobreza ou da excentricidade…
só a natureza desperta em
flores, em cores, apesar de todas as dores. entretanto, vou deixar que os
meus olhos se concentrem na polinização em curso…
15.2.20
Eu sou contra a
distanásia, o que não significa que seja a favor da eutanásia. No primeiro caso
alguém age contra mim e no segundo, ninguém deveria intervir na minha decisão -
seja familiar, institucional…
O último passo deverá ser
sempre do sujeito, pelo menos, enquanto não cair nas mãos dos credores…
De tempos a tempos,
eleva-se o clamor.. e passamos, indiferentes à disforia ou mergulhamos na
euforia carnavalesca, como sucederá nos próximos dias…
E lá longe, a MORTE anda
à solta…
12.2.20
Conheço este tojo desde
sempre, só não sabia é que esta variedade é arnal.
Não fosse a viagem de
circum-navegação de Fernão de Magalhães e, sobretudo, a vontade de Miguel Torga
de evitar os "equívocos ibéricos", eu esfumar-me-ia na ignorância de
que este tojo é arnal... porque cresce na areia...
Por isso, e não só,
registo aqui o acerto poético da história concluída há 500 anos, mais dia menos
dia, que, ontem, Magalhães foi homenageado com uma "Praça da
Circum-Navegação" no Rio de Janeiro, não na areia, mas em frente da praia
de Guanabara, na presença de figuras de Estado, que frisaram a importância do
momento na história entre Portugal e Brasil... E quanto a Espanha?
Fernão de Magalhães
Fernão
de Magalhães da Ibéria toda,
Alma de tojo arnal sobre uma fraga
A namorar a terra em corpo inteiro,
Consciência do fim no fim da boda,
Fernão de Magalhães que andaste à roda
De quanto Portugal sonhou primeiro:
Ter um destino é não caber no berço
Onde o corpo nasceu.
É transpor as fronteiras uma a uma
E morrer sem nenhuma,
Às lançadas à bruma,
A cuidar que a ilusão é que venceu.
Miguel Torga, Poemas Ibéricos
11.2.20
Os equívocos continuam. A
celebração da primeira viagem de circum-navegação é ou não conjunta? Em tempos
de infodemia (epidemia de informação), escasseiam as notícias da viagem dos
navios-escola Sagres e Juan Sebastian Elcano…
Se o objetivo da
comemoração for celebrar o início da globalização, torna-se difícil compreender
a duplicação da viagem…
Para Fernando Pessoa,
Magalhães encerra o projeto sebastianista subscrito pelo Infante: Deus
quer, o homem sonha, a obra nasce / Quis que a terra fosse toda uma / Que o mar
unisse, já não separasse./
Continuamos separados,
mesmo que diplomaticamente finjamos o contrário. De costas!
9.2.20
Em fevereiro, morreu
Malaca Casteleiro. Deixou as estações e os meses com letra minúscula… Reduziu
os nomes próprios, eliminou consoantes mais ou menos mudas, alterou as regras
de hifenização sem, no entanto, lhe eliminar o 'h'. Em nome da simplificação,
deixou cair a etimologia, desvitalizando as famílias…
Não fosse a diversidade
do uso da língua, tudo poderia ter sido aceite. Só que a variação linguística
não se conforma com a norma e muito menos se ela ignora as suas raízes…
Hoje, a língua de Malaca Casteleiro lembra-me um estaleiro. Pode ser que o
empreiteiro possa concluir a obra, mas convém que não descure as fundações em
nome de uma internacionalização de matriz colonial.
7.2.20
Os sinais são de viagem…
Os sinais são de comunhão…
Os sinais são de consumo.
No entanto, as grades de hoje sinalizam o acantonamento, o isolamento…
A nova peste está aí a
testar os limites da condição humana. À medida que o vírus alastra, os demónios
soltam-se, vorazes…
Entretanto, esperamos que
a China se feche sobre si própria, feche à chave o vírus, se desligue de
nós.
6.2.20
O pedinte não tem mais de
30 anos. Tem passe e guarda-costas. Não toma banho, segundo ele, há cinco dias…
Digamos que cultiva a imundície como estratégia de persuasão!
Encontro-os diariamente
na Linha Vermelha. Entram nas Olaias e saem na estação de metro de Moscavide,
sempre pelo elevador… o que, de imediato, afasta os outros utentes, por vezes,
de forma acalorada.
O papel visível do
acompanhante, silencioso e, aparentemente, tímido, é segurar a mochila… e
correr atrás do parceiro…
O pedinte dirige-se de
forma assertiva, olhar ameaçador, a cada um dos passageiros, nativos ou
forasteiros pouco importa, exigindo dinheiro para a sopa. Só come sopa, porque
sofre de hepatite… Este é o argumento sempre que um passageiro, ciente do
esquema, lhe coloca na mão uma sanduíche…
Estou a pensar em
levar-lhe uma sopa num dos próximos dias…
3.2.20
Desapoquento-me
escrevendo, como quem respira melhor sem que a doença haja passado. Bernardo
Soares
De momento, são dois os
pássaros saltitantes que procuram as sobras da gaivota ou do gaivoto, sabe-se
lá… Eu não sei, nem quero saber.
Ganhei o hábito de lhes
dar pão, correspondendo à expectativa da Sammy que, logo que a luz penetra na
sala, se coloca de plantão - lembra-me um soldado não forçado!
Agora, que respiro um
pouco melhor, preparo-me para regressar ao tempo em que ainda havia provas
orais… Quem diria que a nora fecharia o andamento?
2.2.20
(Reuben Nakian
(1897-1986). Satyricon I, 1981)
Com sol, levantado o
nevoeiro, desloquei-me à Fundação Calouste Gulbenkian para ouvir os solistas da
respetiva orquestra (Ensemble Alorna). Gostei do que ouvi: António
Vivaldi (1678-1741 e György Kurtág (n.1926).
Em particular, deixei-me
encantar pelo fagote… de tal modo que, por momentos, cheguei a pensar que este
instrumento me poderia aquietar quando a sombra cair…
Entretanto, continuo sem
novas de quem me poderia libertar de velhas e cansativas rotinas...
31.1.20
O professor e o Louco,
1998, de Simon Winchester ( geólogo, jornalista e escritor , a
viver nos Estados Unidos. Nasceu no dia 28 de setembro de 1944, em Londres.
Naturalizado como cidadão norte-americano a 4.11.2011.)
Durante o mês de janeiro
li esta obra, fascinante pela sua forma narrativa de 'não-ficção, sobre a
elaboração do Oxford English Dictionary, e fiquei a compreender
como o trabalho do lexicógrafo exige disciplina, rigor e, sobretudo, capacidade
de mobilizar recursos humanos devidamente habilitados e apaixonados pela vida
da palavra... de tantas palavras que constituem cada idioma.
De todas as personagens,
a que mais me cativa é a do "louco" - o Dr. Minor. Um ser
intensíssimo, capaz de abonar milhares de palavras, mas que carrega um crime
'coletivo' que o torna num assassino, preso até à morte, sempre às voltas com
um imaginário que o confina e o leva à sua própria castração, num desesperado
combate contra as forças do mal.
Quanto ao professor,
sempre no fio da navalha, mas sem nunca desistir nem do projeto nem do
amigo..., sobretudo o James Murray.
30.1.20
O
ovo flutuava e não estava podre
Surpreendentemente, o ovo
flutuava...
Disseram-me que estava
estragado, que o melhor seria deitá-lo fora antes que contaminasse os
restantes. Assim mandava a tradição!
Desconfiado, decidi
verificar o que a NET me poderia ensinar. Logo encontrei uma resposta bem
diferente.
De acordo com a
investigadora Paula Teixeira do grupo de investigação em Microbiologia e
Segurança Alimentar da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade
Católica do Porto:
"Não há maneira
de saber se um ovo está contaminado por bactérias, porque elas não se
veem". "Se um ovo flutua, isso significa que já tem algum tempo, mas
não que está contaminado. Já um ovo que se afunda pode perfeitamente estar
contaminado com bactérias".
Desconfiado, agora, dos
ovos que se afundavam, deixei-os cozer, por igual, durante 10 minutos.
Entretanto, chegou o momento de os descascar e, aí, aconteceu a verdadeira
surpresa - o ovo flutuava porque lá dentro não havia nada!
29.1.20
O que é feito da
'grandeza'?
Agora é só
'grandiosidade' que não rima nem com 'beleza', nem com 'riqueza' nem com
'pobreza'...
Será que na 'incerteza'
seguimos a linha inglesa?
A verdade é que
'grandiosidade' rima com 'superioridade', com 'singularidade' - termos que
podem ser associados a um certo 'transtorno de personalidade'...
Esta incursão verbal visa apenas mostrar a minha estranheza pela morte da
'grandeza', talvez expressão de qualquer fobia... associada a megalomania.
28.1.20
Despejam-nos em cima
toneladas de informação supostamente verdadeira. No entanto, logo surge quem
defenda a nulidade desse amontoado de mensagens, descontextualizadas e
alinhadas numa narrativa digna de um grande e-fabulador...
Por outro lado, mesmo que
a informação possa ser tomada como verdadeira, coloca-se o problema da
qualidade da fonte. Ultimamente, a idoneidade das fontes é de tal modo
questionada que o melhor é desconfiar de todas...
Por cá, à mínima
suspeição, há quem mande prender o mercúrio - deus pouco escrupuloso, mas bem
informado dos desmandos de todas as horas.
26.1.20
«Uma das revelações
mais inesperadas (ou talvez não) dos Luanda Leaks é a extensão inusitada em
Portugal do fenómeno de cobardia e hipocrisia moral suscitadas pelo dinheiro.» Vicente
Jorge Silva, 26-01-2020, Público
Vicente Jorge Silva deve
estar a ironizar! O culto do dinheiro não é compatível com qualquer outro
comportamento que não seja o da voraz apropriação, seguida de desenfreada
ostentação...
E se por algum motivo
mais ou menos ignóbil, a embarcação começa a meter água, os portugueses sempre
souberam como fazer-se de mortos... A coragem de assumir a culpa é um bem
raro...
Por outro lado, nesta
fase da vida política nacional, qualquer escândalo vem a calhar para esconder a
incompetência que campeia de norte a sul.
25.1.20
« Face à la situation grave d’une épidémie qui s’accélère
(...) il est nécessaire de renforcer la direction centralisée et unifiée du
Comité central du Parti », a
affirmé samedi le président Xi Jinping lors d’une réunion du comité permanent
du Bureau politique du Parti communiste, l’instance de sept membres qui dirige
le pays.
Contra o coronavírus, é necessário reforçar a direcção do
comité central do Partido... Fechar as cidades, destacar centenas de médicos
militares, construir novos hospitais em tempo inacreditável... Para
grandes males, grandes remédios!
Por cá, é tudo mais
suave! No entanto, parece que o coronavírus já aterrou em Lisboa. Terá chegado
num voo internacional, incógnito... Esperemos que o controlo das deslocações
aéreas, terrestres e marítimas seja levado a sério.
24.1.20
Hoje, encontrei à venda
por 2 euros dois volumes novos, imaculados, da obra "Pensar o Mundo"
de Manuel Maria Carrilho..., com dedicatória a (?) - "este meu Pensar o
Mundo obras 1982-2012, pelo que foi ficando, e admiração e amizade"...
Não queremos saber se o
autor pensa acertadamente; preferimos que do seu pensamento nada fique...
quanto à admiração e amizade, o gesto de deitar fora diz tudo.
Na arena da opinião,
ninguém sobrevive, nem a OBRA!
Estupefacto, encontrei
estes dois volumes na Fábrica de Braço de Prata (Ulmeiro), pensados por um
homem que, por vezes, vejo caminhar, escalavrado, e que, de todas as vezes, me
faz pensar em todos aqueles cuja ação tornou proscritos...
E claro comprei por dois
miseráveis euros uma obra que creio merecer melhor sorte...
23.1.20
Não é que me apeteça ver
o estilo caceteiro na Presidência da República, no entanto gostaria de ver a
Ana Gomes como candidata nas próximas eleições.
Apesar do mau feitio, a
Senhora sabe do que fala e isso é muito importante. Quanto ao António Costa,
creio que essa candidatura até viria resolver-lhe muitos problemas, dentro e à
esquerda do Partido Socialista... O que faz falta é agitar a malta!
Valete, fratres!
(À Dr.ª Ana Gomes não
falta a coragem, como noutros tempos, embora em estilo diverso, também não
faltou à engenheira Maria de Lourdes Pintasilgo.)
22.1.20
sobre o que esqueço, não sei que dizer
por mais rigoroso, descubro desatenção
sobre o que erro, não tenho perdão
o que ontem era certeza, hoje é escuridão
poderia dizer incerteza, mas seria dúvida sem remissão
nesta vida parece ser tudo em -ão
até a fissão...
me acelera o coração
vai por aí grande confusão?
espero que não.
Se ao menos eu conhecesse o átomo|
20.1.20
Há iniciativas virtuosas,
como esta de comemorar os 50 anos da criação do Liceu de Sintra, antiga secção
do Liceu Passos Manuel.
Eu que fui professor no
Liceu Passos Manuel durante 3 anos, depois de um ano na Escola de Mafra e de
fugaz passagem pela Dona Maria I, prestei serviço durante 20 anos na Escola
Secundária de Santa Maria de Sintra (até 31 de Agosto de 1998).
Um tempo rico, mas que as
circunstâncias, em grande parte, apagaram. Rememoro por estes dias nomes e
situações que pensava terem definitivamente ficado para trás. Mas não, afinal,
há estímulos capazes de nos devolver não o tempo mas a memória, apesar das
lacunas e dos equívocos... E até é possível tomar conhecimento de episódios que
nos passaram ao lado...
Já agora para os mais
curiosos, informo que ainda leciono na Escola Secundária de Camões,
precisamente desde 1998 - Liceu inaugurado a 16 de outubro de 1909.
19.1.20
As musas trabalham
intensamente antes que as pétalas murchem. Não têm tempo para se queixar - no
aproveitar é que está a vida...
A literatura
representa-as de modo distinto - em regra, amorosas e ociosas. Vivem nas
margens dos rios, espreguiçam-se a sonhar com rouxinóis e filomenas, e só
abandonam o salgueiral se enamoradas de algum poeta que lhes prometa
imortalidade...
Como não sou poeta, não
lhes faço promessas, limito-me a observá-las, enquanto a luz não nos deixa.
Entre elas parece não
haver nenhuma filha de Mnemosine, a deusa que personificava a memória, apesar
de cumprirem zelosamente a função que a Sorte lhes determinou.
16.1.20
Quando há uma alteração
radical da estrutura do sistema educativo, como aconteceu nos anos 60 e 70 do
século passado, ou quando há falta de prospetiva, como tem vindo a
acontecer no ministério da educação desde os anos 80, o resultado só pode ser
mobilizar recursos não preparados para as tarefas educativas.
Face à inevitabilidade da
falta de professores, só há uma solução: reconverter os milhares de jovens com
frequência do ensino superior, dando-lhes formação científica e pedagógica para
que possam exercer a docência sem prejuízo para os alunos e com a devida
gratificação profissional e pessoal.
No passado, o ministério
da educação, só em parte, assegurou a formação pedagógica, deixando ao jovem
professor o encargo de completar a formação científica - muitos o
fizeram, mas ainda há quem nunca tenha completado as necessárias habilitações.
Hoje, o que se anuncia
não revela qualquer seriedade. Remenda-se, à espera de que a solução caia do
céu…É a mais barata e a mais mesquinha!
14.1.20
Frio, pouco chuvoso, este
janeiro preocupa e aconchega.
Longe e perto, a classe
política continua a fingir que tem rumo, mas o que melhor sabe fazer é
desarrumar as vidas e, em muitas situações, destruir a vida, seja ela humana ou
não… e não tanto o planeta que esse está preparado para sobreviver. Planetas não
faltarão!
Entretanto, para os lados
do Monte da Lua, começa a organizar-se, no Facebook, um 'encontro' dos antigos
alunos, funcionários e professores do Liceu, digo, Escola Secundária de Santa
Maria, por ora Agrupamento…. Já estão identificadas mais de 7000 almas, apesar
de umas tantas já nos terem deixado, muitas sem aviso prévio… e outras sem que
lhes tivéssemos dado atenção...
Pelo que me diz respeito,
confesso que, apesar da neblina e da humidade, lá passei parte da vida ativa -
20 anos. De 1978 a 1998. Foram tempos de realização profissional intensa. Tão
intensa que a memória se ressente da vertigem desse tempo… Pode ser que este
reencontro aqueça os dias que vão escorrendo...
12.1.20
O problema da qualidade
da abonação atual depende dos exemplos escolhidos e sobretudo do
critério.
Será que ainda
distinguimos os bons dos maus exemplos? Será que o que é um bom exemplo para
uns é mau para outros e vice.-versa?
No passado, a abonação
tinha em consideração a origem e as transformações, entretanto, ocorridas. E
hoje?
Com tantos vira-casacas à
solta, torna-se perigoso emitir um juízo de valor quanto mais abonar quem quer
que seja, a começar pelo autor destas linhas…
Valha-nos o entendimento
que da abonação tem Simon Winchester: «As abonações deviam
mostrar exatamente o modo como uma palavra foi empregue ao longo dos séculos,
como foi sofrendo mudanças subtis de significado, de ortografia ou de pronúncia
e, talvez o mais importante, como e mais exatamente quando cada
palavra entrou para a língua.» in O Professor e o Louco.
10.1.20
A partir de hoje, decidi
renomear a Caruma, regressando ao tempo anterior… a nós.
Não querendo confundir
aqueles com quem fui gastando os dias, este blogue passa a reconhecer os nomes
pelos quais fui sendo nomeado - cabeleira; cabeleira gomes; gomes…
Em diferentes lugares fui
sucessivamente tratado de modo distinto. Chegou a hora da síntese, já que a
heteronímia me é avessa… O gesto pode parecer incoerente, mas creio ser a
melhor forma de deixar um fio condutor, a extinguir com o autor...
Melhor seria, talvez, evitar a ideia de autoria e cingir-me à criatura que foi
rabiscando aqui e ali… O rabisco com as videiras lá longe, em latadas, no
entanto, nunca chegou a ser para mim…
9.1.20
Nenhum vento, nenhuma
chuva. Nenhuma mão traquina. Nu, resiste à luz e, na sombra, espera o retorno,
ciente de que não vai ficar, ali, ignorado…
Ainda há quem necessite
do seu abrigo para que da casca possa eclodir a vida que, por ora, parece
distante…
Só ele sabe que a vida é
bem mais do que o tempo proclama… embora não saiba porque resiste ao vento, à
chuva, à mão traquina.
(Há semanas que o
observo, mas só hoje o ninho falou comigo.)
8.1.20
Da
instrução do remoto infante
Os Lusíadas, canto III, 6 …
Entre a Zona que o Cancro senhoreia,
Meta setentrional do Sol luzente,
E aquela que por f ria se arreceia
Tanto, como a do meio por ardente,
Jaz a soberba Europa, a quem rodeia,
Pela parte do Arcturo e do Ocidente,
Com suas salsas ondas o Oceano,
E, pela Austral, o mar Mediterrano.
Da parte donde o dia vem nascendo,
Com Ásia se avizinha; mas o rio
Que dos montes Rifeios vai correndo,
Na alagoa Meótis, curvo o frio,
As divide: e o mar que, fero e horrendo,
Viu dos Gregos o irado senhorio,
Onde agora de Tróia triunfante
Não vê mais que a memória o navegante.
(…)
Eis aqui se descobre a nobre Espanha,
Como cabeça ali de Europa toda,
Em cujo senhorio o glória estranha
Muitas voltas tem dado a fatal roda;
Mas nunca poderá, com força ou manha,
A fortuna inquieta pôr-lhe noda,
Que lhe não tire o esforço e ousadia
Dos belicosos peitos que em si cria.
(…)
"Eis aqui, quase cume da cabeça
De Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar começa,
E onde Febo repousa no Oceano.
Este quis o Céu justo que floresça
Nas armas contra o torpe Mauritano,
Deitando-o de si fora, e lá na ardente
África estar quieto o não consente.
Esta é a ditosa pátria minha amada,
A qual se o Céu me dá que eu sem perigo
Torne, com esta empresa já acabada,
Acabe-se esta luz ali comigo.
Esta foi Lusitânia, derivada
De Luso, ou Lisa, que de Baco antigo
Filhos foram, parece, ou companheiros,
E nela então os Íncolas primeiros.
Fernando Pessoa
O DOS CASTELOS
A Europa jaz, posta
nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente
jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos
cabelos
Olhos gregos, lembrando.
O cotovelo esquerdo é
recuado;
O direito é em ângulo
disposto.
Aquele diz Itália onde é
pousado;
Este diz Inglaterra onde,
afastado,
A mão sustenta, em que se
apoia o rosto.
Fita, com olhar esfíngico
e fatal,
O Ocidente, futuro do
passado.
O rosto com que fita é
Portugal.
5.1.20
O
frio não apaga a luz da manhã
O frio não apaga a luz da
manhã nem faz esquecer o desassossego da viagem interminável de quem, num
ímpeto solar, se lançou ao caminho do mar...
Os trabalhos dos dias de
regresso nem seriam assim tantos, não fosse o incómodo da vida safada daqueles
que desconhecem o compromisso, o respeito e a responsabilidade…
A safadeza colou-se de
tal modo à pele que é cada vez mais difícil distinguir a ignorância da maldade,
se não forem consanguíneas…
Não fosse essa inclinação
atávica, a luz desta fria manhã colheria em nós o fruto destes cactos, mesmo
que alguns espinhos continuassem na nossa memória…
Entretanto, na Rua dos
Navegantes, as grades corridas. Por perto, João de Deus - a referência cada
vez mais esquecida!
Ah! Parece que a Sagres
zarpou. Só volta em 2021... vai em busca do Encoberto… ainda a tempo de
entronizar Sua Alteza.
3.1.20
A partida estava agendada
para 6 horas da manhã de ontem, na estação rodoviária do Oriente. Ao certo, não
se sabe qual é a empresa nem o local de embarque - minutos antes das 6, chegam
dois autocarros da Ibercoach… Entretanto, o passageiro lá conseguiu perceber
que faz parte da lista afortunada de viajantes com destino a França, Luxemburgo
e Alemanha…
No controlo e no arrumo
de bagagens a cabo do motorista, somem-se 50 minutos… passageiros há que chegam
às 6:30, como se fosse habitual!
Enfim, o autocarro nº 100
lá parte às 6:54...
A viagem é longa, a
passageira esperava chegar a Hamburgo por volta das 24 horas de hoje,
necessitando de estar em Frankfurt (como previsto) por volta das 18 horas… Mas
não, vai perder a ligação. Vai ter de comprar outro bilhete. Talvez chegue
amanhã, a Hamburgo, às 6 h da manhã!
1.1.20
«Um biógrafo não deve
nunca elaborar e enfeitar, mas um leitor que faça o seu trabalho consegue
formar, com base num punhado de pistas deixadas aqui e ali, um retrato completo
do retratado e do que o rodeia. Dos nossos murmúrios, ele extrai uma voz; muitas
vezes, mesmo se nada dizemos a esse respeito, vê nitidamente como era esse que
estamos a retratar, e, sem uma palavra que o guie, adivinha precisamente o que
lhe iria na cabeça. Ora, é mesmo para leitores assim que escrevemos, pelo que
um tal leitor facilmente verá que Orlando era uma estranha
mescla de estados de espírito…» Virginia Woolf, Orlando, pág. 55,
cavalo de ferro, 2019
Ao leitor, mais do que
elaborar retratos, cumpre especificar e interpretar a incongruência dos estados
de espírito gerados pelo apagamento da Memória, resultante da descontinuidade
das vidas e da evolução tecnológica.
Um destes dias, a
Orlando, pouco interessa se macho se fêmea, nada necessitará de fazer e,
sobretudo, ver-se-á liberto da necessidade de pensar… talvez possa mergulhar na
Natureza e por lá ficar até ser submerso.
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