31.12.21
De facto, a tristeza veio
para ficar a 1 de abril de 2020... Não é que as expectativas fossem enormes. De
qualquer modo, há sempre a esperança de que a mudança, mesmo se lenta, pudesse
dar pequenos passos. (Até à data nunca os passos tinham sidos firmes, apesar
das convicções... mas o melhor é não olhar para trás, nem sequer pedir contas.
Para quê?)
O Vírus instalou-se,
dando asas ao imobilismo suportado parcialmente pelo Estado e, por um
tempo indeterminado, gerou a debilitação das vontades e aumentou dependências
asfixiantes sem retorno...
Por mais pontos de fuga
criados, a verdade é que mais não são do que novas formas de dissimulação.
Formas trabalhosas capazes de enganar os dias, mas que, no cômputo final,
apontam a um fim sem esperança, apenas triste se a cobardia soçobrar.
De nada serve este
balanço, bem sei, exarado num dia em que se celebra não sei o quê, nem porquê.
Fungo de mim próprio,
mais cedo do que tarde, serei ceifado sem que isso tenha qualquer significado.
30.12.21
Já que não navegamos a
sério, então brinquemos no próximo ano, como se ainda fôssemos crianças...
O problema é que há muita
gente que nunca foi criança e, sobretudo, há muitas crianças que nunca saberão
o que é brincar na areia...
Por ora, os sinais são de
falta de bom humor em todos os continentes.
Habituados ao uso da
máscara, vamos tolerando o chicote, procurando mais a festa do que a reflexão
sobre as causas das várias pandemias que vão castigando a Terra...
Esperemos que, em 2022,
nos queiramos libertar do bolor que se foi instalando neste milénio.
26.12.21
A opção parece ter
sido a simplicidade e creio que o resultado foi conseguido.
À beira do caminho, num
bairro de ricos e pobres, o presépio entra-nos pelos olhos dentro, mesmo se
andamos distraídos...Na verdade, não sei se assim será e isso pouca
importa...
Amanhã, teremos um novo
almirante com nome... e Melo; ainda recordo o Thomaz, o Coutinho e o Azevedo...
25.12.21
O conteúdo de um dia como
o de Natal é necessariamente insuficiente ou insignificante ou incongruente. A
ideia não é minha, mas agrada-me. Só o Sol e o Mar são capazes de me libertar
da nulidade destes dias festivos em que as desigualdades se acentuam sem sequer
assegurar aos desprotegidos o prometido reino dos céus...
Diz-me a(o) Google que as
minhas considerações não evidenciam qualquer pertinência em termos
comerciais... e eu estou capaz de concordar, sobretudo, quando no dia de Natal,
me sento numa esplanada deserta no passeio marítimo da praia de Carcavelos.
23.12.21
Esta ocultação do
espírito geométrico incomoda-me. Lembra-me os séculos em que a cultura clássica
foi escondida, proibida... eliminada.
Haveria certamente um
outro lugar onde colocar o presépio...
21.12.21
Parece que o inverno
chegou com chuva, cumprindo a expectativa de quem ainda tem memória das cheias
que mergulhavam os campos em trabalhos de proteção dos muros para que as terras
não partissem em definitivo.
(A memória urbana das
chuvas apenas regista o incómodo dos guarda-chuvas e de outros acessórios,
apesar de tudo, da moda...)
Dizem-nos que a chuva
veio gozar a quadra natalícia e a passagem de ano, depois, só a espaços e de
forma intensiva, cairá.
Não sei se assim será,
mas desconfio que não a valorizamos o suficiente - já ninguém convida a chuva
para ficar, para nos fazer companhia...
Já lá vão os tempos em
que se ficava à escuta por detrás das vidraças ou, então, à lareira a pensar no
infeliz menino deitado num estábulo distante e frio.
Na Palestina, nos
próximos dias, vai chover, mas no dia 25, o sol estará de regresso.
Com chuva ou sem ela,
desejo a todos um BOM NATAL e um 2022 sem COVID!
18.12.21
Olga Tokarczuk no romance
'Outrora e Outros Tempos' leva-nos ao centro da tragédia de um país encravado
entre estados expansionistas, utilizando uma estratégia narrativa peculiar - o
tempo recorrente de diversas personagens prisioneiras do território e, sobretudo,
do seu próprio corpo.
Nem Deus nem a Alma lhes
valem de todo, quando os exércitos estrangeiros se enfrentam, roubando-lhes a
vida ou, pior, mutilando-lhes definitivamente os corpos. E, absurdamente, na
guerra todos morrem, sejam invadidos ou invasores...
A desumanização é uma
consequência da guerra, tal como o esquecimento é a melhor solução para o fim
da vida:
«Aprendeu a esquecer e
o esquecimento trazia-lhe alívio (:..) Bastava-lhe não pensar durante um dia
...»
Este romance é, por um
lado, extremamente cruel e, por outro lado, apaziguador: «Ignorar que se
existe é libertar-se do tempo e da morte.»
Ainda assim, a leitura
desta obra incita-me a aventurar-me um pouco mais na literatura polaca, já que
a Polónia me está cada vez mais distante...
16.12.21
A avezinha é matreira,
desaparece antes do clique ou esconde-se para que eu não possa sorrir...
A avezinha não imagina
que o Natal se aproxima e que de tão minúscula escapará certamente à gula
festiva.
A avezinha não quer saber
que haja quem sonhe com um almirante na presidência e nostalgicamente com um
presidente do conselho ditador...
A avezinha ignora que os
príncipes da renascença são matreiros e que, sempre que pressentem o clique,
sorriem e sacodem a cauda.
No entanto, pelo que
observei, esta avezinha não é franciscana, pois detesta o Ideal.
15.12.21
O dinheiro falta um pouco
por todo o lado - há pedintes que já só pedem 50 cêntimos!
No entanto, o Juiz, em
nome do Estado, chega a pedir 6 milhões para que o arguido possa ir esticar a
pernas sem ser incomodado...
Esta manhã, dei comigo a
pensar que, longe de Deus, todos podemos almejar ser príncipes da renascença...
e tem havido mesmo uns tantos que o têm conseguido ou, talvez, o Juiz tenha
enlouquecido...
Será que Deus o escolheu
para cobrar o que lhe é devido?
14.12.21
Barcelona,
lugar de poetização
De Barcelona a
Barcelona com passagem por Frankfurt... assim desenho a viagem do António
Manuel Venda.
Em Frankfurt, tudo
poderia ter sido diferente, mas não foi... a indecisão do momento gerou uma
nostalgia impossível de superar, mesmo através da sublimação poética.
De facto, a arte, por
mais que se defenda o contrário, não resolve a vida. Barcelona é assim um lugar
em que o Autor poetiza o prosaico da realidade.
11.12.21
A notícia do dia, de tão
repetida e comentada, ofende os ouvidos de quem ousa ligar o aparelho de
televisão.
Não há político que não
aproveite para se pronunciar sobre o 'crime' do Rendeiro que ousou driblar os
senhores que lhe alugaram bens e capitais, com a indispensável compensação.
Não há jurista que não
aproveite para se posicionar mediaticamente, à espera de que os senhores não se
esqueçam deles nos próximos arrendamentos...
Parece que o dia se
esgota neste rosário de dissonâncias, sob o olhar enigmático de Fernando
Pessoa em Durban.
9.12.21
As estatísticas vão
engrossando, não faz mal, é a vontade do Senhor dos Tempos... Ai a Idade! Para
onde vão todas as Idades?
A Mentira, cheia de
compaixão, diz que seremos bem acolhidos e, sobretudo, libertados da solidão,
da doença, da decadência do corpo - as almas elevar-se-ão à espera da
ressurreição!
A verdade é que gostamos
da Mentira, já não sabemos viver sem ela. E por estes dias, celebramo-la principescamente...
E ainda há quem queira
combater a corrupção, como se esta não fosse uma das faces da Mentira.
6.12.21
Esperamos que as luzes se
acendam, mas para quê se nada muda?
Se ainda reconhecêssemos
que vivemos na escuridão, talvez a espera fizesse sentido, talvez a
estrela nos pudesse sinalizar o caminho…
Quais magos, procuramos o
reinício, mas sem ter consciência do caminho que seguimos…
Deixamo-nos embalar,
deixamo-nos cativar… sem perceber que é tempo de romper com a inação… de romper
com a decadência.
3.12.21
«A ideia
do além, do mundo-verdade foi inventada apenas
para depreciar o único mundo que existe - para destituir a nossa realidade
terrestre de todo o fim, razão e propósito!» Frederico Nietzsche, Eu
sou uma fatalidade, Ecce Homo.
Confesso que este alemão,
que detestava alemães, nacionalistas, e parecia apostar no homem europeu, me
tem dado que pensar, sobretudo no que se refere ao peso da moral cristã no
alastrar da cegueira humana...
Ao tomarmos como a válida
a ideia de que todos estamos de passagem, estamos, afinal, a matar a nossa
razão de ser: criar. Deixamos a criação aos deuses e vamos arrastando os pés
para o nada, ou, em alternativa, para o além, com maior ou menor
compromisso.
Não fosse o servo Cabrita
ter desabafado que naquele carro mais não era que um passageiro, eu não teria
tido a coragem de, no fervor natalício, me pronunciar sobre o mal-estar
civilizacional em que mergulhámos - vamos lá celebrar o Natal, pouco importa se
a morte chega em janeiro!
De passagem, o
condestável Cabrita só terá de prestar contas ao criador que, certamente, terá
em conta os serviços prestados...
28.11.21
Talvez pudesse
debruçar-me sobre a situação política… para quê? Afinal, todas as formas de
populismo me enojam. O que é que sobra? Talvez pudesse debruçar-me sobre a
situação futebolística… para quê? Afinal, todas as explicações me parecem
absurdas. Já me estou a imaginar a entrar em campo com sete vizinhos amadores
só pela glória de defrontar os craques aquilinos!
Talvez pudesse
debruçar-me sobre as vítimas da pandemia… para quê? Afinal, se me puser a
jeito, dificilmente escaparei à inevitabilidade.
O melhor é ficar-me por
aqui, e regressar à leitura do Ecce Homo, de Frederico Nietzsche,
mas só ao entardecer, pois é recomendável «Estar o menos possível sentado;
não confiar em ideia alguma na qual os músculos não tenham festiva parte. Os
preconceitos nascem dos intestinos. A sedentariedade (…) é autêntico
pecado contra o Espírito Santo.»
24.11.21
Não
há volta a dar, de António Souto
Os mais preocupados
perguntam hoje: Como se há de fazer para conservar o homem? Mas Zaratustra é o
primeiro e único a perguntar: Como se há de fazer para superar o homem?»
NIETZSCHE, ASSIM FALAVA ZARATUSTRA
Perante o título NÃO HÁ
VOLTA A DAR - crónicas de ANTÓNIO SOUTO - sinto-me perplexo. Será verdade?
A lição do passado
refresca-nos a memória, alivia-nos da frustração do presente: «Anda um vírus
à solta pelo mundo, pelo nosso mundo, agora de repente tornado nosso...»
Passámos a expiar os nossos crimes, acreditando na redenção... «até ao dia
em que nos sintamos a salvo.»
Perante a insistente
necessidade de conservar o homem (e o planeta...), o Autor mostra-se cético e
mordaz porque o conhecimento da realidade é cada vez mais diminuto, substituído
que é por uma inenarrável alienação.
Compreende-se, assim,
que não haja volta a dar! No entanto, a história do homem diz-nos
que, apesar da miséria que este consigo transporta, ele sempre conseguiu
superar os obstáculos, fossem eles a natureza, os deuses ou outros homens...
Só falta ao homem
superar-se a si próprio, caminho sempre presente na escrita do ANTÓNIO SOUTO,
mesmo que o pessimismo lhe seja peculiar.
(Esta obra foi
apresentada pelo António Manuel Venda na Biblioteca da Escola Secundária de
Camões no dia 23 de novembro de 2021.)
20.11.21
Não sei se a roda é
grande se é pequena, mas que rola, incansável, rola...
Dizem-me que ler é
salutar, mas nem sempre a leitura faz bem à mente - há quem leia tudo ao
contrário porque lhe convém...
Não sei o que pensar da
situação global, eu que mal consigo interpretar o que se passa no meu quintal -
se o tivesse!
Não sei se, de facto, o
problema atual não é, afinal, uma guerra geracional....
Só sei que a roda rola,
incansável, rola...
18.11.21
Há atos que o melhor é
ficarem com quem os pratica, apesar de, muitas vezes, procurarem castigar
silêncios incompreendidos.
De nada serve
amplificá-los, porque a tarde caiu sobre eles, apenas servindo para reiterar a
incomunicabilidade num tempo de amizades sonoras e falazes.
Por isso, os atos são
brutos e rolam, rolam sem que nada os possa interromper...
(de nada servem, as
palavras)
15.11.21
Secas caem as notícias
nem a distância as
humedece.
(Só o olhar furtivo
aquece.)
O que fazia?
Lia escrevia sofria
por certo
e agora fenece.
12.11.21
Não vos queixeis, ó filhos da
ansiedade,
Que eu mesmo, desde toda a eternidade,
Também me busco a mim… sem me encontrar!
(Antero de Quental)
11.11.21
Como diziam os meus
alunos, professor não conte…
E não vou contar, a não
ser que a leitura me permitiu relembrar consulados mais ou menos efémeros, em
que os projetos pessoais se sobrepunham ao interesse nacional, a intriga
política era alimentada por uma comunicação social a quem apenas interessava vender
o 'produto', indiferente às circunstâncias e aos factos - realidade para que te
quero fosse aqui, fosse no Brasil, fosse em Macau, em Timor ou no Iraque!
Desta leitura retiro,
sobretudo, a ideia de que é fácil enredar um Presidente da República por mais
íntegro que ele seja, mas que, infelizmente, há outros (presidentes) que não
conseguem escapar ao papel de bonecreiros, convencidos que podem modelar a realidade,
sujeitando-a aos caprichos do momento…
Prometi não contar e não
conto, porém recomendo este livro aos jovens que sonham subir ao palco, seja
ele da política ou da comunicação social.
Por estes dias, a memória
da década de 1996 a 2006 poderia ajudar a evitar velhos erros...
9.11.21
Já lá vai o tempo em que
gostava de pessoas que sabiam a lição de cor, que nunca se atrapalhavam -
clérigos, professores, políticos. Era fascinante ouvi-los e a vontade de os
imitar não faltava…
Mais tarde, percebi que o
saber projetado sobre o auditório era um tanto empolado e frequentemente
tendencioso - a homilia, a lição, o discurso serviam desígnios misteriosos que
escapariam à pequenez dos paroquianos, dos alunos e dos cidadãos. Na verdade,
ou não havia perguntas ou eram escamoteadas, não fosse quebrar-se o fio
condutor.
Hoje, já é possível fazer
perguntas - há até guiões, roteiros. No entanto, os políticos continuam a falar
de cor, a falar redondo, sem serem incomodados… Só que perdi, em definitivo, a
vontade de os imitar e de os ouvir (aos entrevistados e, sobretudo, aos
entrevistadores).
7.11.21
Custa-me a crer, mas as
imagens são de raiva bem nutrida. Concentram-se em fúrias bem medidas,
insurgindo-se contra os políticos da hora, fazendo de conta que os papás em
nada são responsáveis pelo alastrar dos desertos e das fomes ancestrais…
Entretanto, vão saltando
de metrópole em metrópole, como se por perto não se amontoassem esqueletos
esquecidos no presente…Oráculos do futuro, vivem de raivas acolchoadas e
bem nutridas.
4.11.21
Pobres romãzeiras!
Defraudadas, certamente. Quando o frio se aproxima é que decidem amputá-las de
tudo o que as distingue...
Agora que o Inverno se
aproxima é que os doutos deputados decidiram enviar o orçamento às urtigas,
como se este fosse descartável por estes tempos...
E logo que ficou claro
que o corte do orçamento era inevitável, levantou-se o Presidente, e fingindo
pôr os pontos nos is, declarou urbi et orbi que ia dissolver o
parlamento. Só uns dias mais tarde, percebeu que havia regras constitucionais a
cumprir e que no seu quintal se ia cortando a torto e a direito, abrindo
avenidas de oportunismo político até há poucos anos impensáveis.
Daqui a uma hora, o
Presidente proclamará o dia e a hora em que iremos a votos para escolher quem
apresentará novo orçamento, como se não houvesse mais vida para além do dito.
1.11.21
A
profecia de Daniel e a neutralidade carbónica
A Índia, terceiro país
mais poluidor do mundo, atingirá a neutralidade carbónica em 2070, anunciou
hoje o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, reduzindo até 2030 as suas
emissões poluentes em mil milhões de toneladas.
A profecia de
Daniel:
"Começaste a cuidar,
ó Rei (Nabucodonosor), deitado no teu leito, diz Daniel, o que havia de suceder
depois do tempo presente, e o Deus que só pode revelar os mistérios e os
segredos ocultos, te mostrou naquela visão tudo o que está para vir nos tempos
futuros, e o que eu agora te direi, não por arte ou ciência minha, se não por
revelação sua. Parecia-te que vias defronte de ti uma estátua grande, de
estatura alta e sublime e de aspecto terrível e temeroso. A cabeça desta
estátua era de ouro, o peito e os braços de prata, o ventre até os joelhos de
bronze, dos joelhos de ferro, os pés de ferro e de barro. Estando assim
suspenso no que vias, viste mais que se arrancava uma pedra de um monte,
cortada dele sem mãos, e que, dando nos pés da estátua, a derrubava. Então se
desfizeram juntamente o barro, o ferro, o bronze, a prata, o ouro, e se
converteram em pó e cinza, que foi levada dos ventos, e nem aqueles metais
apareceram mais, nem o lugar onde tivessem estado; porém a pedra que tinha
derrubado a estátua cresceu, e fazendo-se um grande monte, ocupou e encheu toda
a terra.
(...) Aquela pedra,
ó Rei, que viste arrancar e descer do monte, que derrubou a estátua e desfez em
pó e cinza todo o preço e dureza dos seus metais, significa um novo e quinto
Império que o Deus do Céu há-de levantar ao Mundo nos últimos dias dos outros
quatro. Este Império os há-de desfazer e aniquilar a todos, e ele só
há-de permanecer para sempre, sem haver de vir jamais por acontecimento
algum a domínio ou poder estranho, nem haver de ser conquistado, dissipado ou
destruído…
Sobre o futuro, pouco há
a dizer, embora todos possamos fazer alguma coisa, mesmo se deitados como o Rei
Nabucodonosor…
31.10.21
A Argélia encerra hoje o
Gasoduto Magrebe-Europa, após 25 anos em funcionamento, alegando motivos
políticos e geoestratégicos, mas prometeu compensar a Península Ibérica
aumentando a capacidade do Medgaz e as exportações de gás natural liquefeito
por via marítima. (...)O assunto esteve, na quarta-feira, no centro das
conversações entre a ministra espanhola da Transição Ecológica, Teresa Ribera,
e o ministro argelino das Minas e Energia, Mohamed Arkab. MadreMedia
/ Lusa
Li a notícia na
totalidade e não vi qualquer referência a Portugal. Será que passámos a ser
representados pela ministra espanhola, Teresa Ribera?
Não queremos combustíveis
mais caros, mas delegamos nos 'parceiros' ibéricos e europeus a defesa dos
nossos interesses! Sem esquecer que o atual incentivo, através da redução de
impostos diretos ou indiretos, ao consumo de combustíveis é cada vez mais
prejudicial... Continuamos concentrados no voto do eleitor!
Pouco mais produzimos do
que lixo, como se vai vendo nas guerras intestinas que vão minando os partidos
da direita e da esquerda, porque, afinal, o que todos procuram é deitar a mão
ao bodo (bazuca)...
O futuro pode esperar! O
problema é que não pode!
28.10.21
Ontem, não chumbaram o
Costa nem seria possível de acordo com o critério pedagógico... Talvez uma
retenção temporária para melhor recuperar as habilidades!
Ontem, o Costa perdeu na
Relação. Antes já tinha sido advertido em 2019 e nas autárquicas deste ano...
Não é por se posicionar mais à esquerda ou à direita, mas porque a maior parte
das medidas incrementadas são efémeras e sem efeito positivo na vida das
pessoas.
Da próxima vez, se não se
libertar da fatuidade, o Costa ver-se-á obrigado a emigrar, como
vários dos seus antecessores...para glória da Nação.
27.10.21
Nós queremos é
dinheirinho! Como não haveria suficiente no orçamento para satisfazer todos os
apetites, a esquerda e a direita juntaram-se e chumbaram-no.
O Costa ao dizer que é de
esquerda está no direito dele, mas quando se tem a responsabilidade de decidir
não se é esquerda nem de direita. Decide-se, pior ou melhor conforme as
circunstâncias...
Dentro de dias, Costa
poderá voltar a ser de esquerda e poderá prometer o que quiser, mas nós já
sabemos que se ele voltar a governar deixará de ser de esquerda ou de direita.
E ainda bem!
Só quem não decide é que
não sabe que governar é avançar ou recuar conforme as circunstâncias.
Exceto, talvez, o
Presidente malabarista!
23.10.21
Com tanta gente que nos
deixa à nora, sempre que regresso a Tomar, nem que seja por duas ou três horas,
nunca deixo de visitar o parque do mouchão...
Voltei a passar por lá, e
a roda continua a girar, o que me deixa agradado, apesar da cidade me parecer
deserta, voltada mais para o turismo do que para as suas gentes.
Vê-se que o município tem
gasto muito dinheiro em diversas obras, não sei se bem se mal...
No entanto, hoje, tive a
sensação de que Tomar deve ter deitado a alma ao Nabão como outrora Nabância
terá feito a Iria...
De qualquer modo, se for
a Tomar não se esqueça de passar pelo Mercado... sem esquecer o Convento de
Cristo. Mas este já faz parte de outro caminho...
21.10.21
António Lobo
Antunes não conta, desconta...
A quem desconheça a
história do PCP e, em particular, a biografia do seu militante e dirigente,
Júlio Fogaça (1907-1980) de pouco servirá navegar nas páginas do romance Dicionário
da Linguagem das Flores, de António Lobo Antunes (Outubro 2020).
De facto, o romancista
não conta, poderá dizer-se, talvez, que desconta a vida de Júlio Fogaça, toda
feita de partículas deixadas cair em espaços, umas vezes falsamente burgueses,
outras miseravelmente proletários, ora ribeirinhos ora de sequeiro…
Aos poucos, o leitor vai
navegando nos círculos concentracionários, do mais amplo para o mais reduzido…
E nesse aspeto, o Partido move-se no interior do Estado Novo em círculos
fechados, desenhados de forma claustrofóbica, onde as relações heterossexuais
são de fachada para confundir os olheiros do grande círculo e para sossegar os
controleiros do Partido; apenas a homossexualidade negada vai ganhando peso na
luta interna comunista, não tendo o escritor tido coragem de denunciar, de
narrar o que, na verdade, aconteceu a Júlio Fogaça a partir de 1960. Ficou-se
pelas flores, belíssimas, por vezes, mas que com o tempo vão murchando… E, por
outo lado, não é fácil colhê-las num dicionário, onde ninguém espera
encontrar a alma...
20.10.21
Com os diabos à solta, o que faz a República?
Canoniza.
Olhar para o lado ou ainda melhor olhar para trás é uma tentação. Vamo-nos
redimindo da inação com gestos de apoteose...
A República lá vai entronizando os seus santos, uns de ocasião outros
reveladores de má consciência.
E de que nos servem os santos? De exemplo? Não me parece.
16.10.21
Os amigos não esquecem.
Por chamada, SMS, Messenger, Facebook, fazem votos de que tudo corra pelo
melhor. Esperemos que sim, que haja orçamento, que haja aumentos, que haja
saúde... e relva e mar e sol e que a lua não se esqueça de nos surpreender.
Obrigado a todos!
Por mim tudo bem até
porque o tomateiro que dantes crescia fora do gradeamento, apesar de ter sido
eliminado pelo jardineiro, soube reproduzir-se do outro lado, atrás da baliza e
que, porquanto, vai crescendo feliz, indiferente à bola ameaçadora. Ele sabe
que o segredo está na semente e na brisa matinal.
14.10.21
Lá fora há
certamente alguma coisa. Se me concentrar, conseguirei ouvir os camiões a
rodar, os cães a ladrar e os pássaros... a voar, vejo-os sem os amarrar. Eles é
que me prendem o olhar, à espera do tsunami que virá do lado errado do
mar.
Lá fora ainda não sinto o
odor do enxofre vulcânico, mas parece que vai chegar. Por isso decidi fechar as
janelas, correr as cortinas e ficar-me simplesmente a matutar nas razões que me
prendem aos ponteiros que não cessam de rodar... Poderia ir até lá fora, mas
não, está escrito que devo ficar por dentro, aborrecido por não saber quem
gizou este rumo.
10.10.21
Quando a observo, a
Paineira lembra-me a Casa dos Bicos que, se fossemos
rigorosos, seria a Casa dos Diamantes, à semelhança da Casa renascentista
italiana (Ferrara e Bolonha).
Lá podemos encontrar a
Biblioteca de José Saramago, apesar das bicadas.
Esta árvore cresce no
Jardim do Campo Grande e creio que passa despercebida à maioria dos
transeuntes. Ainda bem!
A Paineira pode
atingir os 30 metros e, por volta dos 20 anos, liberta-se dos acúleos, dando
abrigo aos ninhos dos pássaros que a procurem.
Fico-me por aqui, pois já
começo a ver ouriços, esses têm dezasseis mil picos e usam-nos para
diferentes necessidades: camuflagem, defesa, ataque, transporte de
comida. É obra!
9.10.21
Como não nos ensinam a
fazer um orçamento, o tema passa-nos ao lado, talvez porque sempre o vimos como
um saco sem fundo... Mergulhamos a mão e alguma coisa havemos de encontrar,
pouco interessa se o saco é nosso ou alheio...
Claro que lá de tempos a
tempos, desatamos a enaltecer o ministro do orçamento, personalidade única
capaz de acertar o deve e o haver, e quando tal sucede respiramos fundo, e
deixamo-lo fazer o que bem entende, sem verdadeiramente nos explicar o milagre orçamental.
De facto, o nosso maior
problema não é a ignorância orçamental, mas, sim, a ignorância tout court,
embora saibamos que o que desejamos não é justo, pois só contribuímos se a isso
formos compelidos... e parece que gostamos do empurrão!
Consta que o governo já
terá aprovado o orçamento, contudo só a 26 de novembro ficará escrito. E, de
acordo com a história recente, nunca chegará a ser regulamentado... o que deixa
a entender que o ministro do orçamento já foi entronizado. A minha dúvida
centra-se no titular da pasta: será Leão ou Centeno? Há mesmo quem diga que o
Costa prepara remodelação e que, afinal. o mágico da execução se chamará
Medina.
A ver vamos!
8.10.21
Não sei o que é um
orçamento e muito menos para que serve. No entanto, não se fala de outra coisa
nos meses de outubro e de novembro. Bem, exagero, também se falou das eleições
autárquicas nos últimos tempos; talvez o Moedas tenha sido eleito a
pensar no orçamento... Sem esquecer as eleições no Benfica, apesar do
orçamento..., os comentadores televisivos parece que também vão a votos...
alguns gostariam mesmo de assistir à morte das águias...
E depois há o Covid 19,
quase esquecido, em nome do orçamento... Alguns, não querendo perder o emprego,
apostam no reforço do SNS... querem lá da saber da saúde, o que interessa é
viver da doença...
Bazucam-nos
permanentemente com números de insuficiência, de carência, de abundância, de
desenvolvimento; só não nos explicam para que serve o orçamento...
7.10.21
Obrigado,
Bruno Vieira do Amaral!
(No dia em que o
prémio Nobel de Literatura foi atribuído a Abdulrazak Gurnah de quem nunca
ouvi falar, confesso.)
Conclui a leitura
de Integrado Marginal, biografia de José Cardoso Pires, da autoria
de Bruno Vieira Amaral.
Há muito que não devorava
uma biografia com tamanha celeridade! Fundamentalmente, por três ou quatro
razões: a exposição da matéria, ordenada e clara; o tempo histórico,
salazarista e abrilista; a afirmação literária de JCP e a ortodoxia de sinais
opostos; os círculos artísticos, amizades e hostilidades confessadas ou
silenciadas.
Para quem atravessou o
tempo do biografado, lhe leu a obra, desconhecendo a trama que se ia tecendo
nos bastidores, o trabalho exaustivo de 'reconstituição' da vida familiar,
social, cultural e política de grande parte do século XX é deveras formativo, ajudando
a compreender a pequenez do país e os assomos de protagonismo, raramente
justificados.
Esta leitura não ajuda
apenas a compreender as misérias e as grandezas de Cardoso Pires, dá também a
conhecer outras facetas de vultos de todos bem conhecidos, nem sempre pelas
razões mais dignas.
4.10.21
No
dia 3 Agosto de 1961, o Renault 4 foi apresentado ao mundo
Também eu fui
proprietário de um Renault 4L.
(O menino Daniel gostava
imenso de o 'conduzir', indo, por vezes, ao ponto de o empurrar, colocando-se
em risco para desespero dos familiares... Imaginem as letras que o petiz
oculta: ?? -74-78!)
Comprei-o na Portela de
Sintra, ainda antes de ter tirado a carta... Relembro, como se fosse hoje, a
primeira vez que o conduzi, pois durante a instrução sempre lidara com uma
marcha atrás bem diferente... De qualquer modo, acabei por conseguir inverter a
marcha... Outros tempos!
2.10.21
Por necessidade de
combater a desagregação psíquica, a Ponte foi solução pontual, pois calculava
que os flamingos da outra margem se exprimiam na leveza de um baile sem
público... Ou será bailado?
E assim foi. Só eu não
estou à altura da oferta, no entanto tal não impede que aqui refira um outro
'fotógrafo' da pequena burguesia - José Cardoso Pires que, vou revisitando,
entusiasmado, na versão de Bruno Vieira do Amaral - INTEGRADO MARGINAL... Há muito
que não lia uma biografia tão bem construída e tão bem fundamentada!
Não conseguindo fixar-me
no número de sílabas, consegui, porém, travar o avanço do rio Lete... o que dá
outra cor ao dia, mesmo se a cinza parece tudo obnubilar.
30.9.21
Na
universidade de Cabul mandam os cábulas
(Em Alcântara, começo
a pressentir que há uma relação etimológica entre cábula e Cabul.)
Os talibans apoderaram-se
da Universidade de Cabul, onde os estudantes cábulas nomearam um deles reitor
- Mohammad Ashraf Ghairat.
Nos dicionários a que
tenho acesso, não encontro explicação para a origem da palavra 'cábula'. O que
me dizem é que a origem é obscura. Um entendido vai dizendo que o termo vem do
catalão, com o sentido de ardil, tramoia.
Espero, entretanto, que
'cábula' não seja da mesma família de 'cabelo'. Estão a ver porquê?
Infelizmente, se tal
acontecesse, começaria a compreender a necessidade dos talibãs - cábulas,
cabeludos e barbudos - perseguirem todos os que insistem no corte ou na remoção
dos pelos.
A pilosidade, para certos
cábulas, é um traço que distingue o sagrado do profano, o bem do mal e,
principalmente, uma marca de preguiça ancestral.
28.9.21
"Enquanto não for
criado um ambiente islâmico para todos, as mulheres não serão autorizadas a vir
para as universidades ou trabalhar. O Islão primeiro", disse, através
da sua conta oficial na rede social Twitter, o novo reitor da universidade de
Cabul, Mohammad Ashraf Ghaira ( o estudante /talibã, que aos 38 anos, já é
reitor).
Esta decisão nada tem a
ver com o Deus do Islão. Muito antes do século VII, já as mulheres eram
consideradas inferiores e obrigadas a obediência cega - eram objeto de prazer e
de procriação. Os privilégios eram todos do homem, de certos homens…
Se o Deus do Islão
conhece todas as intenções dos homens, então, é difícil compreender a
necessidade de criar «um ambiente islâmico» - este existe no Corão desde o
século VII, não cabendo ao homem modificá-lo, por exemplo, através das redes
sociais, como o Twitter...
As redes sociais são um
instrumento que um genuíno talibã nunca utilizaria, pois a um servo de Deus do
Islão não convém ir além do Corão, isto é, ir além da vontade divina.
27.9.21
Parece simples, mas não é
ou, então, a explicação não está ao alcance dos sábios… Em Medina, a palavra é
confiança, certeza - a voz de Deus é direta… Basta aplicá-la!
Em Medina, tudo já foi
dito...
Mas Medina não deixou
crescer a barba, não perseguiu os barqueiros…E estes, ingratos, preferiram a
moeda, a troco de uma descida aos rios subterrâneos que prometem
transportar-nos aos campos elísios.
(As bicicletas
esgueiravam-se pelas vielas de Medina sob o olhar implacável dos munícipes...)
26.9.21
Às 7:58, já estava à
espera de poder votar. Às 8:05 h, já estava despachado e, como podem imaginar,
às 10:20, o almoço está pronto.
Que mais posso
dizer!
Espero que não se
esqueçam de votar e que os alemães me sigam o exemplo, que bem precisamos
deles...
23.9.21
Este é o meu contributo
para as eleições de 26 de setembro.
Se no domingo me deslocar à mesa de voto, procurarei
no boletim algo extasiante …
Caso não encontre, votarei em conformidade, e sairei
de lá com os olhos repletos de sombras…
Mas como nem tudo é o que parece, o melhor é
reconhecer, desde já, que o contributo é da Natureza que, apesar das largadas
partidárias, me vai iluminando os dias.
22.9.21
Não é uma eira, mas pode
ter sido. Dois bancos amputados não servem de nada… Tal como surgem, grande é o
risco de se virarem, deitando ao chão os incautos de passagem…
Tempos houve em que a
eira acumulava maçarocas, outros cereais, figos e passas de uva, à espera de
triagem, de esbulho ou de secagem… e sobretudo de aparvoadas conversas. Tudo
acabava por ser dito, pondo ponto final ou abrindo novo parágrafo…
E quanto ao que não foi
dito no devido tempo, é tarde para o reconstituir. E sobretudo é perigoso,
porque as palavras já não procuram o crivo, estatelando-se no terreiro.
20.9.21
Domingo! A campanha
eleitoral decorre no jardim Almeida Garrett. Junto ao Ginásio, a Junta de Freguesia
'oferece' um dia de fado, farturas e pão com chouriço… Coincidência?
De facto, lá está, embora
menos visível, o slogan PRIMEIRO AS PESSOAS!
Fernando Pessoa, na pele
de Ricardo Reis, ensinava que em primeiro lugar devermos obedecer ao Fado,
depois venerar os Deuses e, finalmente, lembrarmo-nos que somos homens, talvez
pessoas…
18.9.21
Com tanta falta de aprumo
nas ruas, nas assembleias, na vida académica, na intervenção
mediática…resta-nos a verticalidade ignorada da natureza no Jardim José
Gomes Ferreira:
«No princípio do Outono
ainda sobem as últimas folhas
da terra para os ramos.
Só mais tarde
caem
por instinto de sono
e ouro de recorte
num esforço de sol
a querer emendar a morte.»
Poesia V - Pontapés nas pedras
16.9.21
Ser frágil e misterioso,
indiferente à minha presença, cumpre o dia por mais efémero que venha a ser…
A corda está lá, mas não
o prende, dá-lhe pouso, indiferente à sua presença.
O contraste estático, só
o eu vejo. Mas para quê?
Estas palavras poderiam
ser aladas e transparentes, mas não, são presas, mesmo sem terem sido
encordoadas.
13.9.21
Há quem pique o ponto,
mas não faça nada.
No fim do dia, devem
sentir-se superiores, mas em quê? Mais valia não dar sinal de vida, deixar-se
ficar na caminha…
Afinal, para que é que os
colocaram na Terra? Sim, porque nascer, em muitos casos, é um exagero.
A não ser que se tenha
vindo ao mundo para infernizar a vida dos outros, argumentando que eles é que
são o inferno. Por exemplo, tudo seria mais simples como filhos(s) único(s).
12.9.21
Eram 7 da manhã! O dia
começara cedo: a Susana lá ficara no aeroporto, de regresso a Hamburgo, ainda à
espera de que os efeitos do Covid 19 não exacerbem o rigor alemão...
E eu nada mais podendo
fazer, fui espreitar a foz do Trancão, naquela hora quase sozinha.
E para animar, o Sol que
madrugava ou melhor eu é que madrugara, obedecendo a uma disciplina antiga do
tempo em que o Latim imperava...
Horas mais tarde, já a
filha aterrara, eu voltava aos livros, à procura de uma explicação para a
discriminação das mulheres no Islão.
Dizem-me que Deus é que
sabe e que o homem nunca deverá questionar os seus critérios, tal como as
mulheres não devem desafiar os homens... Uma tristeza, não fosse o Sol...
10.9.21
O coro é unânime na
valorização da ação e da coerência. À distância, tudo parece bater certo. No
entanto, muitos foram os momentos em que o coro desafinou. Muitos que, hoje,
fazem o elogio do «santo», viram no presidente um demónio caprichoso.
De qualquer modo, a memória dir-nos-á que Jorge Sampaio esteve sempre do lado
dos mais fracos e dos mais esquecidos.
Rogai por nós, pecadores,
agora e na hora da nossa morte que o Jorge já não
precisa.
6.9.21
«O segredo da
felicidade e da virtude é gostar daquilo que se é obrigado a
fazer. Tal é o fim de todo o condicionamento: fazer as pessoas apreciar o
destino social a que não podem escapar.» Aldous Huxley, Admirável
Mundo Novo.
Poucos são aqueles que
fazem livremente aquilo de que gostam. Uns tantos não chegam a ter oportunidade
de gostar do que quer que seja... e muitos afirmam gostar do que lhes é imposto
para que se possam sentir virtuosos e felizes...
As caravanas prometem
mais emprego, melhor alojamento, descarbonização, serviço nacional de saúde
mais abrangente e eficiente, transparência, e até a Santa Casa promete aumentar
os prémios de jogo... desde que continuemos a jogar, sem esquecer a promessa
dos 850€ para o ordenado mínimo nacional…
Pelo andar da caravana,
um destes dias, somos todos alfas ou betas ou gamas. Tanto dá!
3.9.21
Preocupado? Creio que
sim!
Nunca se sabe quando o
inimigo ataca. Sim, porque já não se pode confiar em ninguém.
Os povos com história são
aqueles que, de forma permanente, combatem os inimigos que se vão revezando.
Durante as tréguas -
formas de baixar a guarda - e, quando menos se espera, o amigo vaticina a
desistência, por cansaço ou por descrença.
Duma penada, confirma-se,
para 2023, a insolvência da nação e o naufrágio do PS.
E para quê? Para
modificar a agenda comunicacional deste fim de semana. Talvez tenham reparado
que o dia de ontem foi um dia triste para o Presidente, porque o António Costa
se lembrou de celebrar a ação política de um governo de há 40 anos... e foram
recordados atos pouco abonatórios.
1.9.21
Junto à A1, está a
crescer uma nova urbanização, fálica, ao que se percebe. Destrói-se, para
depois se importar, mantendo a galhardia de outros tempos.
Mas é só fachada, a
natalidade vai diminuindo e a mortalidade continua impiedosa...
A estatística não engana,
só que nada diz sobre a impiedade da pobreza. Promete-se um acréscimo do
ordenado mínimo e, ao mesmo tempo, a classe média vai sendo atirada para dentro
da chaminé, vai sendo incinerada por gente falaciosa...
28.8.21
Desta vez, o azar saiu ao
estudo de Michael Herzfeld, A Antropologia do Outro Lado do Espelho...
Faltam-me os pré-requisitos para compreender debate tão aprofundado sobre os
laços entre a antiga Grécia e a Moderna Grécia, sobre os maus tratos sofridos
ao longo dos séculos, sobre a influência 'poluidora' dos Turcos, no passado
como no presente, sobre o olhar acusador da Europa reivindicadora do legado
'grego'...
Percebi, no entanto, que
os antropólogos têm a qualidade divina de ver por detrás do espelho … e não dos
'olhos cegos' de Ricardo Reis. Ora, no meu caso, começo a passar bem sem o
espelho - a escrita, desde que foi inventada, insiste na deformação do que, a
cada momento, nos entra pelos olhos dentro… E não precisam de ser gregos!
Bem sei que sem a escrita
(o espelho), Heródoto teria ficado esquecido nas areias da memória, e assim
faltar-nos-ia a História e sobrariam as estórias, malfadadas, mas do lado de cá
do espelho - vulgares e desafiantes da alteridade.
(Livros que repousam nas
estantes à espera de leitor, porque alguém se esqueceu inadvertidamente deles.)
26.8.21
Refém de mim próprio,
talvez!
Todos conhecemos o
princípio: a liberdade de tudo querer, a liberdade de tudo poder, a liberdade
de tudo fazer...
Por tácitos motivos,
deixamos de fazer, desculpamo-nos com o desnorte da vontade e, quanto ao
querer, desconsolados, deixamo-nos estar.
Tudo o que ainda fazemos
é reação a estímulos que a consciência nos proíbe de rejeitar. De nada nos
serviria hipotecá-la. A mão perde-se no vazio e nada temos para penhorar.
Posso olhar a flor,
procurar a abelha, ver se a borboleta se oferece, mas a única impressão é a de
que o besouro veio para ficar.
Hoje, acordei, sem
perceber porque há mais de 300.000 besouros diferentes na terra, e que há quem
os saiba distinguir. Talvez, um dia, alguém explique cientificamente que eu sou
um desses insetos que nunca chegou a saber que a liberdade é uma borboleta.
(As borboletas não têm
fé, seguem um roteiro de que ignoram a finalidade, obedecendo. A não ser que a
fé seja uma forma de obediência.)
22.8.21
Será
que o Ocidente capitulou?
37 milhões de pessoas
vivem no Afeganistão. Apesar da diversidade étnica, mais de 90% da população é
muçulmana, a grande maioria sunita...
Superfície total: 652230
Km2. A título comparativo, a superfície total da França: 643801
km2.
Esperança de vida dos homens: 50,6 anos (2018)
Esperança de vida das mulheres: 53,6 anos (2018)
167000 postos de rádio (1999)
Telemóveis: + de 22 milhões (2019)
Utilizadores de Internet: + de 4 milhões (2018)
Há números que nunca
chegaremos a conhecer. Por exemplo, quantos afegãos querem abandonar o país?
Quantos estrangeiros se instalaram no Afeganistão nos últimos anos, e a fazer o
quê?
Um dos grandes problemas
parece ser o da informação: O que é que efetivamente os EUA (e a NATO)
negociaram com os talibãs?
Será que o Ocidente
capitulou ou tudo não passa de uma encenação miserável, sacrificando mais uma
vez as minorias, os mais pobres e os mais fracos?
19.8.21
Na Tapada das
Necessidades, não há cobras e os gatos detestam a gritaria dos galináceos.
Assim se explica que os pintos possam crescer sem preocupações de maior...
Nós, pelo contrário,
vivemos em permanente desassossego. Há sempre uma víbora que espreita os rostos
destapados e incautos.
Se por uma vez, as vozes
em uníssono se levantassem, talvez a noite não caísse tão cedo.
18.8.21
Desta vez, Boris Johnson
foi claro. A política de ocupação ocidental acabou, não só no Afeganistão como
em qualquer outra parte do mundo. Por outro lado, a Europa tornou-se
insignificante no tabuleiro dos interesses globais.
Dans son allocution, M. Johnson a répondu qu’il fallait
regarder « la dure réalité » en face : « depuis 2009, 98 % des armes fournies
par l’OTAN sont venues des Etats-Unis. Au pic [de l’intervention], sur 132 000
soldats, 90 000 étaient Américains. L’Occident ne pouvait pas continuer sans la
logistique des Etats-Unis, sa capacité aérienne et sa puissance. » Il ajoute
que ni les alliés occidentaux (hors Etats-Unis) ni la population britannique ne
sont prêts à envoyer des dizaines de milliers de soldats supplémentaires en
Afghanistan. Le
Monde, le 18 août 2021
17.8.21
No Afeganistão, chegado o
dia D, já só restavam 16 portugueses. Ainda bem! Em dias bem mais remotos demos
um contributo inestimável para o enfraquecimento da Rota da Seda.
Doravante, a palavra é
dos sunitas, em nome de Maomé (571-632): proibir e educar!
Quem não quiser obedecer pouco poderá fazer! Há séculos que não se desviam
deste roteiro...
Os ciclos de proselitismo
vão alternando com os de ocupação num jogo de interesses interminável -
os mais fracos dificilmente escapam à solidão e à morte...
Por cá, também, andamos
confusos quanto ao modo de educar. Preferimos proibir. Despacho n.º
8127/2021.
13.8.21
São tantos os candidatos
a mudar as nossas vidas que já não sei o que fazer ou, melhor, o que dizer.
Estranho, no entanto, que nenhum se apresente com o objetivo de transformar a
sua própria vida. Na realidade, os candidatos nem nos perguntam se há alguma
coisa que queiramos abolir ou modificar.
Eles conhecem-nos de
ginjeira, o que lhes permite recorrer às habituais artimanhas, sem que nos
apercebamos que um «parasita é uma bicharia rastejante, insinuante, que
quer engordar à custa dos vossos membros doentes e torturados.» Nietzsche, Assim
Falava Zaratustra
9.8.21
«A riqueza só é
condenável enquanto tentação do ócio e do gozo pecaminoso da vida. Com efeito, se o puritano vê em todos os
aspetos da vida a mão de Deus, quando se lhe depara uma oportunidade de lucro é
porque Deus lá terá as suas razões para isso. O dever do cristão crente é
corresponder a essa vontade e tirar proveito da situação.»
Max Weber, A
Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, ed. Presença, pág. 128.
Já é tarde para voltar
atrás! Quando nasci, mergulharam-me na pia batismal dos católicos... e todas as
portas que fui atravessando desaguavam num Céu casto e repleto de
benfeitorias... Ninguém me segredou que noutras regiões, em nome de Deus, se
poderia beneficiar de um outro tipo de vocação (Beruf) bem mais
terrena e por mais estranho que possa parecer o papel da vontade humana era
nulo. Tudo dependia da Graça de Deus.
Deste modo, nem me posso
considerar desgraçado. A não ser que se considere a hora e o lugar
do nascimento errados. Como esse argumento era insuficiente, mergulhei na
dúvida, sem ter percebido que, talvez, tivesse vocação...
Poderia ter seguido, por
exemplo, o caminho dos salgados, dos vieiras, dos berardos, dos silvas, dos
costas, dos mexias, dos rendeiros, dos sousas e outros que tais que souberam
aproveitar as oportunidades, porque Deus lá teria as suas razões...
Em síntese, Max
Weber, apesar de já ser tarde, acaba de me explicar o ar desempoeirado dos
capitalistas portugueses... não fosse a tentação do ócio e do gozo
pecaminoso da vida...
7.8.21
Se me aproximo,
esconde-se na valeta. Se me afasto, volta à rua, talvez, para observar o
pôr-do-sol daquele dia...
Qualquer ruído o assusta. Felizmente, o gato conhece
todos os esconderijos do lugar.
E eu, por momentos, invejo-o, tal como ao Sol, para
quem nada significo.
Ali parado, esqueço que algo me move, embora finja não
saber... ou, se calhar não sei mesmo.
4.8.21
No Luso. A 'villa'
existe, a necessitar de restauro... Associo-a a tempos em que as Termas
acolheriam os novos ricos da época. Posso estar enganado, mas isso pouco me
preocupa. O que me ocupa o espírito é um certo cavalheiro, novo cidadão da
periferia, perseguido há mais de 70 anos pela absurda ideia de que deveria ter
sido o primogénito e que insiste em comportar-se como morgado, indiferente à
sorte do seu sangue...
Nem sequer posso atribuir
o comportamento à inevitável decrepitude... Há ruínas, ao contrário da
'villa,' que não têm recuperação possível.
1.8.21
Na tradução portuguesa
(Gradiva), Sangue do Meu Sangue, de Michael Cunningham, um escritor
americano da minha geração.
Devorei as 423 páginas em
6 dias! Como leitor, comportei-me um pouco como as personagens... li com o
fervor de quem está pronto a subir a escada do impulso sem medir os efeitos...
E neste romance, os
desafios e as transgressões espreitam na superfície de cada página...
No entanto, o resultado
não é muito diferente do habitual: o sofrimento acaba por devorar o prazer da
carne, embora se entenda a necessidade de adiar a morte que, todavia, está
sempre à espreita.
Como leitor, acabei
frustrado. Afinal, tanta rebeldia não escancarou as portas do paraíso de que,
aliás, raramente se fala, talvez porque o autor pense que, eliminados os
preconceitos, tudo será AZUL.
30.7.21
O melhor é que não
sejamos nós a dar a resposta. Deixemos a Natureza seguir o seu caminho...
A verdade é que sempre
que o homem se instala, a floresta decresce ou, pior, é substituída por
espécies vorazes....
28.7.21
O cimo promete...
como se o caminho
fosse só escada
o degrau inocente
de cada hora...
no vale
os pés demoram
a acertar o passo...
talvez amanhã
26.7.21
"É ainda cedo para a
História o apreciar com a devida distância", mas a "importância
capital" no 25 de Abril é "inquestionável", considerou Marcelo
Rebelo de Sousa sobre a ação política de Otelo Saraiva de Carvalho.
Desta vez, o Governo não
decreta luta nacional e o Presidente concorda! O rabo de fora tinha ficado à
vista no comentário de Marcelo...
Tanta parcimónia é
preocupante!
Como Nietzsche escreveu (
Assim falava Zaratustra): «O que me faz pena no passado, é vê-lo entregue
sem defesa, ao espírito e à loucura de todas as gerações a vir, que
interpretarão tudo o que foi como uma ponte levando até elas. (...) Mas conheço
outro perigo e outra razão de pena: a memória do homem comum ascende até ao seu
avô, mas para além desse avô o tempo acaba.»
25.7.21
Otelo
Saraiva de Carvalho morreu
O tempo não se resignou à
glória de Abril e, também, se alheou da vilania das FP25.
As vítimas do Salazarismo
celebraram-no. As vítimas das FP25 nunca chegaram a saber por que motivo
viram as vidas ceifadas sob a sua inspiração…
Nunca me aproximei de
Otelo, embora o pudesse ter feito. O convívio da liberdade com a morte causa-me
sempre calafrios.
Recolho-me perante as
vítimas, todas.
24.7.21
As raízes podem resistir à espera de que o homem se
esqueça delas. Se lhes derem tempo voltarão a germinar de forma
múltipla, ocultando a origem...
Pelo contrário, o ser humano insiste em forjar a
origem, exaltando-lhe a singularidade e, sobretudo, a
excecionalidade... Por atalhos, o homem pode ganhar algum tempo... No
entanto, não serão as raízes nem a erlebnis a determinar-lhe o
futuro...
20.7.21
« Le goût ne concerne donc pas seulement le beau dans la nature et dans
l'art, dont il apprécierait la qualité sous l'angle de la décoration, il
inclut au contraire tout le domaine des mœurs et des convenances. » Hans-Georg
Gadamer, Vérité et Méthode, Seuil, page 55
Independentemente do que
se possa pensar sobre a 'formação' do gosto, o resultado é deprimente,
sobretudo no que respeita aos costumes e ao deslaçamento social.
O bilionário Jeff Bezos
voou para o espaço no primeiro voo tripulado de sua empresa, a Blue Origin.
Gastou, em 10 minutos e
12 segundos, o suficiente para evitar que milhares de crianças morressem de
fome ou para assegurar o fornecimento de milhões de vacinas contra a Covid19.
Por seu turno, um pouco
por toda a parte, jovens e menos jovens insistem em comportamentos egoístas e
suicidas que põem em causa o esforço de grande parte da população mundial para
combater a pandemia.
Finalmente, no reino do
futebol, os negócios de bastidores fervilham... Quanto aos governantes, esses
aceleram e derrapam a cada minuto que passa...
18.7.21
Vai um indivíduo visitar
a Tapada das Necessidades, cuja ideia inicial se deve a D. João V, que, em
1742, mandou construir uma ermida maior, um convento e um palácio para sua
residência, e dá de caras com um arranjo urbanístico, em que se destaca um
edifício - no caso, um hospital - que esconde o Tejo e os
pilares da ponte... O projeto é da autoria do arquiteto Frederico Valsassina.
A sua implementação terá
sido aprovada por outro arquiteto, Manuel Salgado. Não consigo acreditar que
espíritos tão esclarecidos sejam tão míopes! De qualquer modo, este 'hospital
do futuro' aposta forte na valência da oftalmologia...
E o que dizer da
decoração do telhado, coberto de garrafas partidas? O que vale é que no lago a
vida sorria...
15.7.21
A Natureza enfeitiça. É
assim que aprendemos a vê-la desde que os olhos românticos da Terra se
evadiram... Ensinaram-nos a descobri-la nos livros, nos quadros, nas
esculturas, nos palcos, nas crianças, nas mulheres e, e mais recentemente, até
nos homens...
Enfeitiçados, olvidámos a
Natureza que nos desarma sempre que nos esquecemos da sua verdadeira
essência.
Quisemos tê-la como
modelo: celebrámos o grotesco e o sublime, o angélico e o demoníaco...
E agora redescobrimos em
nós a bestialidade que durante tanto tempo sublimámos. A bestialidade humana é
parte da Natureza... e nem a educação consegue superar a inevitabilidade do
fracasso que se aproxima... a não ser que os olhos românticos se extingam.
13.7.21
Zaratustra terá
rido ao nascer
O que é que Zaratustra
teria feito se ao sair da Ilha Afortunada por aqui se visse encaminhado?
Será que se teria
dirigido aos homens ou teria preferido o silêncio, limitando-se a ouvir o
vento?
Desencantado, mergulharia
no condicional, sabendo que o seu esforço de doutrinação fora vã pregação.
Nas encostas, as manadas
invisíveis continuam a sua ascensão até que o trovão as faça regressar ao vale
da humilhação...
O que é que Zaratustra
poderia ter feito de diferente?
De acordo com a
tradição: Ao nascer, Zaratustra não chorou; pelo contrário, riu
sonoramente. As parteiras, vendo aquilo, admiraram-se, pois nunca tinham visto
um
bebé rir ao nascer.
11.7.21
No meio de tantos
sublinhados juvenis, a releitura menos apaixonada destes últimos dias chama-me,
no entanto, a atenção para seguinte certeza de Freud:
« Je suis obligé d'avouer que je fais partie de cette catégorie d'hommes
indignes devant lesquels les esprits suspendent leur activité et auquel le
suprasensible échappe, de sorte que je ne me suis jamais trouvé capable
d'éprouver quoi que soit qui pût faire naître em moi la croyance aux miracles.
»
Sigmund Freud, Psychopathologie de la Vie Quotidienne, Petite
Bibliothèque Payot, page 279
Sofro desta indignidade
desde que me conheço, apesar de, por uns tempos, ter sido levado a acreditar
que o homem poderia superar essa falha, sem nunca ter pensado que a pobreza de
espírito se pudesse transformar em tamanha fonte de riqueza... Infelizmente, as
notícias do quotidiano, quase todas escoradas no esquecimento, no equívoco e no
compadrio, só me dão conta do milagre da transformação da ocasião em riqueza...
9.7.21
Aqui existiu um
matadouro. A toponímia regista o lugar onde eram abatidos os animais da região
da Ericeira... Ainda se fosse uma lota!
Por mim, melhor seria
que a praia fosse rebatizada, embora a areia tenha sido sorvida pelas
marés...
Por estes tempos, a praia
parece ser dos surfistas que ainda não chegaram à Ribeira d'Ilhas.
8.7.21
Nem Tejo nem ponte! Só a
ramagem do pinheiro desperta a atenção. Talvez porque a maré cheia não fosse
fluvial e a ponte empurrasse para a outra margem...
Na sombra do pinheiro, o
que conta é a aragem e o instante que a memória capta, sem nada querer com a
fantasia de quem se imagina grande, quando é interrompido pelo apito estridente
do comboio...
Claro, há sempre quem
sonhe com a apetitosa rola que, incauta, vive na ramagem.
E depois há estas
palavras que, de tão enredadas, vão sendo arrastadas ao sabor das marés.... ou
caem como agulhas do esquecimento.
5.7.21
Da China veio o
diospireiro, mas não só... Consta que foram os jesuítas os hospedeiros, não
fossem eles amantes de todo o tipo de acidez...
Para registo, por causa
da China ou talvez não, lá fui tomar a 2ª dose da Astrazeneca, em Loures. Tal
como prometido pelo Sr. Vice-Almirante, o processo estava bem organizado e
exigia pacientes no verdadeiro sentido da palavra: cheguei às 16h15 e
saí, vacinado, às 19h30.
Quanto a chinesices,
parece-me que o Sr. Vice-Almirante é bem capaz de, antes de outros mergulhos,
ter frequentado um austero colégio jesuíta.
4.7.21
As ameixas da Quinta
Pedagógica (Olivais) não estão à mão de qualquer um! Lembram-me as palavras do
Sr. Costa, carnudas, iluminadas, mas efémeras...
O Sr. Costa, em seis
meses, aprendeu a conhecer os europeus e, sobretudo, a compreender as suas
motivações. O problema da Europa é a falta de visão euro-atlântica, o seu
ensimesmamento, diz o Sr. Costa.
O Sr. Costa espera agora
que, passadas as eleições na França e na Alemanha, o Sr. Macron se revele seu
herdeiro..., esquecendo que a Madame Marine Le Pen se prepara para desmanchar o
templo europeu, com a ajuda de uns tantos precursores no ativo.
2.7.21
« Ce qu'on a oublié de faire une fois, on l'oubliera encore bien
d'autres fois. » proverbe populaire
De vez em quando,
regresso ao tema do esquecimento. Porquê, não sei ao certo. No entanto,
pressinto que a razão é séria...
Tudo o que fui esquecendo
- e é muito - estará relacionado com a imperfeição do meu desempenho. Ninguém
gosta de relembrar os projetos que foram ficando pelo caminho. Ninguém gosta de
relembrar a voragem dos dias que foi minando a consistência dos atos...
E, sobretudo, o
esquecimento é uma forma de resistência em todos aqueles contextos em que a
Vida não nos pediu licença para impor as suas regras. E foram muitos!
Viver é esquecer. A
alternativa seria soçobrar.
Por isso sempre que me
convidam a recuar no tempo, sinto um calafrio. Uma ameaça de morte a que
diariamente procuro resistir.
29.6.21
Só quando a consciência
se apagar, poderei esquecer estas velhas chaminés.
Por isso sempre que
regresso a Sintra, observo-as... e hoje, por estranho que pareça, surgiram-me
mais nítidas, mas menos volumosas, como se os estômagos dos nossos 'reis'
tivessem alterado a dieta. Ilusão, certamente, apesar do Jo Berardo ter sido
detido para inquirição do que todos sabemos.
O problema é que neste
país, gostamos de vilões que persistem em guardar segredo sobre o nome dos
comparsas e, sobretudo, em insultar-nos.
A mim nunca ninguém
emprestou nada, fiando-se, apenas, na minha palavra.
Mea culpa!
28.6.21
Já podemos viver um pouco
mais sossegados: a Seleção foi de férias! Com um pouco de sorte, os políticos
entram em pousio... e nós fazemos votos para que não chova...
Quanto aos comentadores
televisivos só os vê e ouve quem não tem mais nada para fazer. Se os astros se
conjugarem até o Covid 19 deixará de bater à nossa porta.
Por mim, vou fazer um
esforço por não vos incomodar.
27.6.21
Outras eras, defuntas!
Os símbolos, por ora, são
outros, mais prosaicos.
E os comportamentos?
Esses são de afirmação do que há de mais boçal e incontinente...
Daqui a umas horas, a
euforia ou o desalento tomarão conta dos próximos dias...
Agora é só ansiedade bem
regada e língua solta...
Na porta dos fundos, os
desmandos continuam, impunes.
25.6.21
Se não estou em erro,
este será o 'post' número 4000!
Sinal equívoco de
presença, marca de persistència, sim, mas nem sempre cristalina... até porque a
caruma pouco tempo se aguenta na árvore que a sustenta...
Calcada a caruma, sente,
por vezes, vontade de tudo incendiar, mas a ignição só traria mais miséria...
E para que nem tudo seja
sombrio, deixo-vos com a ideia (e a imagem) de que provavelmente o Bicho é mais
benevolente com os ricos do que com os pobres...
23.6.21
Je vous prie seulement de me faire part loyalement
et sans critique de tout ce que vous passera par la tête, lorsque vous
dirigerez votre attention, sans aucune intention définie.... S.
Freud, Psychopathologie de la Vie Quotidienne
Mesmo que não nos
apercebamos da razão, há sempre uma intenção definida. Se me dispusesse a
agir segundo o preceito freudiano, o resultado, por mais poético que pudesse
parecer, seria ou a ininteligibilidade discursiva ou um questionamento
desenfreado das condutas que tanto nos afetam a mente.
O sentido crítico
impõe-nos a censura das ações verbais e não verbais, obrigando-nos a esquecer de
modo que não quebremos todas as pontes...
Por ora meio mundo
esquece, à espera de um momento de elevação, mesmo que seja o reflexo da nossa
miséria.
Lá atrás, mais do que os
nomes trocados, o que mais inquieta são os rostos esfumados, desaparecidos.
20.6.21
«Sem a morte, temos um
conto sem final. E sem sentido.», pág.
646. Assim termina JALAN JALAN, de Afonso Cruz
No entanto, nesta obra
muito se escreve sobre situações de morte. Dir-se-ia que a morte é um tópico
dominante que nutre a vontade de viver, mesmo quando o desespero ocupa toda a
cena.
Uma obra inclassificável
que, muitas vezes, acolhe pequenos contos criados ou apenas relatados, em que a
regra definida pelo autor nem sempre está presente, até porque a morte pode
abrir o conto ou surgir apenas como peripécia para ilustrar o protagonista ou
ajudar a expor uma ideia - a defesa da vida.
E, afinal, com os
3.862.271 de mortes por Covid-19 à data de ontem, quantos contos
poderíamos escrever? Só que não trariam qualquer sentido... a não ser avolumar
as ameaças ambientais...
19.6.21
Esta manhã, submeti-me a
uma colonoscopia total, para lá da diverticulose cólica, saí de lá a espirrar,
com uma expetoração interminável e, sobretudo, com uma forte e persistente dor
de garganta.
Espero que não se tenham
enganado na porta de entrada! De qualquer modo, vou evitar o Alemanha -
Portugal.
Para sofrimento já basta!
16.6.21
Não sei como...
mas o melhor talvez seja
desligar
sentir apenas o que nos
pode sossegar
Existir como se fosse
possível
ignorar e ao mesmo tempo
ser...
e, claro, continuar a
fingir
(Mesmo que o diabo já nos
tenha abandonado...)
15.6.21
Por vezes, o equipamento
urbano surpreende-nos: sentados, podemos carregar o telemóvel, o
laptop...
Esta manhã, no entanto,
observei algo muito distinto. O sem-abrigo aproximou-se do banco, abriu a
sacola e dela retirou uma cafeteira elétrica, um frasco de Nescafé e uma
chávena... Sem água, pegou na cafeteira e foi a um bebedouro não muito
distante, tendo regressado com o precioso liquido que, de imediato, fez
aquecer... O que se seguiu todos podem imaginar... Mas faltava alguma
coisa, provavelmente a carcaça, mesmo sem manteiga...
Os minutos seguintes, de
chávena na mão, ocupou-os a vistoriar os caixotes de lixo sem grande sucesso.
Perante o previsível
malogro matinal, alguém colocou sobre o banco um pão de deus e umas moedas...
Quando se apercebeu da dávida, guardou recatadamente as moedas no bolso e o pão
na sacola, provavelmente já a pensar no almoço...
Entretanto, o 728 chegou
e afastou-me daquele lugar, pensando eu que, afinal, os equipamentos urbanos
podem ser mais do que sinais de ostentação...
Dizem-me que já começou o
Hungria-Portugal! A verdade é que para mim começou bem mais cedo...
14.6.21
«E ainda pode escrever
sobre o «infraordinário», aquilo que não é notícia.» Afonso
Cruz, Jalan Jalan, pág.479
(Quem é que pode
escrever? Todos. Não é necessário ser escritor, poeta, jornalista,
historiador...)
Por exemplo, de momento,
gostaria de escrever sobre Jalan Jalan, mas não é fácil. Não se
trata de uma odisseia, embora refira múltiplas viagens, percursos. Não se trata
de um romance, embora conte múltiplos episódios parcialmente narrativos,
múltiplas experiências em lugares, por vezes, próximos... sobretudo distantes.
Experiências enriquecedoras, porque fruto da atenção dada ao outro - geralmente
com um ponto de vista inesperado e menos comprometido. Não se trata de um livro
de autoajuda, embora o leitor se sinta frequentemente agradecido pelo
incentivo, pela interpelação do lugar-comum...
Em síntese, este livro,
inclassificável, resulta do cruzamento de leituras, de viagens, de
experiências... e, em particular, de uma navegação orientada para a construção
de uma humanidade melhor, com o precioso contributo do passado através da
revisitação das ideias de todos os continentes...
(Caruma é o típico exemplo de escrita
infraordinária. )
12.6.21
Celebrar a morte,
aborrece-me. A simples ideia de evocar acontecimentos de ontem perturba-me,
como se o dia de hoje estivesse suspenso... Enfim, celebrar durante
5 anos assusta-me ainda mais, pois parece que, nos próximos anos, nada haverá a
fazer, exceto cumprir a liturgia que os apóstolos já começaram a
desenhar...
Compreendo que haja uns
tantos agradecidos e agraciados, mas não creio que este seja o melhor caminho.
O que faz falta é mudar a agulha: substituir os frutos podres, podar a árvore,
libertá-la do míldio. E depois, quanto aos que não têm memória não vale a pena
vaciná-los. O melhor é deixá-los construir as suas próprias memórias... e
esperar que daqui uns anos não tenham a triste ideia de se quererem perpetuar
nas gerações seguintes.
Finalmente, as
celebrações são muitos caras... bem sei que vem aí bazuca, mas convém não
esquecer que, por definição, a bazuca é uma arma cujo raio de destruição é
elevado.
10.6.21
Katja Ebstein, 1970
O postal está, há
meses, colocado à minha frente. Só que eu não o vejo ou, melhor, não o
interrogo...
Até que, subitamente, os
significantes começam a perturbar-me: - Como é que tu podes viver rodeado de
signos que não compreendes? Deixa lá as pessoas e dá-nos um pouco mais de
atenção...
Em 1970, o mundo exterior
era mesmo exterior, o festival da eurovisão pertencia a outro dimensão. À
época, os milagres ainda eram esculpidos em retábulos a ouro ou em palavras de
redenção.
(Hoje, ouvi o Jerónimo de
Sousa afirmar que está preocupado com a entrega de dados de ativistas russos,
residentes em Lisboa, à Mãe Rússia...)
Wunder gibt es
immer wieder,
Heute oder morgen können
sie gescheh'n.
Wunder gibt es immer
wieder,
Wenn sie dir begegnen,
musst du sie auch seh'n.
Milagres acontecem
repetidamente,
Podem acontecer hoje ou
amanhã.
Milagres acontecem
repetidamente,
Quando eles chegarem até
você, você precisa vê-los.
8.6.21
Quando o singular nos
engana...
Ando a ler, mesmo se
sentado, o livro de Afonso Cruz, Jalan Jalan, Uma leitura
do Mundo...
Leio sentado, porque o
livro é bem pesado e sentencioso. Para lá da suposta leitura, observo múltiplas
leituras resultantes da estratégica mudança de ponto de vista, de modo a fugir
à opinião e à crença...
Andar através dos livros,
dos montes, dos territórios, das religiões, das filosofias, das políticas, das
literaturas, das línguas é caminho de uma entropia crescente... volumosa,
fragmentada, em que nos vamos dissolvendo de forma, por vezes, divertida porque
inesperada.
5.6.21
Legítima? Ilegítima?
Cultural? Não sei.
A apropriação surge a
cada passo, com ou sem citação... como se as formas de intertextualidade fossem
todas legítimas ou tivessem justificação cultural
Já não é tanto a ideia
furtada, mas o manuseamento de múltiplos e exóticos significantes de modo a
obter um efeito legitimador, gerador de saberes mal assimilados capazes de
maravilhar as almas insignificantes a quem têm de prestar contas.
Quanto a mim, apenas
pressinto que vou sendo assimilado, sem rebuço. 'Sem rebuço' seria um bom
título para uma obra cujo significado não se descortina.
3.6.21
Seres minúsculos só abrem
as asas no momento de levantar voo, e eu caço-os antes que me infestem a casa.
Chegaram vindos não sei donde e multiplicam-se a uma velocidade estonteante...
No consultório, a
conversa sábia esbarra nas janelas que dão para o Parque Eduardo VII. Os carros
continuam a subir e a descer, alheios ao que ocorre na cabeça dos condutores e
dos passageiros.
Vejo nos escaparates que
vão publicando diários esclarecedores sobre a vida nacional
nas últimas décadas. Contudo, nunca explicam nada sobre os últimos dias.
Por exemplo, os diários são
omissos quanto às razões do bombardeamento nocturno de Moscavide, em sonho já
se vê! Seres minúsculos elevavam-se sobre a minha cabeça... e os mísseis iam
caindo como se Israel estivesse a atacar a Faixa de Gaza.
30.5.21
De tempos a tempos,
regresso ao espelho do móvel do quarto fronteiro da primeira casa. Via-se da
cama, sob o olhar do Sagrado Coração de Jesus - o espelho refletia um rapazola
já crescido, que preferia não se fantasiar, por causa dos fantasmas noturnos que
cavalgavam no sótão. Imagine-se o sótão!
De qualquer modo, aquele
não era o primeiro espelho... antes, nas camaratas, havia uma série de espelhos
mais ou menos particulares, mas só de meio corpo - o rosto distinguia-se, por
uma ou outra careta, tímida..., bexigoso. Relembro, agora, que na 'camioneta da
carreira', as janelas, em certos momentos, também distorciam, ou era o astigmatismo
que traía o olhar?
No entanto, o freudiano
dos primeiros meses não consegue relembrar o espelho inicial, anterior à
locomoção e mesmo â verbalização. Escondeu as imagens iniciais dum outro
quarto, do fundo, voltado à Serra, inacessível, felizmente!
Sobram, assim, as toalhas
de água dos ribeiros e dos poços, pejados de líquenes e, por vezes, de demónios
atirados do alto da casa das cobras por algum apóstolo do Sagrado Coração de
Jesus... Aí, sim, havia alguma surpresa e algum pavor... a invisibilidade não
passava de uma quimera.
29.5.21
A nova economia: dinheiro
sujo e bem bebido... com ou sem bolha!
(de Albufeira ao Porto,
passando por Lisboa)
28.5.21
Vivem na confusão dos
dias e das noites, sob a exigência de pílulas que criem a escuridão absoluta.
Paradoxalmente, as pílulas despertam os sentidos e desregulam as palavras,
tornando-as significantes inócuos…
Por enquanto, as palavras
vão fazendo ricochete nos dias. Nada resolvem, apenas agridem.
A esta hora da noite, o
Sol brilha intensamente, mas tudo é como se se tivesse retirado
definitivamente… o que traz ao palco cenas de mutismo e de zelos inesperados…
resignados. Talvez não|!
(A avó que sofre o
silêncio do avô. A mulher que, finalmente, se retira da vida do marido,
negando-se a entrar no cemitério… O velho que se agarra às tábuas do chão do
quarto, ou a velha que, de tanto manipular, acaba nas mãos do silêncio
acusatório dos filhos. Ou ainda aquela tia que proíbe a criada de informar os
familiares da respetiva morte… a não ser que se tratasse de um caso de polícia
que ninguém mandou investigar.)
Por agora, o melhor é
desligar os telemóveis!
26.5.21
Parece obsessão! A
flor é sempre a mesma ou muda com os dias? Pouco importa a resposta, a verdade
é que esta flor desperta a minha atenção: procuro nela a mudança, a beleza do
momento. E faço-o para combater a resistência destrutiva que cresce um pouco
por todo o lado…
Entretanto, vou estudando
alemão, leio o ininteligível Lacan, cada vez mais convencido de que, talvez,
ainda vá a tempo de reler Freud …
Sim, Freud, devorei-o
imaturo…na hora vertiginosa dos anos 70, como se estivesse a atravessar o Mar
Vermelho, sob o olhar do Faraó, não sei se egípcio se austríaco.
23.5.21
« C’est qu'à une vérité nouvelle, on ne peut se contenter
de faire sa place, car c'est de prendre notre place en elle qu'il s'agit. Elle
exige qu'on se dérange. On ne saurait y parvenir à s'y habituer seulement. On
s'habitue au réel. La vérité, on la refoule. » Jacques Lacan, Écrits I
Se a verdade nos
questiona, facilmente a ignoramos ou, na melhor das hipóteses, habituamo-nos. É
mais cómodo!
Se a realidade nos
perturba, fingimos que vivemos numa outra realidade, distinta da precariedade
desta vida.
Claro que podemos
acomodarmo-nos, fingindo que a culpa é da depressão - palavra mágica que
enriquece os profissionais da matéria (ou do espírito?) e que nos torna
irresponsáveis, em definitivo.
20.5.21
Pensei ter visto um melro
na amoreira, mas deve ter sido ilusão ou, então, voou sem que me tenha
apercebido… talvez as amoras me tenham distraído…
… o que pensamos ou o que
dizemos, que raramente é o mesmo, pouco nos diz sobre o lugar onde estamos,
como se a circunstância fosse importante…
Habituámo-nos a tudo
justificar, pondo-nos de parte, e atribuindo o inferno aos outros, apesar do
que Freud nos quis explicar - fora das palavras sãs ou nevróticas nada corre.
Triste dicotomia!
Donde é que surgiu esta
amoreira de maio? Donde é que surgiu esta ideia de que somos porque pensamos? …
desejamos?
Não viemos da Ásia nem
criamos bichos da seda, não atravessámos o deserto para aqui chegar, nem sequer
nos deitamos ao mar para atravessar… ou morrer, sem palavras.
19.5.21
pois... um burgo em vez
de castelo... só que, em alemão, 'die Burg' designa castelo, o que põe em causa
a ideia de que a cintura da muralha tenha acolhido os comerciantes…
provavelmente, os burgueses apoderaram-se do edificado, multiplicaram-se e, sem
mais, foram alargando o território à custa dos pobres vilões que, entretanto,
foram sendo afastados dos castelões…
(ainda ontem os vi
celebrar a chegada do soba maior.)
… e quando a deslocação
era feita a cavalo ou a pé, podia-se partir duque e chegar burguês ou
simplesmente soldado-pedreiro, construtor de pontes e de infantes - ambos
necessários, sem qualquer consideração por leiras e corpos… tudo em nome de uma
causa maior, vistos, hoje, como males maiores pelos zelotes de serviço.
18.5.21
Em flor… o que se propaga
é a dor…
mais a fingida do que a
real.
Enquanto soterramos a dor
que ignoramos,
sorrimos com as flores de
maio.
Outros percorrem avenidas
imperiais
como se o tempo tivesse
apagado a dor
da herança…
Senhores em flor e
súbditos em dor,
ontem e hoje.
17.5.21
A capa d'A Eneida jaz no
jardim sacerdotal… uma versão para adolescentes distantes do Latim, em tempos
de colheita pouco seletiva. O que interessava era aumentar o rebanho e
colocá-lo ao serviço da nação eleita.
Na Faixa de Gaza, jazem
as vítimas da arrogância de Benjamim Netanyahu, que só sobrevive agarrando-se
ao leme de uma nação que, desde sempre, se imaginou como eleita…
Infelizmente, os rebanhos
continuam a seguir cegamente os seus pastores em nome de falsos ídolos.
14.5.21
Não sei se as
palavras podem rodar para direita ou para esquerda… As imagens podemos
distorcê-las e até eliminá-las…
O que sei é que chegamos
sem elas e que, por um dom inexplicável, com elas vamos construindo a nossa
realidade. (Os poetas são os que
melhor apuram esse dom !)
"C'est dans le don de la parole que réside toute la
réalité de ses effets ! Car c'est par la voie de ce don que toute réalité est
venue à l'homme et par son acte continué qu'il la maintient." Jacques Lacan, Écrits I
O que pressinto é que se
as começamos a distorcer, então o fim está próximo. Cada ser deixa de o ser ao
perder as palavras. (Os poetas continuam a perder-se nas palavras e ainda bem!
11.5.21
« Au-delà du mur, il n'y a rien qui ne soit pour nous
ténèbres extérieures. » Jacques
Lacan, Écrits I
Já me conformara com a
ideia, só que agora as trevas mudaram-se para o lado cá. A linguagem
depreciou-se de tal modo que a palavra secou.
E como tal, fiquemos por
aqui antes que o muro desabe e tudo seja treva.
(...) No entanto, a
flores estão aí, indiferentes aos nossos dramas...
8.5.21
« Ce qui je recherche dans la parole, c'est la réponse de
l'autre. » Jacques
Lacan, Écrits I
Escrever não para me
dizer, mas para entender, ouvir o outro… como se fosse ave. Esta só canta
porque procura uma resposta, caso contrário, entristece.
Infelizmente, o outro já
não pode responder ou, em alternativa, deixou de estar atento, enredado nos
traumas que vai inventando para não se comprometer.
O outro, por decisão ou
por fatalidade, abdicou de ouvir, deixando que o eu se dilua em partículas
dissonantes e vagabundas, matando, assim, a razão da escrita.
7.5.21
O que não se chega a dizer…
Confessá-lo em troca de perdão é vulgarizar a ação
maldita, o sonho interdito, mesmo que o segredo tenha sido garantido…
Nos últimos tempos, dizer tudo, confessar tudo
tornou-se o pasto de que se alimenta a turba. Mas quando se observa de perto, o
pasto não tem seiva… é, apenas, uma pasta ressequida para alimentar omnívoros
mesquinhos.
(...)
E depois há os que tudo confessam sem nada chegar a
dizer... E não se importam de nos fazer descer aos infernos, lugar onde o
perdão é desnecessário.
5.5.21
« C’est le monde des mots qui crée le monde des choses,
d'abord confondues dans le hic et nunc du tout en devenir... » Jacques Lacan, Écrits I
Celebramos a língua, a
nossa… orgulhosos dos nossos feitos e, sobretudo, convencidos de que
continuamos a ter uma missão a realizar e de que para tal há uns tantos povos
dispostos a sacrificar as suas coisas…. sim, porque, ao abdicarem
dos seus signos, deixam que o futuro lhes fuja, que as suas coisas não
cheguem a dignificá-los.
Exagero, talvez. mas
quantos povos se foram perdendo pelo imperial caminho? O sonho deste dia parece
ser o da sua eliminação definitiva…, ao contrário do que se vai proclamando.
2.5.21
Em frente à casa, um
canteiro irregular acolhia as tuas flores, por ti plantadas e regadas de acordo
com as regras do Tempo. De vez em quando, colhias um lírio, um jarro, uma rosa,
que colocavas num rústico jarrão na mesa da sala..
As sardinheiras nunca
abandonavam o canteiro! Eram as primas-donas do lugar! Ninguém comprava flores
para te oferecer. Tu é que as oferecias ao senhor Jesus, à Virgem e a algum
santo mais extremoso.
Hoje, no teu dia, não vou
comprar flores para te oferecer, apenas relembro o canteiro irregular, por
vezes, retouçado por caprichosas cabras que por ali passavam.
E não sei se o canteiro
ainda perdura!
1.5.21
Muda o mês, o inferno de abril continua…
só o masoquismo explica porquê.
Acrescentar o quê, se a vida é a mesma, chova ou faça
sol…
Hoje foi dia de vacina, primeira dose da
AstraZeneca.
O rebanho submeteu-se sem alarido.
só o masoquismo explica porquê.
As flores, essas, seguem o seu destino…
um destes dias murcham e ninguém dará pela
mudança.
Não creio que as rosas sejam masoquistas.
29.4.21
O canteiro, só, algo dirá
do cuidador, sem curar do jardineiro. Lembra a criança que atravessou o espelho
sem perceber a ilusão em que viverá desde o dia primordial, ao imaginar uma
forma idealizada que, mais cedo mais tarde, se estilhaçará. Dia primordial a
que se agarra para afirmar a sua presença - o EU. Não fossem, presentemente, as
redes sociais, o canteiro, apesar de descuidado, teria mais significado, mesmo
que o jardineiro tenha sido substituído por cuidadores avençados.
Esclarecimento:
Os canteiros não falam
nem as crianças atravessam espelhos, felizmente!
O dia primordial não
existe, porque varia conforme a intenção de quem recorda. Por seu turno, a
presença é breve, mesmo que nos esforcemos por infernizá-la… Assim dito, parece
que mais não somos do que espinhos deixados crescer por um jardineiro mal-humorado.
25.4.21
Tantos poetas
tantas rosas, meu Senhor!
E eles?... cravados na lapela dos espertos
deste triste país
descem as avenidas, discursam em redondo a fé e o desespero
da bazuca que lhes há de pagar os cachuchos dos dias dourados…
A madrugada daquele dia foi única
fúnebre, o cortejo de hoje
24.4.21
Do Jacques Lacan não me
ficou nada, a não ser os livros na estante e uma vaga ideia de que o Osório
Mateus o cultivava. Ou seria a Manuela Saraiva?
Ler Lacan por estes dias,
apenas para verificar se já amadureci ou se nunca chegarei a compreendê-lo, por
insuficiência minha, certamente.
Começo, e o significante
é o único mestre... e eu o que serei? De repente, verifico que a persiana está
corrida até baixo, o que me impede de ver o Tejo, se a maré sobe ou desce…
Ainda não é desta que avanço nos Écrits, o melhor é avançar para o almoço, já
que tive o trabalho de o confecionar…
E depois? Voltei a ler a Lettre Volée, de
Edgar Allan Poe, traduzida, em 1856, por Charles Baudelaire.
20.4.21
Assim andamos todos,
mesmo que não o vejamos… No caso, a ave procura a presa, e nós seguimos
prisioneiros de convicções mal fundamentadas.
Por isso, deitamos fora
as preocupações e mergulhamos nas rotinas anestesiantes.
Entretanto, anunciam-se
eleições autárquicas e logo as aves justiceiras invadem os paços à procura de
provas de negócios sujos, como se estes alguma vez tivessem sido limpos…
18.4.21
O que seria da infantaria
sem infantes, mesmo se dizimados no campo de batalha?
O que seria da pátria sem
patriotas, mesmo se falsos?
O que seria de nós se não
partilhássemos o que de melhor e pior há em nós?
Bem sei que estas
interrogações parecem capciosas, mas não. São a expressão de uma inquietação
antiga, avessa ao 'sacrifício' da vida humana, ao 'aproveitamento' da
necessidade de proteção…
Afinal, o que será de
cada um se tudo partilhar?
(Outrora, partilhavam-se
propriedades, bens, ideias, valores, embora o saque fosse mais comum. E hoje?)
15.4.21
O marquês anda inchado, anda eufórico, anda
enraivecido… Se o marquês se calasse e se se guardasse para o julgamento, eu
compreendia.
O problema é que ele gosta demasiado de bombons e não
é capaz de se privar do que lhe agrada e de quem o lisonjeia.
No entanto, por estes dias, o que mais o enraivece é a
certeza de que o poder lhe fugiu definitivamente.
Ah, o poder!
12.4.21
Dão-lhe lenha para nos
queimar, e ele o que faz? Deita-lhe um fósforo. E quem é que lhe dá lenha? O
legislador.
E quem é o legislador? Os
políticos, não, que não têm saber para tal…
A resposta não será
difícil de achar.
Basta pensar em quem é
que mais lucra com a roda da justiça..
Em síntese, o juiz mais
não é que o senhor do fole do momento, porque a roda não para, mesmo que
estejamos todos a arder.
Nem todos! Há uns tantos
que não param de se encher...
9.4.21
O marquês dá pulos de
contentamento, mesmo sem ter chegado a doutor.
Na Barataria, a corja lá
sabe o que faz, e nós parece que ainda não percebemos que continuamos a
ser aldrabados.
Um deste dias, o marquês
é eleito presidente desta triste república com o voto destes trouxas.
8.4.21
Num estacionamento nasceu
uma esplanada, constituída por vários alvéolos de mesas e cadeiras. Os
portelenses não perdem tempo e ocupam a maioria dos lugares… E o que é que vão
pedir? O cafezinho, o pastelinho e até um cariocazinho morno em chávena fria…
Os serviçais sorriem e
correm, correm para agradar à exigente clientela. E de súbito, avisto uma
empregada que desce a escada ( do 1º andar para o rés-de-chão) segurando uma
bandeja com uma garrafinha, mais três copos bem cheios de água… Admirei-lhe o
equilíbrio e fiquei a pensar na humanidade destes dias.
5.4.21
Durante 10 minutos,
estive sentado numa esplanada. Uma mesa esperava por mim, mas Cristo não desceu
à Terra.
As restantes mesas
estavam ocupadas. Gente nova e gente mais idosa, para quem a ressurreição ganha
novo sentido, mesmo que nunca tivessem descido à cova…
Contentamo-nos com o
momento…
3.4.21
(Tempos houve em que
Páscoa significava rancho melhorado.)
Nesta Páscoa, para
muitos, o rancho diminuiu, a distância aumentou, a morte chegou.
Tempos houve em que na
Páscoa se celebrava a ressurreição, só que, em 2021, o próprio Cristo se deixou
amordaçar…
Amordaçados, saímos à
rua, repetimos os gestos de outras páscoas, mas é quase tudo encenação, exceto
a pobreza por muitos escondida.
1.4.21
Faz hoje um ano que
deixei a atividade profissional… poderia ter seguido em frente, mas, de facto,
continuo a andar às voltas, preso a uma sorte inesperada… Sinto que, desta vez,
não estou só, mas é como se estivesse…
Também as serralhas
florescem todos os anos com um objetivo há muito regulado. No meu caso, porém,
elas atravessam-se na minha mente para me recordar aquele dia em que ficaram
escondidas debaixo de uma pedra, sem ter cumprido o seu destino: servir de repasto
a uma ninhada de coelhos…
Claro que o gesto,
absurdo, não ficou sem castigo. Afinal, o destino dos coelhos dependia daquelas
serralhas. Não creio que seja necessário explicar qual seria a sorte dos
coelhos… e qual a minha.
Apesar das aparências, a diferença é mínima. E no fim,
tudo regressa ao ponto anterior à partida. Ou será de outro modo?
30.3.21
Como não me apetece
escrever sobre o estado das coisas públicas e privadas, nem sobre a leitura em
curso - Os últimos dias da Humanidade, de Karl Kraus - convido-vos
a olhar o Sol…
27.3.21
Do marquês ninguém fala…
talvez à espera das próximas eleições.
Não gosto de o ver tão
silencioso. Parece que perdeu a garra, que vive, agora, na penumbra, a
contemplar as águas que, outrora, facilmente, desviava dos povos, deixando-os à
sede, apesar das intermináveis vias que ia sulcando.
De costas, o marquês não
passa de um espantalho que, perdido o pombal, vai esperando por novo terramoto…
25.3.21
Discreta, mas está lá a
alterar o verde, invejosa do amarelo.
Talvez não! Involuntária,
ficou ali à espera que não dessem pela sua presença ou que simplesmente a
eliminassem…
Mas quem quer ser
eliminado, discreto, involuntário, sombra?
24.3.21
Este D. João V parece-me
diferente do de José Saramago ou até do de Bernardo Santareno. Será que ando a
ver mal? Será que a diferença de representação ainda tem algum significado por
estes dias?
Hoje, encontrei-o muito
só, a fitar o Convento. Talvez, arrependido de ter cumprido a promessa já que
foi o último a saber que a rainha estava grávida.
Magnânimo, cumpriu e
enterrou o país em dívidas, não sobrando ouro (do Brasil) para pagar as reais
exéquias…
23.3.21
Não sei se a culpa é do
Cristo se do Salazar, a verdade é que quando olhei havia menos azul… as cores
eram mais nítidas. Mesmo assim, fica o registo.
Em Monsanto, tudo parecia
sossegado, no entanto não faltavam lugares movimentados, onde uns preguiçavam
ao sol, e outros jogavam freneticamente desportos ruidosos.
O policiamento, a cavalo,
marcava presença, sobretudo porque as alimárias não se continham, deixando
atrás o estrume de que se alimentam as pulgas… e outros parasitas de vária
índole.
21.3.21
da guerra
a poesia
em março
a vinte e um
os poetas do dia
armam-se de versos roubados
dançam
inebriados de primavera
a vinte e dois
soluçam
os poetas dos dias
traídos
20.3.21
« Dans une année, la Terre décrit un grand cercle un peu
allongé autour du Soleil. Le Printemps correspond toujours à
la même position de la Terre qui revient chaque année sur le cercle et les
autres saisons aussi reviennent régulièrement chaque année.
Le Printemps : De Mars à juin c'est la saison du
renouveau, tout reverdit, les arbres et les prés, tout fleurit, les oiseaux
reviennent et font leurs nids, on sème et on plante dans les jardins et dans
les champs, les jours augmentent, le temps se réchauffe. Pâques est la grande
fête du Printemps. »
Olívio de Carvalho, J'apprends le Français, Première année du
Lycée, Soixante-Septième Leçon, Porto editora
Assim se aprendia
Francês… e não só!
19.3.21
Passei por lá, mas o
desvio não fez qualquer sentido. Tudo vazio!
Exagero, talvez: havia
três turistas e alguns velhos resguardados nos bancos do largo… Só o sol dava
algum brilho ao celebrado edifício, ali postado à espera. Até quando?
Nem o D. João V que ali
voltasse teria qualquer vontade de se rever na sua megalomania. E o próprio
José Saramago, se o acompanhasse, pensaria certamente que a melhor fantasia
seria a da demolição do convento…
16.3.21
Como
se fosse um pastel de nata...
Como se… com ou sem
postigo.
Hoje, decidiram proibir o
'café ao postigo' no Centro Comercial da Portela.
A maioria dos
estabelecimentos acatou a decisão da Autoridade. No entanto, houve quem
encontrasse uma solução para o novo problema…
Com ou sem pastel de
nata, foi possível solicitar uma bica em copo de plástico e servi-la numa caixa
devidamente fechada. Só faltou o lacinho!
Discretamente, o
cafeinómano lá foi bicar para o jardim…
15.3.21
Não o levaram à escola
nem procurou qualquer postigo para tomar café. Também não leu o jornal
nem viu televisão. De redes sociais, nada sabe.
Pousou num galho e ali
ficou, confinado por vontade própria. Apesar da folhagem ainda ser escassa,
tenciona passar ali a noite, apenas desejando que anoiteça e que amanhã seja um
novo dia, tão sossegado como o de hoje.
Depois se verá, porque,
embora pareça, nunca está sozinho. Para o bem e para o mal!
14.3.21
Apesar do mal-estar, vale
a pena ler o conto NOCTURNO EM BI BEMOL MAIOR de Hermann Hesse, inspirado em
Chopin.
«A sala transforma-se.
As paredes em redor afastam-se, as janelas ganham grandes arcos e os arcos
altos e redondos enchem-se de copas de árvores e de luar. »
No meio das flores de
março, a borboleta passa despercebida tal como a confluência da escrita e da
música... em apenas 4 minutos e alguns segundos.
12.3.21
Não viemos do mar nem do
ar, mas um destes dias vamos bicar. Por maior que seja o problema,
o que preocupa é a bica…
Vamos lá bicar que o
gota-a-gota pode secar! E tenham cuidado com o Rt!
11.3.21
Há coisas que não mudam.
Temos de ser nós a mudá-las. Por exemplo, a roupa presa no estendal.
Há pessoas que não mudam.
De nada serve ensiná-las... algumas ainda despertam a tempo; outras ficam
presas no estendal. Por exemplo, o velho jarreta que ainda ameaça casar.
No estendal da vida, o
vento bem pode soprar… A borboleta, essa, segue o seu curso.
9.3.21
As flores,
naturalmente... os graffiti, artificialmente.
O advérbio pouco
acrescenta e nada modifica. É desnecessário, mas resiste, alapado permanece. Se
transformado, encalha na hipálage e ficamos às voltas, a saltar de lugar... à
procura da sensação, do instantâneo, do movimento…
Com o tempo, o advérbio
vai esmorecendo. Cristaliza, sobretudo se o autor perder a graça ou, pior, se a
graça faltar ao leitor…
Naturalmente, as flores... os graffiti,
desgraçadamente.
(No dia em que o presidente voltou a tomar posse,
cerimoniosamente.)
7.3.21
O garfo não tem história,
pelo menos que eu conheça. Já tem uns bons anos, não se sabe quantos.
Não posso dizer que tenha
assentado praça no quartel de Abrantes, mas tal bem poderia ter acontecido,
pois tempos houve em que os praças tinham de se fazer acompanhar do talher, já
que as mãos, ferramenta habitual, tinham sido proibidas de fazer chegar o
rancho à boca...
O garfo é resistente, mas
pode incomodar, já que há quem considere que pode deixar cair a comida por
entre os dentes.
Claro que o queixoso não
faz a associação entre o garfo e a forquilha, que a mim me desperta
memórias de antanho.
Nos campos, a forquilha
levantava o feno e o mato, enquanto o Diabo espreitava a oportunidade... Sim,
porque o Diabo continua à espreita…
O garfo é ferramenta
antiga. Dom Manuel I já a utilizaria a espaços... era privilégio das
Cortes!
Este texto é certamente
absurdo. De facto, escrevo-o para não reagir à tese da mente civilizadora, mas
racista, do Mefistófeles queirosiano.
Pobre e inútil ironia!
5.3.21
Parece que ninguém quer
saber… Uns porque já deixaram de pensar; outros porque preferem os negócios e
bajular os poderosos.
3.3.21
Se está preocupado,
continue a leitura ou, caso o não esteja, fique por aqui, não se
aborreça:
A PREOCUPAÇÃO:
Quando eu tomo posso de
alguém, de nada lhe vale o mundo inteiro; cobrem-no trevas eternas, o sol não
se levanta nem tem ocaso para ele; os seus sentidos, por perfeitos que sejam,
estão cobertos de véus e de trevas. De todos os tesouros, nada sabe possuir;
felicidade e desgraça tornam-se caprichos. Morre de fome no seio da abundância.
Sejam delícias ou tormentos, deixa tudo para amanhã. Nada espera do futuro e
deixa de ter presente. Goethe, Fausto
28.2.21
Do que observo e da
informação que vou colhendo, parece que o confinamento já teve melhores dias.
Nas ruas e nos jardins, a circulação é contínua, em modo familiar - a pé ou de
bicicleta, com ou sem perro. Não vivêssemos no seculo XXI, e pensaria que tudo
o que está a acontecer seria ação de Mefistófeles…
Uma gota de sangue, em
troca de um remoçamento, de uma conversa de circunstância, de um chega para cá,
com ou sem selfie.
Uma gota de sangue, e o
cansaço desaparece no paredão, mesmo que não muito longe se acumulem os
caixões…
25.2.21
Insatisfeito com as
notícias que vou recebendo, regresso ao FAUSTO.
Foi em 2013 que me
iniciei na leitura de Goethe, embora em tempos já tivesse lido As
Mágoas do Jovem Werther.
Esta abordagem surge-me
como primeira, apesar deste blogue, se consultado, assegurar o contrário. Se
nem eu próprio me lembro do que fui escrevendo!
De qualquer modo, já não
me interessa decifrar o significado global da obra… apenas começo a dar atenção
a certas reflexões que as personagens vão expondo. Por exemplo:
O Senhor: -
Nada mais tens a dizer-nos? Nunca virás senão para te queixar? E, na tua
opinião, nada há de bom sobre a terra?
Mefistófeles: Nada,
Senhor: tudo corre perfeitamente mal, como sempre; os homens fazem-me pena nos
seus dias de miséria, a tal ponto que sinto remorsos de atormentar a pobre
espécie humana.
23.2.21
A Associação de
estudantes da Escola Secundária de Camões organizou um debate sobre a
escravatura e o racismo no Zoom. A certa altura o ecrã foi invadido por
suásticas, ameaças racistas, saudações nazis e imagens violentas.
Pouco interessa a ponte e
quem a atravessa. O olhar fixa-se num círculo bem delimitado, alheio ao
curso do dia...
Talvez a noite desperte para um círculo maior, embora
indistinto. A nódoa, sim, devia perturbar o olhar.
22.2.21
«Qualquer espírito de
homem é um lugar de experiência virtual.» Claude Lévi-Strauss, O
Totemismo hoje
Talvez seja por isso que,
por vezes, começo a pensar na minha natureza vegetal, já que da animal não
consigo determinar a fronteira entre as diversas categorias a que pressinto,
também, pertencer.
É certo que alguns
vegetais marcaram os dias da minha infância e nem sempre de maneira positiva,
mas se tivesse de me enraizar optaria pela serralha, bravia e leitosa…
Esta ideia de ter tido um
passado leguminoso é um pouco obscura, porém é melhor que o prometido pó, já
desfeita a cinza…
Será que os deuses teriam
piedade da minha pequenez se esculpisse uma serralha no meu corpo?
20.2.21
Bem sei que é
difícil aceitar que o futuro possa repetir o passado. No entanto, se pensarmos
no que está a acontecer, certos comportamentos são a reprodução de ações
anteriores cuidadosamente dissimuladas.
O prémio (ou castigo) de
vida não está guardado para ser usufruído na outra margem. É aqui, nesta
margem, que o PRESENTE premeia (ou castiga) o passado.
Tristemente, nesta
margem, insistimos em bater à porta do palácio, mas lá já não mora a ventura.
19.2.21
Descia, a cismar… Lá
estava, silencioso, o pavão.
A minha preocupação
imediata foi não o incomodar. A simples ideia de que a minha presença o levasse
a afastar-se enerva-me. Mas não, desta vez, ele continuou na sua rotina e eu
segui na minha…
Creio que a vida seria
mais autêntica, se incomodássemos menos...
De qualquer modo, por
hoje, não quero incomodar mais.
17.2.21
De manhã.
No silêncio, só os pavões
dialogam entre si. Sobre o quê? Nunca soube.
(Ouço-os com alguma
frequência, estridentes.)
Na árvore, em silêncio,
periquitos de colar esperam que o Sol lhes devolva a zoada.
Eu desço, junto ao muro,
sem plano, apenas atento ao movimento de um ou outro carro...
Desço só, a pensar na
próxima curva, na incerteza que ela esconde, porque tudo o resto é algaraviada.
15.2.21
Os Presidentes já foram
vacinados, o Primeiro, também, sem esquecer a ministra da Saúde. E depois, há
uma série de individualidades estratégicas que também foram vacinadas sem
esperar pelos presidentes… Mas entende-se: são essas individualidades que aconselham
e, frequentemente, decidem.
Por isso estou confiante.
Sei que estou em boas mãos! É só esperar… Virtude única que nunca me faltou: a
paciência. Tempos houve em que cheguei a ser conhecido como o «pai» da
paciência.
Irritado? Só se o
Atlântico subisse o Tejo e entrasse pela minha janela! Mas isso é previsão do
filantropo Bill Gates…
14.2.21
No dia 14 de
fevereiro do ano 286, o Bispo Valentim foi morto à paulada e, posteriormente,
decapitado na via Flaminia. Porquê? Porque desrespeitou o propósito do
Imperador Marco Aurélio Valério Cláudio de construir um exército poderoso,
mobilizando os jovens para essa causa, o que implicava proibir os casamentos.
O bispo cristão, que desprezava o culto monoteísta do deus Sol,
combateu o militarismo de Claudio II, casando os mancebos em segredo.
Como se vê, o negócio
daquele tempo era outro... mas quem quer saber?
Depois a veneração do
bispo Valentim serviu as igrejas cristãs do Oriente e do Ocidente…
E hoje o Sol brilhou!
12.2.21
Em 15.000 óbitos, 10.000
dos falecidos tinham mais de 80 anos.
Este é um número, embora
revelado, pouco escrutinado - no discurso público e privado surge como uma
inevitabilidade.
O maior número de óbitos
concentra-se entre as pessoas com mais de 80 anos, com 10.060 (+103) mortes
registadas desde o início da pandemia, seguidas das que tinham entre 70 e 79
anos (3.117 +33), entre 60 e 69 anos (1.288 +10), entre 50 e 59 anos (382 +2),
40 e 49 anos (135 =) e entre 30 e 39 anos (38 +1).
Há ainda 10 mortes (=)
registadas entre os 20 e os 29 anos, duas (=) entre os 10 e os 19 anos e duas
(=) entre os 0 e os 9 anos.
Observando o modo como os
números se distribuem diariamente, creio que as medidas de confinamento,
tomadas até aqui, afundarão a economia e continuarão a ceifar os mais frágeis,
porque a ação no terreno é manifestamente insuficiente.
11.2.21
Conhecedor dos meandros
do hospital, decidi atalhar caminho. Só que, nestes últimos meses, tudo mudou.
A cada passo, surgem novas divisórias, novas portas. Ali, onde,
habitualmente, se virava à direita, agora vira-se à esquerda. No chão,
inscrevem-se rotas de sentido único que devemos ser capazes de interpretar,
embora dificilmente saibamos onde nos levam…
Funcionários aceleram o
passo como se a pressa pudesse resolver alguma coisa. Lembram-me o São José,
severo com os animais, mas incapaz de compreender o que lhe acontecera…
Também eu não compreendo
como é possível remendar tanto, já que o improviso, ainda que bem intencionado,
só serve para mascarar a situação.
Enfim, talvez seja
castigo! Espero que em abril tudo esteja consertado!
10.2.21
Logo que a humidade
aumenta, eles despontam. Neste caso, o agricultor é completamente
desnecessário.
Ao certo, não se sabe se
há algum propósito. Assim como prosperam, assim definham. Nós ainda não
percebemos se, para outrem, somos cogumelos.
9.2.21
Mesmo que não esteja
visível, a parede está presente... Talvez fosse mais sensato contorná-la,
fazendo de conta que ele desaparecera, mas isso significaria abdicar... fugir
da razão.
Não estou zangado com
ninguém. Hoje achei apenas que era a minha oportunidade de fazer as pessoas
refletir e abrir a discussão a todo o país daquilo que está a ser feito e se
podemos fazer alguma coisa que evite voltar a passar por aquilo que passámos em
janeiro que foi a pior crise de saúde publica de Portugal dos últimos 100 anos.
Na reunião do Infarmed, Carmo Gomes criticou a atuação do Governo de António
Costa, avisando que Portugal andou “sempre atrás da pandemia”, numa referência
clara ao atraso na tomada de medidas.
(...) Se
conseguirmos, através da testagem, identificar as pessoas infetadas
ainda antes de estas manifestarem sintomas, Manuel Carmo Gomes defende que
“podemos ter uma resposta forte à epidemia sem ter de submeter o país a uma
situação como a que estamos agora”.
7.2.21
Não compreendo o que se
passa no Oriente. Com tantos milhares de milhões de corpos em movimento, a
Covid-19 parece estar a desaparecer na Índia e na China... Haverá alguma
explicação plausível?
Talvez, a Covid-19 seja
um castigo lançado a Oriente para castigar os desmandos do Ocidente!
Não quero crer, mas
verdade seja dita: os Velhos, mesmo que sejam do Restelo, continuam a ser
dizimados, como já o eram quando a peçonha invadiu as ruas de Lisboa.
Vale a pena lembrar que
tempos houve em que um Velho nos amaldiçoou por termos ousado ir além do
canteiro em que íamos medrando.
4.2.21
«Não há perturbação
mais violenta do que olhar para fora e esperar respostas exteriores a perguntas
a que talvez só a sua sensibilidade mais íntima, nas horas de maior silêncio,
poderá responder.» Rainer Maria Rilke ,
17-2-1903 (1875-1926)
Esperar respostas - de
assentimento ou de rejeição - é uma inevitabilidade. Quando elas não chegam, é
uma desilusão assente numa ilusão.
De facto, à maioria das
perguntas só nós podemos responder, se estivermos disponíveis. O resto é
presunção. Lá fora, correm as nuvens sombrias. A direção é indistinta.
3.2.21
CRITÉRIO: o que serve
para fazer escolhas, em função de valores.
Numa sociedade com poucos
valores (positivos), convém ser poupado no número de critérios, por exemplo,
para selecionar quem deve ser vacinado.
Na minha perspetiva, um
critério razoável seria vacinar todos os que vivem ou servem um lugar,
fosse um lar, um hospital, uma escola, uma fábrica, a sede do conselho de
ministros, a presidência da república ou a aldeia mais afetada pela COVID-19.
Claro que esta ideia só
faz sentido, caso o Governo esteja efetivamente empenhado, empenhando o
país, em assegurar as vacinas necessárias à vacinação real dos
portugueses, independentemente da idade, do estatuto social ou profissional…
O resto são quezílias que
só comprometem o futuro, porque se crescer a perceção de que a política é
outra, então, continuará a ser 'o salve-se quem puder'.
1.2.21
Já não sei como
reagir!
Abro um livro e deixo de
seguir o raciocínio do autor - são tantas as citações e confrontos que fico
crispado, sem saber quem é o culpado. Enredado, não desisto da leitura, à
espera de alguma luz…
Abro os olhos, e o que
vejo? Uma parede imperfeita, de cujos orifícios cigarros acesos me acenam em
fantasia suficiente para me obrigar a fugir do lugar… num tempo em que a fuga
está proibida, a não ser que seja interior, embora mais gravosa…
E os ouvidos, esses,
fecham-se, tantas são as recriminações dos cientistas da hora. Começo agora a
fingir que subo a escada (rolante), cheio de ideias egoístas: talvez precise de
uns sapatos, mas para quê se as sapatarias estão fechadas, mas não, há ali uma
sapataria de porta aberta. Em tempos disseram-me que era de uma presidente de
junta, de uma vereadora, de uma diretora do centro comercial.
29.1.21
Esta noite, já de
madrugada, fartei-me de andar às voltas na cidade - qual cidade? - impedido de
chegar a Coimbra… esqueci o lugar onde estacionara o carro… subi e desci, uma a
uma, as ruas e as ruelas… e nada, sem pôr a hipótese de que o carro tivesse sido
roubado. Minuto a minuto, hora a hora, e nada! E o prazo, que não era meu, a
esgotar-se. Cheguei a pôr a hipótese de apanhar um táxi - ia e voltava… e
talvez acabasse por me lembrar… mas nada…
Lembro-me agora que,
muitas vezes, sonhara que chegava atrasado e que esquecera a sala a que me
dirigia. Dava voltas sobre voltas, espreitando pelas janelas à espera de ver
alguém conhecido, mas nada…
O que parece é que a sala
foi substituída pela cidade, talvez Leiria, e os alunos por um lugar onde terei
deixado o carro que, para mim, só para mim, se tornou invisível… as ruas eram
inclinadas e serpenteadas, estreitas e desertas... com arcos de outras
memórias, janela aberta para o terreiro onde a justiça de Pedro crescia no
sangue do assassino de Inês.
27.1.21
«O mundo não é o
que pensamos.» Carlos Drummond de Andrade
O mundo não tem passado
nem futuro. O mundo só tem presente e, ao contrário do que insinuamos, pouco
sabemos sobre o mundo…
Falamos ao desafio,
narcisos do momento, incapazes de abraçar o mundo, sem perceber que, sem ele,
nem sequer existimos… De nada serve olhar para trás - nem sequer os
monstruosos crimes de ontem voltaremos a repetir… outros, mais novos e mais
desesperados, se encarregarão de o fazer, se o mundo lhes conceder um último
instante…
Narcisos do momento,
fingimos arrependimento e atiramos a culpa para os oportunistas da Hora.
26.1.21
A flor desperta a vida
que ainda subsiste, apesar dos abutres que se vão multiplicando em territórios
onde a esperança de abril morreu.
As meias-vitórias de 24
de janeiro só terão seguimento se o Poder continuar a esquecer aqueles que um
dia sonharam viver melhores dias, aqueles que acreditaram que a Liberdade os
libertaria dos desmandos dos Senhores da Terra.
Os pretextos que, agora,
foram avançados são a expressão da incapacidade de tratar caso a caso cada
situação, são a expressão da ignorância de quem governa…
Decidir exige avaliação e
cautela.
24.1.21
O padre Fernando Campos
da Silva, que foi reitor do Seminário de Santarém e vários anos vigário-geral
da Diocese de Santarém, morreu este domingo, 24 de Janeiro, no seu quarto da
casa sacerdotal.
Morreu aos 93 anos, vítima
de covid-19.
O padre Fernando Campos
nasceu na freguesia da Pena, Lisboa, no dia 20 de Março de 1929. Foi ordenado
sacerdote em 29 de Junho de 1952, para o serviço do Patriarcado de Lisboa, pelo
Cardeal Patriarca D. Manuel Gonçalves Cerejeira, após ter frequentado os
Seminários do Patriarcado: Seminário de Santarém, onde entrou com 10 anos, São
Paulo de Almada e Cristo Rei dos Olivais.
Se aqui registo o óbito é
porque, apesar da distância temporal, foi uma daquelas pessoas que nunca deixou
de estar presente na minha memória.
Dele guardo o modo como
soube lidar com a minha dúvida, que, na verdade, nunca me
abandonou. Segui o caminho que me preparou, mesmo que, à data, anos 70, eu não
tivesse consciência de que a porta que atravessava seria definitiva…
22.1.21
Não podendo estar parado
no jardim, fui caminhando sem convicção. Fechados, o parque infantil e a escola
adjacente; nem os melros baixavam à cata de gramíneas…
Apenas dois ou três
velhos aceleravam o passo, em círculos mal desenhados; as árvores despidas
suportavam a hostilidade da ventania - ideia, evidentemente, fantasiosa.
O que seria das árvores
sem os ventos? E de mim?
De súbito, pensei na
inutilidade do piripiri que colhera num jindungo. Juntara-o no bolso à chave do
carro…
E ali, no jardim, sobre a
luminária, associei o inútil piripiri à inútil chave do que poderia ser a vida…
21.1.21
A literatura é o
país dos pobres
Agora que a realidade
voltou a ser insuportável, qual é o papel da literatura (e da cultura) para
escaparmos à crise sanitária, social e económica?
No entanto, neste país
cada vez mais pobre, a atividade cultural é a primeira a ser encerrada e
varrida para os bastidores.
Pensar-se-á que talvez a
fruição literária possa suprir essa maldição. Mas como se a educação literária
vive há muito acantonada?
19.1.21
Dizem que a culpa é do
Bicho, mas não me parece…
Entre as 8 e as 9 horas
da manhã, estive a observá-lo de longe, e ele não se mexeu. Creio mesmo que ele
não me viu! Ainda pensei que o Bicho fosse uma coruja esquecida naquela
varanda, no entanto duvido.
Só não digo que o Bicho
está exausto, porque ele não perdeu a altivez que o carateriza, embora esteja
certo de que ele agradece que não o incomodem…
Pois é! Não incomodar,
não criar problemas, não ser irresponsável - a dificuldade maior!
Tenho para mim que todos
somos responsáveis, mas só até um certo ponto.
Quando o mau exemplo vem
do topo, desatamos todos a imitá-lo. O próprio Bicho já não
sabe o que fazer e, então, de cabeça perdida, ataca a torto e a direito, sem
olhar a quem…
17.1.21
Se levo o cão à rua, não
preciso de máscara!
Se saio acompanhado, não
preciso de máscara!
Se me apetece fumar, não
preciso de máscara!
Se decido ir correr, não
preciso de máscara!
Se encontro um conhecido,
não preciso de máscara!
De bicicleta e cabelo ao
vento, não preciso de máscara!
(Sou um ator que
deitou fora a máscara, porque no meu palco sou o protagonista!)
16.1.21
As portas vão sendo
encerradas, mas nem todas.
À porta das que ficam
abertas, formam-se pequenos grupos mascarados, mas sorridentes. Não se
compreende porque estão ali, contentes de si, talvez, e lastimando a desgraça
alheia, sempre com o mesmo argumento: não cumpriram e agora pagam.
Naquele sol, gozam a
liberdade de desafiar a regra que, com tantas exceções, lhes permite circular
permanentemente, pois há sempre uma necessidade premente de ir aqui e ali… e
ficar na montra…
Sim, porque o mais
importante é a montra que ajuda a fazer prova de vida e de intocabilidade.
Até que o diabo bata à
porta… E aí é um ai jesus de que a culpa é dos que nunca cumprem.
14.1.21
Estava a pensar que,
quando fosse ao supermercado, poderia comprar um livro para ocupar o tempo
morto, mas não é possível. Em alternativa, posso-me empanturrar de carnes e de
bebidas mais ou menos espirituosas... que me adormecerão os sentidos e me atrofiarão
a mente...
Parece-me uma estratégia
acertada, pois, lá pelo meio do confinamento, terei de passar pela mesa de
voto, e, nesse dia, compreenderei certamente que a leitura só me teria
emperrado o discernimento…
E a propósito de palavras
soltas, quero testemunhar, aqui, que, nos últimos meses, entrei por duas vezes
numa igreja e não senti que o vento frio tivesse afetado qualquer um dos
participantes na cerimónia - respetivamente, um funeral e um casamento…
Fiquei até com a sensação
que, se desligarmos o ar condicionado e abrirmos as portas, tudo correrá de
feição.
No entanto, sempre que
entro numa igreja, lembro-me dos comediantes que durante séculos se viram
impedidos de deixar os ossos em solo sagrado.
Talvez seja em nome dessa
memória que respeitamos o Templo e deixamos que a Cultura definhe...
13.1.21
Em resumo, os inúteis vão
ter de ficar em casa. Evitam-se, assim, males maiores, designadamente, o cavaco
na esplanada, o exercício no ginásio, o pasmo nas casas de espetáculo, a gula
nas pastelarias e nos restaurantes … e a circulação de todos os morcegos -
perigosos agentes de Mefistófeles.
12.1.21
Já não sei se devo olhar
de cá para lá, se de lá para cá. Sei, no entanto, que a escolha não é gratuita.
Num tempo em que a
decisão se estriba, a todo o custo, no parecer de cientistas, em franca
divergência, o que vemos é que a escolha é cega - voltamos ao confinamento
geral…
Hoje, mais 155 óbitos
devido à Covid-19! Contudo, nos últimos 7 dias, morreram mais de 500 pessoas
por dia... Parece que ninguém olha para esta face da realidade…
Do que oiço, uma das
causas do acréscimo dos contágios reside na indisciplina em certos
contextos.
Como bem se sabe,
disciplinar não deve ser um ato irracional. Exige vigilância e sanção... de
proximidade.
9.1.21
Ontem, 118 óbitos! E,
hoje, quantos serão?
Gastam-se milhões, mas a
evidência é que a ação é avulsa. A ação é reativa, está entregue a gente que
não sabe enfrentar o problema.
Os lares continuam a não
estar devidamente equipados.
As populações, que não
têm meios para proteger os seus velhos, continuam entregues a si próprias...
Os trabalhadores não são
devidamente acautelados nos seus movimentos diários.
Os hospitais continuam a
não ter os meios necessários para enfrentar situações de calamidade.
A saúde continua a ser
vista como um negócio altamente lucrativo.
FECHAR O PAÍS NÃO É
SOLUÇÃO!
Chegamos ao ridículo de
andar preocupados com as próximas eleições quando os candidatos sabem, de
antemão, quem será o vencedor, aproveitando o tempo de antena para nos
estupidificar um pouco mais… Por outro lado, em vez de defender o voto
eletrónico, continuam a partilhar o erro de que a saída dos lares ou de casa
para votar não trará mal ao mundo... ou que a recolha de voto poderá ser feita
sem prejuízo para os mais fragilizados.
É DE PASMAR!
6.1.21
Faz frio, mais do
que o habitual. O rio é outro! Mesmo que a imagem tenha sido capturada noutro
dia, não tenho notícia que a neve o cubra, ao contrário de outros lugares,
distantes, onde os corvos não param de voltear - pelo grasnido os reconheço…
Dos candidatos a PR não
sei que dizer! Grasnam sobre a presa descuidada, à espera de lhe tomar o que
resta da alma - o que, como é sabido, é o nada…
Não fosse a carcaça, e os
corvos já teriam retirado…
Os números não enganam -
nunca pensei tal dizer! Os velhos, com este frio e com estes corvos, estão
condenados a morrer… a morrer, absurdamente.
O resto é
propaganda!
4.1.21
Leiria. Não nevou!
Choveu noutro lugar qualquer. No alto ventou um pouco…
Movimento, só nas
rotundas. Parece que servem para afunilar… e para glória de suas excelências… Brigadas
sob os viadutos silenciosos. Esperam os aceleras incautos!
As notícias insistem na
mentira do ministério da justiça por causa do currículo do senhor Guerra.
E eu a pensar que o
responsável pelo currículo era o procurador…
2.1.21
De que me serve esta
ponte? E todas as outras pontes para que servem por estes dias?
Do lado de cá, percorro a
margem a pensar na inutilidade da travessia.
Por perto, a fila de
carros cresce à procura de uma prova de que os excessos da quadra não
despertaram o monstro que se esconde em cada toque, em cada gotícula
inadvertida…
A crença no efeito
salvífico de um teste... substitui o Circo, obrigado a refugiar-se, inútil, na
outra margem.
1.1.21
Correm turvas as águas deste rio,
que as do Céu e as do monte as enturbaram;
os campos florecidos se secaram,
intratável se fez o vale, e frio.
Passou o verão, passou o ardente estio,
umas coisas por outras se trocaram;
os fementidos Fados já deixaram
do mundo o regimento, ou desvario.
Tem o tempo sua ordem já sabida;
o mundo, não; mas anda tão confuso,
que parece que dele Deus se esquece.
Casos, opiniões, natura e uso
fazem que nos pareça desta vida
que não há nela mais que o que parece.
Luís Vaz de Camões
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