segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Diário _2022

 31.12.22

À porta de 2023

O que pensar? De 2022, a memória é claramente negativa. 

Incapazes de negociar a paz, continuamos a festejar como se nada estivesse a acontecer...

Desejar o quê?

Só a paz! No entanto, quem pode não a quer.

O rebanho continua a pastar... 

Espero, assim, que, em 2023, seja possível afastar do poder os tiranos que espezinham a humanidade.

 

27.12.22

Foi Tudo e hoje é Nada

Poder-se-ia pensar que partiu no princípio do inverno, mas não: deixou de haver princípio e a ideia de retorno é-lhe absurda. Nem sequer o tempo lhe pode abrir outra via.

Foi Tudo e hoje é  Nada. 

NIHIL!

As palavras costumeiras deixaram de fazer sentido... 

Que a sua lucidez não nos falte!

 

24.12.22

O milagre chegou mais cedo

Mais valia estar de olhos fechados a ver se os aranhiços somem de vez... dizem-me que eles são de curta duração - talvez três dias!

Mesmo que tal não aconteça, não tenho motivo para agravo, pois o milagre chegou mais cedo - já lá vão 10 dias depois de ter sido atropelado sobre uma passadeira e nada de grave terá acontecido - o impacto foi violento, mas o corpo defendeu-se bem.

De pouco serve acusar a condutora, que de nada se apercebeu, pois também ela foi vítima do mau funcionamento da chauffage. 

A culpa é, afinal, das condições de vida: chega-se do Brasil a Portugal na expectativa de trabalho bem remunerado que permita deslocar-se facilmente, mas tudo não passa de logro...

Solução: arranja-se um automóvel a cair aos bocados por umas centenas de euros, a pagar logo que a vida melhore… e depois é o que se sabe: a engrenagem cega… e pode matar.

Desta vez o milagre chegou mais cedo!

22.12.22

Desenfreados

Pensei que algo teria mudado no presépio dos Bombeiros Voluntários de Portela e Moscavide, mas tudo continua na mesma. Nem podia ser de outro modo. Afinal, de Belém para cá o que é que mudou?

O ser humano não tem cura por muito que pregue o contrário. Por ora, nem a pele natalícia consegue vestir... e não precisava de ser a  do lobo,  bastava a do cordeiro...

A verdade é que as armas não se calam e nem o frio as consegue travar.

Resta-nos o consumo, desenfreado.

 

16.12.22

Não estamos a falar...

«Perde-se muito não falando com as pessoas.» José Saramago, Viagem a Portugal, pág. 89.

Escrever não é falar, mesmo que Saramago tenha sido exímio na arte de escrever como se estivesse a falar... 

Na escrita e na leitura não há interação entre as pessoas. Cada interlocutor fica sozinho com os seus pensamentos…

Faltam as 'presenças' e, consequentemente, faltam as réplicas e os seus efeitos - a ação verbal torna-se indireta e facilmente manipulável.

Já não há diálogo e onde este falha deixa de haver vida.

Apreciamos os símbolos, mas também eles são a expressão de um diálogo cada vez mais sem sentido.

 

12.12.22

É só olhar para o mapa...

Não há muito mais a dizer: Marrocos eliminou Portugal; Putin continua a destruir a Ucrânia, a seu belo prazer; no Irão, a liberdade de expressão abre a porta à forca; a Turquia ameaça bombardear Atenas... Enfim, é só olhar para o mapa, pois em cada canto há esbirros com ganas de destruir a torto e a direito…

Por cá, em tempo de rebofa, o preclaro caçarelho vai iniciar o périplo das 'urgências', com o ouvido na bola.

Com votos de Festas sossegadas, vou 'deliciar-me' com a Viagem a Portugal, de José Saramago, apesar do excesso de igrejas, mas a culpa não é do Viajante, mas, sim, das sombras que nos guiam...

 

10.12.22

A tática falhou

(Marrocos eliminou Portugal no Mundial de Futebol.)

Eles sempre foram em maior número. Pelo menos, é o que nos ensinam desde as primeiras letras. Perdemos mais uma vez e a culpa não foi da areia…

Deixámos o Cristiano no banco e atirámos os soldadinhos contra a muralha. De pouco serviu! Faltou-nos a Cruz de Cristo, mesmo se nela crucificado...

Ainda não é desta que El-Rei regressa!

 

8.12.22

Os sinais de inverno

Os sinais já são de inverno. No entanto, nunca se sabe, pois ninguém sabe o que o futuro nos reserva. Por outro lado, há quem insista em que só o presente é que conta...

Da Padroeira pouco se acrescenta, o que se entende, se até o Cristiano Ronaldo já começa a ser esquecido, por mais que ele esbraceje…

Nós somos assim! Bons garfos e beberrões, em estado de profunda amnésia.

 

6.12.22

Esmorece a circunstância

(Em dia de Portugal vs. Suíça ou será ao contrário? 2 - 0 ao intervalo, com Cristiano Ronaldo a assistir.)

A informação é tanta que, por vezes, deixa de ser possível processá-la. Não há arquivo que a disponibilize quando necessária...

E depois surge a dúvida sobre se o conceito é adequado: os dados visuais e auditivos que vamos interiorizando são, na maioria, inúteis e prejudiciais à nossa saúde mental e financeira ou, em alternativa, guardamos nas memórias dos discos internos e externos.

Quando lá regressamos, parte da informação desapareceu, pois perdeu-se a circunstância.

Foram tantos os ficheiros que nos vimos obrigados a guardar sem critério legível: ou parávamos a identificar, a situar, a catalogar ou cumpríamos obrigações mais imediatas.

Suspendê-las não teria justificação, pois há necessidades que não podem ser adiadas. 

(Entretanto, Portugal já está a ganhar à Suíça por 4-0, com três golos do jovem Gonçalo Ramos... Resultado: 6-1.)

 

 

1.12.22

Uma nova 'leitura' do 1º de Dezembro de 1640

“O ‘cavaleiro fidalgo’ Jerónimo da Costa e muitos dos duzentos e cinquenta outros ciganos que serviram nas fronteiras ‘procedendo na forma de traje e lugar dos naturais’ tombaram por Portugal“, recorda Marcelo, frisando a “homenagem” e “gratidão” que quer deixar expressa.

Uma breve história sobre o Povo Cigano - Pastoral dos Ciganos

  • D. João III – 1538: “… que nenhum cigano, assim homem como mulher, entre em meus reinos e senhorios…” e “… entrando, sejam presos e publicamente açoutados com baraço e pregão”;
  • Regência de D. Catarina – 1557: repete-se a ordem de expulsão e acrescenta-se a pena de condenação às galés para os que não obedecerem;
  • D. Sebastião – 1573: repete as determinações anteriores, mas acrescenta que as mulheres não podem ser condenadas às galés, sendo-lhe aplicadas todas as outras penas;
  • D. Henrique – 1579: determina que se façam pregões em todos os lugares públicos, ordenando que os ciganos saiam do reino dentro de 30 dias; acrescenta que “qualquer um que seja achado fora deste tempo seja logo preso e açoitado publicamente no lugar onde for achado e degredado para sempre para as galés”;
  • Filipe I – 1592: faz nova ordem de expulsão do reino, a cumprir no prazo de 4 meses. Em alternativa, os ciganos deveriam fixar residência e deixar a vida nómada. Determina a pena de morte, sem apelo nem agravo, para todos os que se encontrassem, depois daquele prazo, a vagabundear pelo reino;
  • Filipe II – 1606: verificando-se o não cumprimento das leis anteriores, determinava-se novamente a expulsão dos ciganos. Acrescentava-se, para os prevaricadores, a pena de degredo e condenação às galés;
  • Filipe II – 1613: proibição de aceitar os ciganos como residentes no reino e determinação de expulsão de todos os que se aí se encontrassem, no prazo de 15 dias; acrescentavam-se penas idênticas às anteriores;
  • D. João IV – 1647: autorização para que os ciganos pudessem fixar residência nas seguintes localidades: Torres Vedras, Leiria, Ourém, Tomar, Alenquer, Montemor-o-Velho e Coimbra. Ficavam, no entanto, proibidos de falar a sua língua e a ensinarem aos filhos, bem como de usarem os seus fatos. Determinava-se ainda a obrigatoriedade de trabalharem. E os filhos com mais de 9 anos seriam tirados aos pais, indo servir para casas de não ciganos;
  • D. João IV – 1650: os ciganos foram aceites para servir nas fronteiras, respeitando as normas de fixação já impostas; determinava-se a pena de condenação às galés para os homens e degredo para Cabo Verde e Angola para as mulheres que não cumprissem a lei;
  • D. João IV – 1654: ordem de prisão para todos os ciganos que fossem encontrados no reino a vadiar;
  • D. Pedro II – 1689: os ciganos nascidos no reino eram novamente proibidos de vagabundear ou trazer trajes ciganos; deveriam fixar-se e viver como os restantes naturais do reino. Pena de morte para os incumpridores;
  • D. João V – 1707: decreto de expulsão de todos os ciganos do reino;
  • D. João V – 1708: nova decisão de expulsão, mas aceitando que os ciganos nascidos no reino e sedentarizados pudessem ficar;
  • D. João V – 1718: ordem geral de prisão e degredo para a Índia aos prevaricadores;
  • D. João V – 1745: nova lei de expulsão;
  • D. José – 1751: repetição das leis de expulsão total;
  • D. José – 1756: decretada pena de prisão a todos os ciganos perturbadores da ordem; obrigatoriedade de trabalharem nas obras públicas da cidade, até haver navios que os transportassem para Angola;
  • D. Maria – 1800: nova perseguição aos ciganos. Determinação de que se lhes retirassem as crianças, que seriam entregues à Casa Pia.
  • 1822 – Era concedida a cidadania a todos os ciganos nascidos em Portugal.

Apesar dos 200 anos que agora vencem, a discriminação ainda é grande, tal como a dificuldade de integração. Porque será?

 

30.11.22

Mais uma vez...

«Nascemos sem saber falar e morremos sem ter sabido dizer. Passa-se nossa vida entre o silêncio de quem está calado e o silêncio de quem não foi entendido, como uma abelha em torno de onde não há flores, paira incógnito um inútil destino.» Pessoa Inédito, No Jardim de Epicteto

Lembro mais uma vez que Fernando Pessoa nos deixou a 30 de novembro de 1935. O Tejo continua o mesmo do amanhecer e do entardecer do Livro das Horas. Embora o Poeta tenha dito que do Tejo se vai para o mundo, a verdade é que o Tejo no-lo devolveu inteiro para que nele pudéssemos descansar nas boas e nas más horas...

Com ou sem flores, continuamos à espera de que o gládio se ilumine e nos faça descortinar a praia da Verdade. De tempos a tempos, o sino tange, e nós apressamos os passos inúteis...

Queremos falar, mas não sabemos o que dizer. Esvoaçamos apenas!

 

Lembro mais uma vez o tempo em que, juntos, encetámos um caminho sem lhe conhecer o rumo. Deu os frutos esperados da «besta sadia». Já decorreram 48 anos em que fomos falando mas, na verdade, ainda não sabemos o que dizer... e provavelmente nunca saberemos. A vida não passa de um INTERVALO no caminho que só os deuses podem antever.

Nota: O texto primeiro data de 30-11-2014. De lá até hoje, pouco foi acrescentado, a não ser o cansaço da Humanidade... e não, apenas, o cansaço do Ser.

 

26.11.22

A corrupção das verdades

«O que têm de mal as verdades é que, para se tornarem claras, acabam por ser corrompidas. A verdade é incompatível com a mística da sua utilidade.» Agustina Bessa-Luís, A Peste Emocional, Alegria do Mundo II.

Por exemplo: A Rússia está a destruir a Ucrânia. Outro exemplo: os Direitos Humanos não são respeitados em Portugal.

À força de quererem clarificar o conflito, os comentadores acabam por obscurecer a verdade.

Ir ao Catar falar de Direitos Humanos e das Mulheres é uma manobra de diversão, quando se é Presidente  de um país, onde a violência contra as mulheres cresce diariamente e os imigrantes 'vivem' em condições degradantes.

 

23.11.22

Não há alternativa

 «Sempre os povos tomaram o ruído como manifestação de força...» Agustina Bessa-Luís, Alegria do Mundo II, 3-01-1973.

O título da crónica de Agustina 'Estrondo' é cada vez mais atual. Não há alternativa - vivemos num tempo ruidoso, em que o poder se constrói através do grito, do míssil, do atrofiamento do ouvido... 

Viver em silêncio deixou de ser opção. Ninguém quer ser dado como morto e por isso vamos assistindo a manifestações de afirmação cada vez mais disruptivas, em nome da glória pessoal.

Só o passado mergulha no esquecimento ou quem insiste em fugir do ruído.

 

 

 

 

19.11.22

O Futebol e os Direitos do Homem

Os Direitos do Homem estão magistral e presidencialmente suspensos. Prioridade ao futebol!

De facto, já há muito que os Direitos do Homem eram uma causa perdida... como o Clima, de resto... e a Terra...

 

16.11.22

A democracia é uma empresa difícil

mcg /94 

(Da intenção pouco ou nada terá sobrado... a não ser registos esquecidos.)         

Vetusta casa de madeira-e-zinco
castelo de esconderijos na Mafalala.
Nem a mim confiaste
onde a bom recato esconderas
" A Mãe " do Gorki.
Dos esbirros à paisana
inúteis foram as mil perguntas
sobre segredos absolutamente só meus
e livros por ti guardados
onde nem eu sabia.
.............................
Teu sigilo valeu-me.
José Craveirinha, Maria, 1988


            A Camões
            Quando n’alma pesar de tua raça
            A névoa da apagada e vil tristeza,
            Busque ela sempre a glória que não passa,
            Em teu poema de heroísmo e beleza.
            Génio purificado  na desgraça,
            Tu resumiste em ti toda a grandeza:
            Poeta e soldado... Em ti brilhou sem jaça
            O amor da grande pátria portuguesa.
            E enquanto o fero canto ecoar na mente
            Da estirpe que em perigos sublimados
            Plantou a cruz em cada continente,
            Não morrerá sem poetas nem soldados
            A língua em que cantaste rudemente
            As armas e os barões assinalados.
            Manuel Bandeira, A cinza das horas
           
            Hoje a realidade é de cristal
            Duma delicadeza transparente
            que mete medo
            quando os olhos atravessam as coisas
            até ao fumo do sal.
            Continentes com tentáculos
            esqueletos de sangue,
            enlace
            do Sol com o verde-mar esmaecido...
            De vez em quando
            alguém toca nas árvores,
            nas flores, na pele 
            - e é como tudo se quebrasse
            em flores de vidro. 
            José Gomes Ferreira, Poesia V

 

14.11.22

De Costa à contracosta

A falta de decoro acentua-se.

Em democracia, governa quem recebe o mandato do povo. No entanto, em Portugal, sob a capa da luta política, o voto significa cada vez menos... 

O Ministério Público tem uma agenda própria cujo objetivo principal é gerar instabilidade. E a oposição, bem informada, aproveita, apesar dos rabos-de-palha...

Por seu turno, António Costa há muito que se deixou enredar nas malhas clientelistas do Partido, imaginando que a maioria absoluta lhe permite passar pelas brasas sem se chamuscar. Agora, ameaça processar o Costa Banqueiro, porque este perdeu o decoro que a função lhe exigia... Sem esquecer o Costa Economista que, por estes tempos, terá voltado as costas ao petróleo e lá vai apoiando uma juventude que quer defender a Terra, mas de forma cómoda... bem agasalhada e nutrida.

Só falta o Costa da Educação vir defender que o melhor é acabar com os exames porque os jovens merecem surfar a onda do momento...

Em matéria de falta de decoro, parece que o Cristiano Ronaldo também decidiu navegar de costa à contracosta, esperando que o mundo se ajoelhe a seus pés. De qualquer modo, vamos ver se ainda se redime no Catar, onde, não fosse a falta de decoro, ninguém deveria pôr os pés  no 'mundial de futebol'...

 

 

 

 

11.11.22

Estava longe de imaginar, o Duarte...

Estava longe de imaginar que iria reencontrar o Duarte e conhecer o Frei Bartolomeu de Santa Maria...

O Duarte, jovem cheio de convicções, sempre pronto a mostrar a sua admiração pela monarquia espanhola e a sua proximidade com o amigo Marcelo Rebelo de Sousa...

Encontrei-o numa nova fase da vida, preparando-se para o sacerdócio, que, naquele momento, esperava Frei Bartolomeu para o levar a almoçar ali ao lado, no Seminário dos Olivais...

Por instantes, a figura do frade fez-me regressar ao século XIX, a certos personagens de Almeida Garrett que, apesar de tudo, animavam a paisagem. (Apenas o smartphone destoava.)

Quem é que ainda se lembra desses tempos!?

 

8.11.22

Da resolução...

Volto atrás. 

Hoje, tratei de uma série de questões. Pensara escrever 'resolvi' ..., mas dei conta de que a resolução é um ato de ilusionismo.

Por exemplo, pensava que o Biden tinha resolvido o problema 'Trump', mas não, este está de volta para alegria dos destemperados deste mundo.

'Resolução' e 'solução' rimam, mas não mais, a não ser que estejamos a pensar em extermínio, individual ou coletivo.

Por agora, sinto  uma vibração que não vem da alma... um zumbido persistente - sem insetos - o que acaba por me sossegar...

Acreditar na mudança não passa de um ato ímpio de quem perdeu a noção do tempo.

No entanto, ainda chove. De vez em quando, copiosamente.

 

5.11.22

Na Trofa, o Presidente saiu do cargo

Este é um dia super feliz, mas há dias super infelizes. E verdadeiramente super infeliz para si será o dia em que eu descubra que a taxa de execução dos fundos europeus não é aquela que eu acho que deve ser. Nesse caso não lhe perdoo  (dirigindo-se à ministra da Coesão Territorial, Ana Abrunhosa). Espero que esse dia não chegue, mas estarei atento para o caso de chegar, acentuou Marcelo.

Hoje, o Presidente saiu do cargo e vestiu a pele do cabo de esquadra. Pouco mais há a acrescentar... o homem desce a escada cada vez que abre a boca...

 

2.11.22

Cemitério de automóveis

Ainda a pensar 'nos corpos pesados do seu próprio esquecimento', hoje atravessei um cemitério de automóveis. De nada serve localizá-lo, pois todos os que procuram peças de substituição sabem a onde ir...

Cercado por estradas e viadutos, entra-se num mundo fechado, onde a cada passo somos olhados como intrusos. Várias ruas não têm saída, por isso o melhor é fazer de conta que se procura alguma lápide ou algum jazigo...

A vida não parece ser muita intensa, apesar de um ou outro forasteiro se aventurar a perguntar pela peça que lhe falta... No geral, a resposta é muda, apenas um gesto desprendido...

De qualquer modo, percebi que este cemitério abriga os restos de milhares de veículos, em tempos tão idolatrados, e não gostei do que vi... 

Entretanto, não pude deixar de pensar naqueles milhares de camiões que atolam o Brasil... Em nome do quê? Ainda não percebi bem!

 

31.10.22

A propósito ou, talvez, não

Quem se pronuncia é mais uma vez Agustina Bessa-Luís, como ela tanto gostava e sabia:

«Quando dos centenários arrastamos corpos pesados do seu próprio esquecimento, devemos pensar se eles foram autênticos desesperados; se eles tiveram no sangue essa fecunda frescura das chuvas novas, ou se levantaram apenas iras, próprias dos melancólicos.

Só os amados se devem ressuscitar. Outros, ainda que ávidos do seu século, rigorosos com o saber e o ajuste dele à ocasião e ao meio, não se chamem, não se convoquem, não se recuperem para outras eras e costumes. Pois o ódio nunca se extingue, se uma vez foi descoberto; ele é como a esperança, mistura-se a tudo o que é disponível, à beleza mesma e ao desejo do bem.» Alegria do Mundo II, Argila e Bronze...

Se a verdade e o amor podem ser extintos, o ódio nunca prescreve. 

 

 

 

 

27.10.22

Cito Natália Correia

Exercícios nucleares russos foram um ensaio para “obliterar” a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, garante responsável

EUA antecipam envio de bombas nucleares ‘melhoradas’ para as bases da NATO na Europa. Começam a chegar em dezembro

«Eu não tenho certezas, mas tenho convicções, e uma das minhas convicções mais firmes é que nascemos para a liberdade. E, no entanto, veja o paradoxo: essa liberdade, esse caminho para a liberdade está a ser cada vez mais obscurecido por aquilo que observamos no nosso mundo de hoje. Nós chegamos a esta coisa terrível, o chamado equilíbrio nuclear, que é o jogo de escondidas de duas disponibilidades criminosas para suprimir a humanidade. A humanidade está hoje pronta (parece que está sempre pronta!) para pôr luto por si própria. Isto não é uma forma humana de viver.» Natália Correia, em entrevista do DN de 11-9-1983. 

 

25.10.22

Da sujidade

Caminho pela direita, a pé. Em sentido contrário, aproxima-se um indivíduo que vem na minha direção e não se desvia... Fico a pensar que o cidadão, talvez,  seja originário das ilhas britânicas.

No lago a limpeza das águas continua já lá vão dois meses. O número de patos não diminui... mudaram-se para a margem oposta àquela em que os trabalhos decorrem.

As eleições decorrem no Brasil. O que é que leva os governantes lusitanos a interferirem na guerra política de outro o país?

Cá no prédio, há quem se entretenha a enviar os elevadores para o 12º andar com paragem em todos os pisos...

E depois há a questão da 'bomba suja' ucraniana, queixam-se os russos. E que pensar da 'invasão suja' russa?

 

19.10.22

Água de Outubro

A moral é da Agustina Bessa-Luís. Roubei-a de uma crónica intitulada 'Água de Maio'... Um lavrador, de visita a um filho deslumbrado com a cultura cosmopolita, respondeu do seguinte modo à pergunta ' - Conhece alguma coisa que possa valer mais do que isto, meu pai?':

- Um dia de água em Maio, lá na terra, vale muito mais .

 

Hoje, chove com alguma intensidade, o que, de facto, vale mais do que todos os planos, todos os debates, todas as acusações que a classe política vai atirando ao vento...

Água de Outubro, em vez de mistificações de bolso...

 

17.10.22

A tristeza do mundo

Tenho aqui ao lado, em planos distintos,  A Alegria do Mundo, da Agustina Bessa-Luís. A leitura deixa-me a sensação de que o título é demasiado subjetivo. Naqueles anos, o mundo não seria assim tão alegre! No entanto, a autora conseguia recriar as ruínas de tempos esquecidos, imaginando, assim, que participava ativamente de uma alma que só na província permanecia viva... Talvez a Sibila lhe tivesse soprado ao ouvido que o pior ainda estava para vir...

De todas as imagens que hoje vi, apesar do espírito festivo de umas poucas, também elas paroquiais, só decorre malvadez e impunidade. 

Várias placas se movem na expetativa de aniquilar uma grande parte da humanidade, como se estivesse em curso uma grande limpeza cósmica ...

 

12.10.22

Divulgação: @

        Sabe qual é a origem da arroba?

Na Idade Média os livros eram escritos pelos copistas, à mão. Precursores da taquigrafia, os copistas simplificavam o trabalho substituindo letras, palavras e nomes próprios, por símbolos, sinais e abreviaturas.

Não era por economia de esforço nem para o trabalho ser mais rápido (tempo era o que não faltava naquela época ). O motivo era de ordem económica: tinta e papel eram valiosíssimos.

Foi assim que surgiu o til (~), para substituir uma letra (um “m” ou um “n”) que nasalizava a vogal anterior. Um til é quase um enezinho sobre a letra.

Já para substituir a palavra latina et (e), os copistas criaram um símbolo que é o resultado do entrelaçamento dessas duas letras: &. Esse sinal é popularmente conhecido como “e comercial” e em inglês tem o nome de ampersand, que vem do and (e em inglês) + per se (do latim por si) + and.

Com o mesmo recurso do entrelaçamento de suas letras, os copistas criaram o símbolo @ para substituir a preposição latina ad, que tinha, entre outros, o sentido de “casa de”.

Veio a imprensa, foram-se os copistas, mas os símbolos @ e & continuaram a ser usados nos livros de contabilidade. O @ aparecia entre o número de unidades da mercadoria e o preço – por exemplo: o registo contábil “10@£3” significava “10 unidades ao preço de 3 libras cada uma”. Nessa época o símbolo @ já ficou conhecido em inglês com at (a ou em).

No século XIX, nos portos da Catalunha, o comércio e a indústria procuravam imitar práticas comerciais e contáveis dos ingleses. Como os espanhóis desconheciam o sentido que os ingleses atribuíam ao símbolo @ (a ou em ), acharam que ele seria uma medida de peso. Para o entendimento contribuíram duas coincidências:

1-  a unidade de peso comum para os espanhóis na época era a arroba, cujo “a” inicial lembrava a forma do símbolo;

2- os carregamentos desembarcados vinham frequentemente em fardos de uma arroba. Dessa forma, os espanhóis interpretavam aquele mesmo registo de “10@£3” assim: “dez arrobas custando 3 libras cada uma”. Então o símbolo passou a ser usado pelos espanhóis para significar a medida de peso arroba.

A palavra Arroba tem origem na palavra árabe ar-ruba, que significa “a quarta parte”; efetivamente a medida de peso arroba (cerca de 15Kg) correspondia a ¼ de outra medida de peso árabe o quintar (quintal) correspondente a 58,75 Kg.

As máquinas de escrever, na sua forma definitiva, começaram a ser comercializadas em 1874, nos EUA e o seu teclado tinha o símbolo @ que posteriormente sobreviveu no teclado dos computadores.

Em 1972, ao desenvolver o primeiro programa de correio eletrónico (e-mail), Roy Tomlinson aproveitou o sentido do símbolo @ “at”, disponível no teclado, utilizando-o entre o nome do usuário e o nome do provedor. Assim fulano@provedorx ficou a significar “fulano no provedor X”.

Nos diversos idiomas o símbolo @ ficou com o nome de alguma coisa parecida com a sua forma:

Ø  italiano - chiocciola (caracol)

Ø  sueco – snabel (tromba de elefante)

Ø  holandês – apestaart (rabo de macaco)

Ø  austríaco – strudel

(extrato do livro: “A Casa da Mãe Joana” – Reinaldo Pimenta)

 

10.10.22

O teste deu positivo...

O teste rápido de antigénio (nasal) deu positivo... No entanto, a Direção Geral de Saúde não recomenda isolamento nem qualquer outra medida específica - talvez a máscara, talvez a lavagem das mãos... e um ben-u-ron de tantas em tantas horas...

Considerando que o teste de antigénio num hospital custa 28,50 e que deixou de haver qualquer tipo de comparticipação, creio que os portugueses já devem ter concluído que há outras formas de esbanjar o dinheiro... Por isso o número de testes diminui. E a morte voltou a ser um acontecimento privado...

 Eu lá paguei o teste. Sonso!

 

9.10.22

O espirro

Será que devo tomar um IVILCO? Porquê este e não outro medicamento?

Ou será que devo esperar para tomar a decisão? 

O quê? Outro espirro?

Hipocondríaco? Talvez.

Esta preocupação só encontra justificação na falta de sentido ... Não há nada pior do que a aposentação dos dias...

Há ainda, no entanto, coisas que não compreendo. Por exemplo, a pesquisa no blog não abrange todos os conteúdos... 

(A temperatura baixou, o sol encolheu-se... e o corpo reage sem razão, se tivermos em conta o que fica dito.)

 

6.10.22

O tempo

Como dissemos, as linhas de demarcação entre passado, presente e futuro modificam-se constantemente, porque os próprios sujeitos para quem um dado acontecimento é passado, presente ou futuro se transformam ou são substituídos por outros. Eles se transformam individualmente, no caminho que os conduz do nascimento à morte, e coletivamente, através das sucessivas gerações (e também de muitas outras maneiras). É sempre em referência aos seres vivos do momento que os acontecimentos se revestem do carácter de passado, presente ou futuro. A sequência social dos “anos que correm” (do ano 1 ao 2000 e além dele) desenrola-se, exatamente como as sequências principais de uma evolução estelar ou biológica, sem qualquer referência a seres humanos determinados. Por esse ponto de vista, entretanto, existe uma diferença entre as sequências de carácter social e as que, alheias ao homem, são de carácter puramente físico. Nas sociedades humanas, a experiência vivida de sua estrutura evolutiva pode contribuir para modelar o desenrolar dos próprios processos sociais. Por isso é que a experiência vivida das sequências de acontecimentos é parte integrante, na ordem social, do próprio desenrolar dessas sequências. Mas isso não acontece com  relação ao que chamamos de “natureza”, isto é, à dimensão física do universo.
Assim, o esclarecimento das relações, por vezes confusas, que se estabelecem entre conceitos temporais do tipo “ano”, “mês” ou “hora” (ou também “antes” e “depois” ) e conceitos do tipo “presente”, “passado” e “futuro” leva-nos a uma conclusão meio inesperada. Os conceitos do segundo tipo não se aplicam ao nível físico, àquilo que chamamos “natureza”, onde a causalidade mecânica passa, com ou sem razão, pelo modo representativo de ligação. Ou então, só se aplicam a ela na medida em que haja seres humanos que remetem a si mesmos os acontecimentos que se desenrolam nesse plano. Os conceitos de “presente”, “passado” e “futuro”, de qualquer modo, só podem relacionar-se com o perpetuum mobile das cadeias causais que compõem a natureza com base numa identificação de carácter antropomórfico, como quando se fala do futuro do Sol.
(…) O presente é aquilo que pode ser imediatamente experimentado, o passado é o que pode ser rememorado, e o futuro é a incógnita que talvez ocorra, algum dia.
Norbert Elias, Sobre O Tempo, 65-66, Zahar, 1998

 

3.10.22

Elucidação

Há um tempo para tudo, dizem os ponderados. De facto, não é assim quando se começa a pensar se devemos eliminar tudo o que esboçámos ou se há algum modo de 'arquivar' os esboços que fomos construindo ao longo da vida - isto quando não há obra feita... Felizes os que souberam fechar a obra! E há muitos, felizmente...

No meu caso, é tudo imperfeito e incompleto, talvez porque a pressa ou a necessidade de cumprir certos objetivos nunca deixou tempo de pausa... ou avançava ou ficava para trás - e o pior é que a paragem arrastava outros que não tinham culpa nenhuma. Há quem chame a este comportamento 'sentido de responsabilidade'...

A esta distância, a responsabilidade dilui-se e fica a dúvida se as apostas diárias foram acertadas ou apenas resultaram de um encadeamento mais ou menos gratuito.

 

2.10.22

Pedaço de mau caminho

Em toda a parte há um pedaço de mau caminho.”

As notícias diárias parecem querer impor a ideia de que só há maus caminhos.

O Governo cede aos interesses; os bispos fazem vista grossa ou os clérigos assediam os indefesos; a União Europeia deixa-se enredar na teia tecida por Moscovo e por Kiev; o Brasil é obrigado a escolher entre quem já deu provas de abuso de poder...

E depois há os fanáticos de todas as cores, de todas as bandeiras, que, em nome da justiça, agem como se o amanhã não interessasse mais...

E depois...

 

 

29.9.22

Afinal, os deuses

Afinal, os deuses são promíscuos e caprichosos e, sobretudo, não abdicam do respetivo poder. Ainda pensei que me poderia refugiar neles, mas basta atentar nos furacões que soltam quase diariamente para deixar de os respeitar.

Quanto aos homens, a sua emancipação (o humanismo) não passou de divertimento de quem deixou de saber preencher o tempo...

Talvez quando o comboio de alto velocidade chegar, com o país mais acanhado nas palavras de um ministro vulcânico, fiquemos ainda mais javardos, palavra nada diplomática como se sabe...

 

27.9.22

Por cá...

A natureza pode ser apenas bela, sem necessitar de servir ou de ser servida. Infelizmente, com o homem tudo é diferente: à beleza prefere o poder de submeter...

E a submissão manifesta-se de muitas formas: uma delas é o espírito da manada...

Há, no entanto, assomos de rebeldia que merecem ser elogiados. Por exemplo, a rejeição da guerra na Rússia ou dos véus no Irão.

Por cá, também há alguns sinais de insatisfação sagazmente aproveitados por aqueles que procuram o poder de submeter enquanto a manada estrebucha.

 

25.9.22

A realidade

Citação:

A realidade, comovida, agradece, mas fica no mesmo sítio/ (…) / Ela sabe que os escritores/os pintores/e quem morre/ não gostam da realidade/ querem-na para um bocado/ não se lhe chegam muito, pode sufocar. (Cesariny, A Cidade Queimada)

No essencial, os mortais não gostam da realidade. Há quem chegue a deitar-se no chão à espera da imortalidade!

 

24.9.22

Um jovem juiz

 O melhor é não dar nas vistas, embora se Juno nos tiver tomado de ponta, pouco possamos fazer para contrariar a sua vontade.

Seguro é que sozinhos soçobramos, a não ser que alguma entidade invisível possa tirar proveito da nossa ação...

Em termos práticos, esta lição tem poucos adeptos. Creio, no entanto, que há cada vez mais associações que exploram a natural fraqueza humana.

Talvez já tenham percebido que me encontro sob a influência virgiliana, apesar de ainda não ter chegado ao fim da Eneida...

Vejo que há por aí um jovem juiz a quem caiu em mãos um processo titânico. Parece que se espera que ele o leia integralmente, o que, certamente, supera em dureza os doze trabalhos de Hércules...

Se ele precisar de ajuda, estou disponível.

Citação:

A realidade, comovida, agradece, mas fica no mesmo sítio/ (…) / Ela sabe que os escritores/os pintores/e quem morre/ não gostam da realidade/ querem-na para um bocado/ não se lhe chegam muito, pode sufocar. (Cesariny, A Cidade Queimada)

 

20.9.22

A sombra

(Nada parece fazer sentido a esta distância. No entanto, nos infernos talvez seja sombra...)

Neste lugar caem, por vezes, ideias que, depois de vistas, são inverosímeis. Por exemplo, pensar que as ideias possam ser visíveis ou invisíveis é absurdo. Ora, como o que mais apetece é a visibilidade, talvez não seja disparate pensar que a crise das ideias está a crescer.

Assim, estão criadas as condições para que a força acabe por esmagar qualquer tentativa de mediação.  Só o que vemos seduz, mesmo que consigo traga a destruição derradeira...

 

A canga

Não me parece correcto que os interesses individuais se queiram sobrepor aos colectivos. Isto não significa que defenda o primado do colectivo sobre o individual, só que há quem abuse, pondo o carro à frente dos bois...

E eu sempre tive uma certa estima pelos bois, nem que fosse porque a canga os tornava submissos...

 

17.9.22

A origem

A origem do quê? Talvez pudesse responder, mas não quero, pois os deuses poderiam levar a mal...

De facto, da origem sabemos cada vez menos. E que importa? O presente já nos basta.

E quanto ao futuro, quem vier que feche a porta.

O que vejo é quase nada e o que oiço menos ainda.

Claro, há sempre quem nos peça a conta como se pagar fosse a forma de fugir ao esquecimento...

Agora que o frio se aproxima, o melhor é desligar a corrente e hibernar, deixando as respostas para outra ocasião.

Desligar das palavras é uma tentação.

 

13.9.22

Chegado setembro

Agora que a chuva regressou, parte das nossas vidas voltou ao normal. A outra parte escapa-nos e, como tal, o melhor é deixá-la seguir o seu curso.... De preferência, com uma pitada de sal e não necessita de ser o dos dominicanos..

(De Águeda às salinas de Aveiro, passando pela Quinta, em São Lourenço do Bairro. O atendimento da Drª Sílvia no solar do século XVIII é exemplar.)

De notar que nesta zona, a água parece não faltar.

 

10.9.22

O que fazer com estes deuses?

Já cheguei ao final do terceiro capítulo da Eneida. Leitura lenta, pois são mais as notas do que o texto...

À época, o mediterrâneo seria um mar assustador, mas o que mais impressiona é, afinal, a questão da responsabilidade. 

A ação humana era totalmente determinada pelos conflitos entre os deuses, cujo código de conduta era inexistente e a promiscuidade absoluta.

A talho de foice, parece que os deuses protestantes são os verdadeiros, pelo menos, para o rei Carlos III.

Por cá, fico com a ideia de que voltámos a ser uma colónia britânica, apesar dos verdadeiros deuses serem outros...

E depois queixam-se da irresponsabilidade humana! 

 

 

 

7.9.22

Dona Lídia

Dona Lídia já fez 80 anos. Trabalha há 56 anos ao serviço de senhores vários, uns terrenos, outros divinos. Continua a assegurar o seu sustento, sempre com um sorriso  e um discurso claro e conciso.

Combate as mazelas, sobretudo do joelho, deslocando-se de bicicleta em São Lourenço do Bairro e redondezas, todas, mais ou menos, ligadas à produção de vinho.

Vive longe das redes sociais, mas não da realidade.

 

5.9.22

No dia do anúncio do bodo aos pobres

No dia do anúncio do bodo aos pobres, convido-vos a pensar na origem da riqueza que tal permite.

Esperemos, no entanto, que Costa não esteja a repetir Sócrates, com as consequências de que muitos ainda se lembram.

 

1.9.22

O sofrimento das vinhas

A visita ao Museu do vinho da Bairrada vale a pena, nem que seja para perceber o sofrimento das vinhas em tempo de míldio.

O que seria, em tempo de Covid, ser injetado com estes instrumentos? E ainda há quem se queixe!

O Museu é muito interessante, mas não 'oferece' prova de vinho... nem vende.

A entrada custa um euro.

 

31.8.22

São Lourenço do Bairro

Por uns dias, vou ficar por aqui... em desassossego. Não deveria ser assim, mas já que cheguei até aqui, vou continuar sem olhar para trás. Talvez leia a Eneida... para melhor me situar.

 

 

 

 

30.8.22

A parturiente indiana

A ministra da Saúde não sobrevive à morte da parturiente indiana. Não vale a pena aprofundar o motivo do pedido de demissão. Só quem andar distraído é que não compreenderá  que a Senhora não tinha outra alternativa...

Bem podem revisitar o histórico, favorável ou desfavorável!

 

28.8.22

Os espinhos da ordem

Ao ver escrito que uma professora foi nomeada bibliotecária escolar contra a sua vontade, a qual iria no sentido de pedir mudança de escola, não posso deixar de pensar nas palavras de Elias Canetti, Massa e Poder, pág 401, edição cavalo de ferro:

«Seja qual for a perspectiva por que a consideramos, a ordem na sua forma compacta e acabada tal como é hoje, após uma longa história, tornou-se o mais perigoso elemento singular na vida comunitária das pessoas. Precisamos de ter a coragem de nos opormos a ela e de abalar o seu domínio. Teremos de encontrar meios e vias para manter afastadas da mesma a grande maioria das pessoas. Não poderemos permitir que ela nos arranhe mais do que a pele. Os seus espinhos deverão tornar-se trepadeiras que possamos desprender com um movimento fácil.»

 

23.8.22

Rabiscos

(Quando não se tem nada para oferecer, o melhor é desaparecer. Para quê insistir no rabisco? O que ficou para trás cai no anonimato... e por lá fica enterrado.)

Hoje, perguntaram-me como é que me tratavam quando ainda podia incomodar. Fiquei perplexo pois, até na identidade, me fui alheando. Houve várias fases de que aos poucos fui escapando: o 'pulo' porque um avô gabarola confessou um dia que tinha saltado sete dornas e meia e os arcos de outra; o 'mata2', por causa de uma placa toponímica facilitadora da memorização de um atencioso enfermeiro; o 'cabeleira', para a maioria,  uma misteriosa alcunha; o 'cabeleira gomes', adotado na academia; e finalmente o 'manuel gomes', porque num certo momento do percurso o normalizador me reduziu ao nome próprio e ao apelido paterno...

Entretanto, fui perdendo o nome, porque a identidade deixou de ser preocupação alheia.

PS. Convém registar que também me identificaram, da cabeça aos pés, com os números /09633075/ e /252/. No último caso, o número colou-se-me de tal modo que ainda hoje o procuro nas peças de vestuário e na lotaria...

 

20.8.22

O Castelo

Manhã cedo. Ninhos artificiais vazios - as aves não se deixam enganar facilmente...

Na linha Verde, carruagens cheias de imigrantes asiáticos seguem para o Rossio e para o Cais do Sodré. Vão ao engano.

Eu saio no Martim Moniz, na esperança de que o corpo preserve o seu segredo, apesar do empenho em atraiçoá-lo...

Distante o Castelo, um corpo estranho que já não engana ninguém.

Ontem! 

E hoje, alguma coisa terá mudado?

 

17.8.22

Os dias

Há quem perca a noção do dia. É um pouco como se não houvesse ontem ou amanhã.  O curso do tempo deixa de obedecer a qualquer convenção humana.

Esta indiferença acaba por provocar sobressaltos em quem sempre se submeteu à disciplina das horas, pois, inesperadamente, os factos misturam-se e a agenda perde grande parte do sentido inicial.

Onde se respira um pouco melhor é no passado: as memórias continuam organizadas, apesar de efabuladas.

A corrente desagua em ilhas singulares, distantes.

 

13.8.22

A intromissão

«Todo o ato de perguntar é uma intromissão.» No entanto, «antes de lhe ser feita a pergunta, uma pessoa, muitas vezes, não sabe o que pensa.» Elias Canetti, Massa e Poder, pp. 345 a 351, ed. cavalo de ferro

 

Ultimamente, tenho evitado fazer perguntas por mais que me apetecesse ouvir as respostas,  porque isso poderia deixar o interlocutor sem saber o que responder...

Por um lado, temo que à falta de perguntas corresponda um alargamento da ignorância e, por outro lado, receio que, afinal, a minha curiosidade não passe de puro abuso.

Fiquemos por aqui, deixemos as perguntas à matreirice de quem, antecipadamente, se preparou para o ofício da dissimulação.

9.8.22

Atos inacabados

Sinto que é meu dever andar devagar, no entanto todos me convidam a andar mais depressa, não por palavras mas por atos inacabados...

Atos inacabados são aqueles que solicitam a nossa a atenção para que os corrijamos, os completemos ou, por vezes, para que os realizemos na sua totalidade.

Pode parecer absurdo, mas o problema resulta mais do meu excesso do que da falta de zelo alheia. 

Afinal, nada se perderia se reduzisse a minha ação a assegurar algum sossego.

A verdade é que por este caminho, mais não sou do que uma assombração num mundo de marionetas.

 

7.8.22

Estar vigilante

Por muito voluntaristas e obstinados que sejamos, pouco podemos fazer... Há sempre uma força que se opõe à nossa vontade e que impõe um rumo adivinhado ou, mesmo, inesperado...

Lutar é certamente uma obrigação, mas, frequentemente, o combate é contraproducente, porque esgota todos os recursos e energias.

Dir-se-ia que o estado de vigília é o que mais se adequa a certas circunstâncias da vida, na expectativa de que o Tejo não seque de vez.

Entretanto, o mar continua por mais algum tempo.

 

2.8.22

O Jorge Saraiva

Conheci-o ali perto já lá vão mais de 20 anos...

Tinha fortes convicções, que sabia defender, mesmo quando a insistência em certos comportamentos lhe podia ser nefasta. Mais do que a vidinha, punha em primeiro lugar a aposta numa sociedade liberta de predadores... Acreditou quase sempre que seria possível construí-la e, para tal, não se poupou a esforços como professor e como agitador de consciências.

O Jorge era amigo do seu amigo, mesmo que, por vezes, a relação se tornasse tensa. Os seus amigos sabem-no bem... Agora partiu, não importando as circunstâncias. 

Enquanto a memória resistir, continuarei a vê-lo do lado de fora do gradeamento do Liceu Camões. À espera do toque, mesmo quando ele deixou de se fazer ouvir.

31.7.22

Parecia algodão

Como materializar a ideia quando se foge dela? 

Ainda cedo, num banco de jardim, o sentimento de vazio instala-se. A pedinte conhece todos os transeuntes e dá bons conselhos a desconhecidos beberrões,  de copo de cerveja na mão, que desafiam os presunçosos portelenses... Bem regados, procuram a briga que evito com um monossílabo impercetível...

Continuo a ler 'A Vida e o Sonho', de Maria Judite de Carvalho, numa edição bilingue, que só atrasa a leitura... 

Falta-me  a coragem do sonhador Adérito que prefere  a rotina à mudança, talvez porque lá, no fundo, não passa de um cobarde incapaz de aproveitar as oportunidades que a vida lhe oferecia ...

«Er fühlte sich alt, fürchterlich alt und müde, sehr, sehr müde. Auch sehr traurig.»

Ele se sentia velho, terrivelmente velho e cansado, muito, muito cansado. E também muito triste.

Parecia algodão, mas os sonhos parecem não querer nada com a vida. Ou serão as circunstâncias?

Como materializar a ideia quando se foge dela? 

 

27.7.22

Sem recuo

Por tudo e por nada, somos convidados a avaliar a nossa última experiência... O problema é que frequentemente não sabemos de que entidade se trata.

Se por algum motivo apanhamos a conversa a meio, já só ouvimos classifique de 1 a 10... e se perguntamos 'o quê', a máquina limita-se a enunciar, verbo inadequado à situação,  a repetir 'classifique de 1 a 10...

Infelizmente, a voz humana deixou de estar presente na comunicação ou surge muito tardiamente...

E é assim quando necessitamos das instituições, ou melhor, das entidades. 

A automatização desumaniza, isola.

 

23.7.22

Do que observo

Apesar de tudo o que se questiona, a realidade é bem mais complexa do que desejamos e, sobretudo, é dinâmica. o que, em muitos casos, traz desorientação e frustração.

Do que observo, sinto que o processo é cumulativo e irreversível para quem não consegue lidar com a mudança social e tecnológica.

Chegámos a um ponto em que a solidão é inultrapassável, porque quando se fica para trás não há palavra que nos demova. 

As promessas vão sendo substituídas e, finalmente, esquecidas...

A palavra já não engrena. Secou.

 

21.7.22

Os símbolos de massa

«O Inglês vê-se como comandante dum navio, com um pequeno grupo de pessoas a bordo, tendo o mar à sua volta e por debaixo de si.»

«O Holandês teve, primeiro, de ganhar ao mar a terra em que habita. (...) O dique é o princípio e o fim da sua vida nacional.»

«O símbolo de massa dos Alemães era o exército. Mas o exército era mais do que o exército: era a floresta em marcha.»

«O símbolo de massa dos Franceses tem uma história recente: é a sua Revolução. (...) A massa, durante séculos vítima da justiça real, aplica ela própria a justiça.»

«Os Suíços têm em comum um símbolo de massa que lhes está diante dos olhos, a toda a hora, e é mais inabalável que o de outro qualquer povo: as montanhas

« Assim como o Inglês se vê como comandante de navio, o Espanhol vê-se como matador. Mas, em vez do mar, que obedece ao comandante, o toureiro possui uma multidão admiradora.»

«A tentativa de impor à Itália um falso símbolo de massa fracassou, para felicidade dos italianos.»

«O êxodo do Egipto - a imagem dessa multidão, que marcha anos e anos, através do deserto, tornou-se o símbolo de massa dos Judeus.

A leitura seguia curiosa e desperta pela pertinência da síntese de Elias Canetti - Massa e PoderMassa e História - só que não encontro referência a Portugal - 'a nação que terá dado novos mundos ao mundo'...

Pensando um pouco mais, a verdade é que só me vem à ideia 'a arraia miúda' que não terá perdurado, porque, afinal, a Ordem de Cristo não passou de uma matilha elitista que rapidamente foi substituída por outros matilhas incapazes de se transformarem em massa - onda que fosse de ilha em continente em movimento sem limite...

Tal como hoje! Ou será que Canetti nos ignorou deliberadamente?

 

 

19.7.22

Se repetida, a lamentação...

A lamentação de pouco serve, se repetida, transforma-se em lamúria... O que me parece estranho é atribuição da responsabilidade aos outros... Se os outros quiserem, o inimigo será destruído. A estratégia não é inocente.

O modelo inspira-se na figura de Cristo. Percorridas as estações, crucificado entre desclassificados, só a lamentação o pode ressuscitar...

Resta saber se o tempo ainda é de prosélitos... Afinal, o espelho já só reflete o contentamento do momento.

Amontoam-se milhões de reflexos felizes, de tal modo que até as tristezas seguem contentes...

 

15.7.22

Ao atravessar uma horta urbana...

As hortas que conheci ficavam fora da aldeia e o percurso para lá chegar nem sempre era fácil. Nessa infância distante, esses terrenos eram pasto de assombração...

Relembro a frescura das águas que ia desviando para os diversos canteiros e o som da nora lentamente arrastada pela burra de serviço...

Hoje, atravessei uma horta urbana bem trabalhada e ensoleirada... e já  não havia nora, nem jumento, nem água encanada...

Apenas um horticultor cuidava da sua plantação com desvelo...

Nas imediações, quatro meliantes dedicavam-se a outras artes, o que me fez pensar na assombração demoníaca de outrora...

 

13.7.22

A esbracejar...

Nos terrenos continua quase tudo por fazer ou, melhor, as autoridades continuam a não dar atenção ao tipo de florestação que desabrocha e cresce à margem de qualquer planificação... Claro que as autoridades sabem multar e condenar, só que não avançam com os recurso humanos e necessários à alteração da paisagem vegetal.

No entanto, nesta época, a matilha da lamentação cresce alimentada pela matilha do voyeurismo. É vê-los a esbracejar nos canais televisivos!

 

 

 

11.7.22

Incinere-se!

As cinzas podem ser partilhadas / guardadas em relíquias. 50% para o Estado... 

As restantes cinzas serão distribuídas pela família, evitando, assim, conflitos desnecessários.

Finalmente, cada beneficiário preservará a respetiva relíquia como bem entender e onde quiser.

Deste modo, o espírito viverá em liberdade sem ter necessidade de se imiscuir nas querelas políticas e familiares.

 

9.7.22

Lamentação silenciosa

A matilha parece querer enfrentar o actual presidente, acreditando ser capaz de abrir brechas no MPLA que, um dia, lhe permitam recuperar o poder. No entanto, receando aterrar em solo angolano, prefere que José Eduardo (Van Dunen) dos Santos seja enterrado na Catalunha, à espera de ventos favoráveis que o levem de regresso à terra natal.

A matilha assiste nos areópagos à destruição da Ucrânia, e ainda aproveita para lhe disponibilizar armas e promessas de apoio financeiro ilimitado que, todavia, terão de ser pagas com eterna vassalagem...

Putim vai continuar impune porque as matilhas russas foram atempadamente amordaçadas ou domesticadas.

 

7.7.22

A encruzilhada

À beira da encruzilhada.   É urgente definir a direção, e o que se nota é a desorientação geral... 

Todos se precipitam para o aeroporto, carregados de armas e bagagens, indiferentes à manobra em curso... 

A razão esmorece e a massa cresce cada vez mais até um ponto de implosão sem retorno.

Nem o Sol consegue atrasar o avanço das matilhas. 

 

 

 

 

3.7.22

Circunscrito

«Para compreender é necessário gizar um quadro relacional onde o maior número possível de elementos textuais integre a maior lógica possível da fala poética-especulativa.» Maria Lúcia Lepecki, DN, 13-01-1991.

Bem sei que a ilustre crítica literária do DN tinha uma missão espinhosa: substituir o papa da crítica impressionista que, apesar de todos os reparos, tinha o bom hábito ler as obras sobre quais emitia juízos abonatórios ou não.

Bem sei que Maria Lúcia Lepecki estava empenhada em esclarecer a mestria de António Ramos Rosa, no entanto não resisto a confessar que não lhe acompanho o raciocínio, sobretudo porque não consigo gizar o quadro relacional das ideias que conduzem os nossos atores neste terreno escorregadio e minado em que vivemos.

Insuficiência minha, certamente.

Ou talvez esse quadro relacional não obedeça a lógica nenhuma e não passe de fala especulativa hipotecada.

Pondo de parte a incompreensão:

 

«Sou um trabalhador pobre

que escreve palavras pobres quase nulas

às vezes só em busca de uma pedra

uma palavra

violenta e fresca

um encontro talvez com o ínfimo

a orquestra ao rés da relva

um insecto estridente

o nome branco à beira da água

o instante da luz num espaço aberto»

            António Ramos Rosa

 

2.7.22

Lá no Brasil...

 O Marcelo está no Brasil. Foi a banhos, colocou / inaugurou um padrão e vai visitar os ex-presidentes, porque o atual não está para selfies, e por isso na próxima segunda-feira não almoça...

No essencial, o que importa a Marcelo é o protagonismo. Não podendo imitar o Cabral do achamento, o Pedro da emancipação, ou a travessia da dupla Coutinho / Sacadura, só lhe resta exaltar o passado, querendo perpetuar uma relação de fraternidade inexistente...

Claro que a travessia hoje é muito mais rápida, sobretudo porque os jesuítas a aceleraram para o bem e para o mal... E depois admiram-se dos desencontros, das desconsiderações, das mentiras...

(Entretanto, por cá, começo a vislumbrar umas notas de rodapé armadilhadas por uns rapazolas do bloco central que prometiam uma indemnização volumosa aos franceses, caso a pista complementar do aeroporto Humberto Delgado não avançasse em breve no solo... No palco, as mentirolas do costume num tempo de memórias reconstruídas, porque não há tempo para leituras e principalmente para aprender a ler.)

 

1.7.22

Não toques nos objetos imediatos

( Não fossem as prisões que construímos, talvez a morte não fosse tão cruel... Do lado de cá das grades, apaga-se o cigarro dos dias... o teu, que outros insistem em replicar em nome da cega liberdade...)

Liberdade, onde estás? Quem te demora?

Quem faz que o teu influxo em nós não caia?

Porque (triste de mim), porque não raia

Já na esfera de Lísia a tua aurora?

 Da santa redenção é vinda a hora

A esta parte do mundo, que desmaia.

Oh!, venha… Oh!, venha, e trémulo descaia

Despotismo feroz, que nos devora!

 Eia! Acode ao mortal que, frio e mudo,

Oculta o pátrio amor, torce a vontade,

E em fingir, por temor, empenha o estudo.

 Movam nossos grilhões tua piedade;

Nosso númen és tu, e glória e tudo,

Mãe do génio e prazer, ó Liberdade.

Bocage (a propósito de 1797)

 

           O Campo de Sant’Ana

Longe, hipócritas vis, longe, impostores

O mentido aparato religioso!

Que um Deus de amor, o nosso Deus piedoso

Abomina, detesta esses horrores.

 De atrozes Leis cruentos guardadores,

Vós curvais ante o Déspota orgulhoso,

E o sangue da pátria precioso

Torpemente vendeis por seus favores.

 Geme protector a humanidade:

E, vós, juízes, vós, tigres humanos,

A imolais sem remorso e sem a piedade.

 Ah! tremei, sanguinários desumanos;

Que ela há-de vir, tremei, a Liberdade

Punir déspotas, bonzos e tiranos.

Almeida Garrett, Coimbra, 1817

 

Libertado Portugal da ocupação das tropas francesas, e após a derrota definitiva de Napoleão Bonaparte, em 1815, formou-se em Lisboa o "Supremo Conselho Regenerador de Portugal e do Algarve", integrado por oficiais do Exército e Maçons, com o objectivo de expulsar os britânicos do controlo militar de Portugal, promovendo a "salvação da independência" da pátria.

Este movimento, liderado pelo General Gomes Freire de Andrade, durante o seu breve período de existência, esforçou-se no planeamento da introdução do liberalismo em Portugal, embora não tenha conseguido atingir os seus propósitos finais.

Denunciado em Maio de 1817, a sua repressão conduziu à prisão de muitos suspeitos, entre os quais o general Gomes Freire de Andrade, Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano (1815-1817), acusado de líder da conspiração contra a monarquia de D. João VI, em Portugal continental representada pela Regência, então sob o governo militar britânico de William Beresford.

Em Outubro de 1817, o tribunal considerou culpados de traição à pátria e sentenciou à morte, por enforcamento, doze acusados. As execuções tiveram no lugar no dia 18, no Campo de Santana. O general Gomes Freire de Andrade foi executado na mesma data, no Forte de São Julião da Barra.

 

Não toques nos objetos imediatos.

A harmonia queima.

Por mais leve que seja um bule ou uma chávena,

são loucos todos os objetos.

Uma jarra com um crisântemo transparente

tem um tremor oculto.

É terrível no escuro.

Mesmo o seu nome, só a medo o podes dizer.

A boca fica em chaga.

       Herberto Hélder 

 

30.6.22

A humildade por estes dias

O estranho é que a humildade parece ser filha da prepotência, mas não, é filha da conveniência. Andam todos a fingir ser o que não são.

Todos procuram a boca de cena, todos procuram o poder, porém não o sabem exercer. Falam em nome do interesse nacional que, no essencial, se reduz ao capital.

A história é antiga, e o que não tem remédio, remediado está. Não se fala mais disso.

Deixem os corvos trabalhar!

 

29.6.22

UBI SUNT?

Na Idade Média, os 'ubi sunt?' veiculavam o desprezo do mundo - o que em Latim se chama contemptus mundi. Cristalizados em torno do imaginário da morte, sentiam-na como decomposição, volta ao pó de que fora feita a fragilidade humana. Negativizando o corpo do homem - e por arrastamento tudo o que o homem tivesse construído de material -, os 'Ubi sunt?' identificavam o humano como indigno, conspurcado e conspurcante. Maria Lúcia Lepecki, DN 8-11-1987

Em princípio, ninguém aspira regressar à Idade Média. No entanto, pelo que observamos, parece que vamos recuando a tempos que, ainda há poucos anos, ninguém queria reviver: a guerra, a corrida aos armamentos, a repressão das mulheres, a abdicação da defesa dos direitos humanos, a desvalorização do trabalho...

Por um lado, o princípio da morte que aniquila cegamente em nome de visões do mundo arcaicas; por outro lado, o princípio do prazer que transforma a 'presa' em objeto de superação narcísica.

Como facilmente se percebe, o fim da humanidade está próximo, mas quem quer saber? E vai sobrar muito carvão...

 

25.6.22

O que não mudou nem muda

Excertos da resposta dada por Luís de Sttau Monteiro à Capital / Vinte anos, publicada no dia 23 de fevereiro de 1988.

«Nem sequer a aparência das coisas se modificou radicalmente com a conquista do poder pela classe média. Esta, para quem a 'abertura' do 25 de abril consistiu apenas na abertura das portas dos conselhos de administração, dos conselhos de gerência, dos conselhos de gestão e, sabe-se lá, de quantas comissões existem para aí, não teve, não tem e nunca poderá ter outro modelo que não seja o que herdou dos seus antecessores. Daí, o tentar assemelhar-se a eles  em tudo: no discurso político, nos locais que frequenta, no vestuário, nos automóveis em que anda, no que come e bebe e na educação que dá aos filhos...»

«Criticávamos as antigas despesas supérfluas, mas nunca imaginámos que as novas atingissem os seus actuais montantes; ríamo-nos das viagens dos políticos do passado, as nunca imaginávamos que tanta gente andasse por esse mundo de Cristo à nossa custa como a que anda agora; os 'tachos' eram motivo para anedotas mas se quiséssemos inventar anedotas acerca dos tachos de hoje, as vinte e quatro horas do dia não chegariam para o fazermos... Se nos lembrarmos do que nos custam os nossos 'representantes' nas organizações europeias, teremos de reconhecer que tenho razão ao dizer que, no nosso quotidiano, nem sequer as aparências mudaram, porque vivemos, como sempre, em dois países: um, riquíssimo, com um tesouro inesgotável, em que vivem os nossos governantes, e outro, pobre e triste, em que vivemos nós.»

«Sempre que se fala, à minha frente, de uma 'política cultural, calo-me, porque não sei de que animal se trata.»

De 1988 para cá, o que é que mudou? Aumentaram os subsídios - a subsidiodependência é um cancro alimentado pelos sucessivos governos... Uma ínfima parte da classe média enriqueceu desmesuradamente, mas grande parte da classe média empobrece todos os dias... Culturalmente, a política é errática... até porque a base, que é o sistema educativo, vive cativa da néscia vaidade.

 

24.6.22

Nunca

... nunca chegarei a perceber por que motivo o ser humano não resiste à tentação de ignorar o vizinho para, quando a situação se proporciona, o invetivar ou mesmo o agredir.

... nunca chegarei a perceber por que motivo as televisões desrespeitam permanentemente as vítimas da maldade humana, ampliando bestialmente comportamentos indignos, dando-lhes um estatuto de exemplaridade monstruosa.

... nunca chegarei a perceber o papel das autoridades de justiça e de polícia, que andam sempre atrasadas, apesar de se confessarem tristes e revoltadas...

... nunca chegarei a perceber por que motivo o filho de um antifascista, perseguido durante o Estado Novo, vem agora defender que em Portugal o fascismo era provinciano. Ter-lhe-á faltado, certamente, o cosmopolitismo de Mussolini ou de Hitler!

... nunca chegarei a compreender por que motivo o Supremo Tribunal dos Estados Unidos reverteu esta sexta-feira uma decisão sobre o direito ao aborto, que dita uma mudança na lei e deixará de proteger constitucionalmente uma mulher que faça um aborto.

... e nunca chegarei a perceber por que motivo as repetidas declarações de amizade viajam tão sós, deixando os ucranianos à mercê do novo Czar...

 

20.6.22

O beijoqueiro

Não podendo reivindicar o estatuto de self-made man, vê na selfie a expressão entercenadora da sua afirmação.

Saudoso da Pátria, elege o Povo de antanho como lema...

Mimado desde as palhinhas, decidiu recriar a Mátria no ventre úbere que cruzou no arraial... 

Tudo nele é impulsivo, apesar dos detratores o retratarem como calculista. Entretanto, já falta pouco para o São João... vamos ver se veste a pele do cordeirinho...

 

16.6.22

O fogo assassino

Se Ele se perde na Cruz,

vejo cinza.

O madeiro sucumbe à ânsia esfarelada

das notas desafinadas

num país ocupado.

Desafiado, a Cruz carrega-o,

os crentes escavam 

a cinza sob o fogo assassino.

(4 reis magos estão de visita a Kiev.)

 

16.6.22

ERRO

O utilizador escolheu deixar de utilizar a plataforma: A acção tentada não é permitida, uma vez que o utilizador escolheu deixar de utilizar a plataforma do Facebook.

Na verdade, não escolhi nada... De repente, deixei de poder reencaminhar para o Facebook...

Provavelmente, será melhor assim - aceitemos o que a natureza nos oferece, mesma que esta seja humana ou algorítmica... O problema é que há sempre alguém nos bastidores.

 

15.6.22

Fora do tempo e do espaço

FORA DO TEMPO, NÃO HÁ VIDA. NÃO HÁ VIDA, FORA DO ESPAÇO. 

Já estou a ver o clamor da massa: Mentira!

Infelizmente, as massas só podem expandir-se no tempo e no espaço até se desintegrarem ou verem o território, que foram conquistando, arrasado.

 

O medo do crescimento da massa é frequentemente um factor poderoso para que alguém a queira estourar de fora. Alguém a quem falta tempo para a ver estourar por dentro.

Sim, porque, apesar da direção da massa lhe apontar o infinito, o tempo encarrega-se de lhe abrir brechas irremediáveis...

E neste caso, as balizas não são o nascimento e a morte...

Mentira, dirão! Passem bem enquanto podem... de preferência, acordados.

 

13.6.22

No dia de Santo António

No dia de Santo António

Todos riem sem razão.

Em São João e São Pedro

Como é que todos rirão?

 Fernando Pessoa

 

No dia do Santo e do Poeta, relembro a 'visão' de Karl Kraus, Os últimos dias da Humanidade:

«Um campo de batalha. Crateras e covas. caminhos através do arame farpado que ainda se mantém. Chegam automóveis de luxo. Os turistas dividem-se em grupos, tiram fotografias uns aos outros em posições heroicas, imitam salvas de tiros, riem e lançam gritos. Um deles encontrou um crânio, espeta-o na ponta da bengala e passeia-o com uma expressão de triunfo. Um homem enlutado intervém, apossa-se do achado e enterra o crânio.» (Gemidos dos adormecidos. A visão desaparece.)

 

10.6.22

Peço desculpa a Sua Excelência

Tomando sempre novas qualidades

Não sei se, neste 10 de Junho, a pena camoniana foi exaltada mas, pelo que vi na televisão, não faltaram nem as armas nem os barões... tudo justificado pela nossa participação nos campos de Marte. 

O Presidente Marcelo reiterou o contributo do povo  desde os montes hermínios aos dias do futuro apocalipse. 

Para Sua Excelência o povo é o mesmo de sempre, o que me surpreende. 

Quando olho à minha volta, vejo cada vez mais indianos, chineses, paquistaneses, bengalis, nepaleses, brasileiros, cabo-verdianos, guineenses, angolanos, moçambicanos, magrebinos, ingleses, franceses, ucranianos, moldavos...

 Parece-me que Sua Excelência tem uma visão redutora e estática do seu tão amado povo. E é pena!

 

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Muda-se o ser, muda-se a confiança;

Todo o mundo é composto de mudança,

Tomando sempre novas qualidades.

       Camões

Parafraseando Pessoa no dia Camões, Sua Excelência quis dizer que 'a sua pátria é o povo português' de Outrora... Quanto ao da agora, o tempo o dirá.

 

8.6.22

As pessoas podem ser...

As pessoas podem ser amorosas, antipáticas, palavrosas, taciturnas, inocentes, nocivas, cruéis... Se disséssemos que as pessoas são, isso seria uma aberração, pois não teriam capacidade de adaptação, melhor dito, não teriam capacidade de distanciamento, de avaliação...

Mas, infelizmente, há pessoas que são uma aberração, e não assim tão poucas como nos agrada pensar... Não nasceram monstros, mas aos poucos foram perdendo o sentido da humanidade. 

Isto é o que me é dado pensar quando oiço as afirmações do senhor Lavrov, pessoa nascida em 1950, e ministro das Relações Exteriores da Rússia, desde 2004.

Tudo aconteceu quando um jornalista da televisão pública da Ucrânia questionou Sergei Lavrov sobre as alegadas acusações de "roubo de cereais" por parte da Rússia. “Daquilo que foi roubado à Ucrânia, além dos cereais, o que é que a Rússia já conseguiu vender", perguntou o jornalista ucraniano ao ministro russo, que não hesitou em responder ao devolver a acusação. "Vocês, ucranianos, estão sempre tão preocupados com aquilo que podem roubar que pensam que fazem todos o mesmo."

 

4.6.22

Está tudo bem!

Lá longe, os mísseis destroem tudo o que tocam e como recordação deixam crateras, onde os mortos podem ser definitivamente esquecidos...

Aqui perto, há pão com sardinhas e vinho a rodos a pretexto dos santos populares. Coitados dos santos, que nada fizeram para alimentar tal regabofe! 

Viva a festa! O que é necessário é desbastar a floresta humana, com ou sem covid. 

Por dentro, o enigma mantém-se imperscrutável, não deixando adivinhar se a paz é mesma necessária... Assim, está tudo bem!

Cada vez mais distante, à espera do intangível...

 

3.6.22

A doença de Putin

Ainda não tinha pensado nisso, mas a Rússia de Putin talvez não seja muito diferente do Portugal de D. Sebastião: pestes várias, oligarquias predadoras, dissolutas e despóticas, miséria dos povos e, sobretudo, alienação da juventude, objeto  do fascínio pelo decadentismo ocidental ou, em alternativa, vítima de catequização patriótica... 

Incapaz de resolver a questão interna, Putin prefere, tal como D. Sebastião ao  intervir militarmente em Marrocos, a intervenção nos territórios vizinhos, de modo que o História o consagre como um homem providencial...

Um destas manhãs de nevoeiro, Putim desaparece, deixando atrás de si uma auréola de audácia à custa da destruição de milhares de vidas e do empobrecimento de milhões de indivíduos...

De qualquer modo, o/a esferovite já garantiu um lugar na (re)construção.

O ESFEROVITE, poliestireno expandido, airpop ou EPS é um plástico celular e rígido que se pode apresentar numa multitude de formas e aplicações. O Esferovite é uma espuma de poliestireno moldada, constituída por um aglomerado de grânulos, e é o material utilizado para placas para isolamento na construção civil, para embalagens e para muito mais aplicações. Os grânulos podem também utilizar-se soltos. )

 

1.6.22

O dia 32 de maio

 Apesar do mal absoluto, há sempre um Palhaço que procura divertir as crianças, mesmo que isso signifique convencê-las que hoje é o dia 32 de maio...

Felizmente que não lhe passou pela cabeça apelar a qualquer tipo de patriotismo que as tornasse diferentes umas das outras...

Um Palhaço, que se preze, procura eliminar fronteiras e não impô-las, como certamente aconteceu hoje, em muitos outros lugares, onde falsos palhaços se apresentaram como 'senhores' de corpos e almas...

 

28.5.22

O mal absoluto

A publicação em livro d' Os últimos dias da Humanidade, de Karl Kraus, data de 1922. O texto original é constituído por 209 cenas em que Kraus 'encena' o teatro da guerra em todas as suas dimensões... a guerra como mal absoluto...

Na atual situação, para mim absurda, embora para os beligerantes seja a ultima ratio, decidi reler a obra... e sem mais delongas, passo a citar:

O OPTIMISTA: Mas então não é indiferente qual a arma que causa a morte? Até onde é que o senhor está ainda disposto a acompanhar o desenvolvimento técnico das armas?

O ETERNO DESCONTENTE: Até nenhum sítio, mas se tiver mesmo que ser, o máximo que vou é até à besta. É claro que, para uma humanidade que acha que o fundamental da vida é matarmo-nos uns aos outros, é indiferente a maneira como trata da questão, e a liquidação em massa é mais prática.

Relembro que estas cenas começaram a ser escritas em 1915...

 

27.5.22

A (des) Humanidade

Uma parte da Humanidade destrói outra parte da Humanidade. No entanto, a Humanidade não se esgota nessas duas partes... Há uma terceira parte que assiste à destruição, alheando-se ou beneficiando mesmo dessa aniquilação...

A expressão da situação é repetitiva, contraria as regras da escrita fina, mas tal como na guerra, as regras não se aplicam ao contrário do que defende a diplomacia. Guerra é guerra. Cobardia é cobardia.

Ainda se esta guerra fosse a dos 'últimos dias da humanidade', mas não, estes últimos dias são apenas os últimos de todos aqueles, visíveis ou invisíveis, que já não podem ter esperança porque o tirano continua a agir sem verdadeira oposição, aproveitando o nosso cansaço, a nossa desatenção, o nosso egoísmo.... na Ucrânia, no Afeganistão, na Síria, na Palestina, na Venezuela, no Brasil, na Africa,  quase toda, nas explorações agrícolas, nas fábricas, debaixo dos tetos dourados ou arruinados, debaixo das arcadas, nos vãos de portas, nos hospitais, nos lares...

A destruição da Humanidade está em marcha, mas ainda não é a dos últimos dias... 

 

21.5.22

Nós e a guerra...

Por aqui já não se vai à guerra! No entanto, há sempre quem vá visitar as ruinas deixadas pela guerra... 

Em segredo, de capacete e colete à prova de bala, atravessa-se as ruas esventradas pelos mísseis inimigos, esperando que as televisões tenham captado o sentimento de horror e, sobretudo, a oferta de que Portugal solidário está pronto para reconstruir os jardins de infância e as escolas...

Só espero que não entreguem à Parque Escolar  tal projeto de reconstrução!

Ressalve-se que, desta vez, o Marcelo tirou o tapete ao Costa, ao destapar o segredo, pois o impediu de entregar os velhinhos blindados M113A, que nos foram vendidos há 30 anos pelos americanos... 

De qualquer modo, o Marcelo já foi convidado para ir a Kiev e iremos vê-lo à frente da coluna de blindados...

 

19.5.22

Pessoa de todas as horas

Fernando Pessoa "manteve-se na infância sem construir uma identidade", diz biógrafo Richard Zenith

Não sei, mas duvido. Creio que Fernando Pessoa não só construiu uma identidade, como foi imaginando muitas outras para se libertar da solidão...

Por outro lado, a identidade não resulta apenas da vontade individual - ela é tecida pelas circunstâncias  em que o ser se desenvolve... E Fernando Pessoa cresceu em circunstâncias muito particulares.

Por muito que apeteça dissecar o ser através da obra legada, convém não esquecer que o Ser não se confunde com o produto da sua imaginação por mais poderosa que ela seja, não se confunde com o desvio libidinal de que possa ser acusado ou encomiado.

Bem cedo, Pessoa começou a construir a sua identidade, como a maioria dos pessoanos bem sabe... É uma realidade a que ninguém escapa, mesmo que os frutos possam nunca amadurecer.

 

17.5.22

Perto ou longe

Perto ou longe, uma criança nasce...

e a morte, perto ou longe, perde sentido...

Herodes foi tirano único.

Putin está a destruir a Ucrânia.

Nem que recorra a todas as armas,

 perto ou longe, uma criança nasce

... e tudo recomeça

e a morte perde sentido.

Perto ou longe, uma criança nasce...

Desde que uma criança nasça, 

pode-se morrer sem desespero.

 

15.5.22

Ernst Jünger em Angola

«Quilumbo, 26 de Outubro de 1966

José, o criado preto, falava fluentemente alemão, e isso deixou-nos admirados. A coisa explicava-se porque desde criança - era órfão, suponho - ele foi criado nesta casa e numa convivência íntima com o patrão.

Viveram juntos o momento da revolta (1961). Durante a fase mais crítica, as mulheres e crianças foram enviadas para o litoral, os homens ficaram na fazenda. Os criados da casa, que estavam ao lado dos patrões, foram sujeitos a chantagens. O plano previa três fases e o assassinato de todos os brancos. Mas fracassou logo na primeira, que só por si já fez correr sangue a mais. Os detalhes, pensados do outro lado do Congo, eram demasiado sofisticados para os indígenas.

Como quem não quer a coisa, o Senhor Smidt perguntou ao José: 'E quem é que vos ia pagar se nós não estivessemos cá?' E ele caiu na armadilha: 'Foi isso mesmo que eu sempre lhes disse.'

(...) A propósito da pergunta de Smidt van Dunge: se um negro que foi fiel durante trinta anos de repente se torna inimigo, a explicação só pode estar na natureza da dominação. Ele será fiel enquanto for dominado. E começa a pensar na sua própria pele quando o senhor deixar de se sentir seguro no seu lugar. A moral cede à física; não é louvável, mas é humano, (...). (Tradução de João Barrento de excertos de Siebzig verweht I, 1980.)

A natureza da dominação continua a ser uma questão essencial no despoletar dos conflitos. No entanto, a informação tende a tratar tudo de forma uniforme e unilateral. Parece que a barca se inclina sempre para o lado do dinheiro...

 

13.5.22

Dissonâncias 2

«A notícia do dia, de tão repetida e comentada, ofende os ouvidos de quem ousa ligar o aparelho de televisão.» Caruma, 11.12.2021

Hoje, sexta-feira, dia 13, de manhã à noite, a morte de Rendeiro, numa cadeia de alta segurança na África do Sul, virou tema dominante. Dezenas de comentadores repetem o óbvio. 

As cerimónias de Fátima perderam fulgor e a guerra na Ucrânia ficou mais longe.

Desconfio que Rendeiro acabou por encontrar a fórmula para nos lembrar que, por cá, há muito tempo que o rei vai nu e que a Corte se vinga do parvenu.

 

11.5.22

A explicação raramente é óbvia

A Fidelidade e a Traição

Amara-a desde a infância até ao dia em que a acompanhara ao cemitério, e ainda continuava a amá-la em recordações. Por isso pensava que a fidelidade é a virtude mais importante, que é a fidelidade que dá unidade à nossa vida, que, sem ela, se dispersaria em mil e uma impressões fugidias.

Talvez por um cálculo inconsciente, Franz falava frequentemente da mãe a Sabina: supunha que ela ficaria seduzida com a sua aptidão para a fidelidade, o que era uma boa maneira de guardá-la ao pé de si.

Só que o que seduzia Sabina era a traição e não a fidelidade. A palavra fidelidade fazia-lhe lembrar o pai, provinciano puritano e pintor de domingo; os seus temas prediletos eram os pores do Sol atrás da floresta e as jarras com ramos de rosas. Graças a ele, começou a desenhar muito cedo. Aos catorze anos, apaixonou-se por um rapaz da sua idade. O pai teve medo e proibiu-a de sair sozinha durante um ano. Um dia mostrou-lhe algumas reproduções de pinturas de Picasso e fez muita troça delas. Sabina então pensou que, já que não podia amar um rapaz da sua idade, ao menos podia apaixonar-se pelo cubismo. Depois de acabar o liceu, foi estudar para Praga, com a reconfortante impressão de poder finalmente começar a trair a família.

A traição. Desde criança que ouvimos os nossos pais e os nossos professores repetir que é a coisa mais abominável que pode ser concebida. Mas o que é trair? Trair é sair da fila e partir em direcção ao desconhecido. Para Sabina não há nada mais belo do que partir para o desconhecido.

Inscreveu-se na escola de Belas-Artes, mas lá não lhe era permitido pintar à maneira de Picasso. Nessa altura, era obrigatório praticar aquilo a que chamavam realismo socialista e as Belas-Artes eram uma fábrica de produzir retratos dos chefes de Estado comunistas em série. Não podia satisfazer o seu desejo de trair o pai porque o comunismo não era senão um outro pai, igualmente severo e limitado, que lhe proibia não só o amor (era uma época de puritanismo) como também Picasso. Casou-se com um actor medíocre de Praga, unicamente pela sua reputação de excêntrico e por ser totalmente inaceitável aos olhos dos seus dois pais.

Depois a mãe morreu. No dia seguinte, ao voltar a Praga depois do enterro, recebeu um telegrama: o pai matara-se com o desgosto.

Ficou cheia de remorsos: era assim tão mau o pai pintar jarras com rosas e não gostar de Picasso? Era assim tão censurável ter medo que a filha engravidasse aos catorze anos? Era assim tão ridículo não ter conseguido viver sem a mulher?

Encontrava-se de novo prisioneira do desejo de trair: tratava-se agora de trair a sua traição original. Anunciou ao marido (tinha deixado de ver o excêntrico para só se sentir incomodada pelo bêbado) que ia deixá-lo.

Mas não se trai B., por causa de quem se traiu A., para nos irmos reconciliar com A. Depois do divórcio, a vida da pintora não passou a assemelhar-se em nada à vida dos pais que traíra. A primeira traição é irreparável. Por reação em cadeia, provoca outras traições que fazem a pessoa afastar-se cada vez mais do ponto da traição inicial.

 Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser.

Em 1996 coloquei numa prova de exame nacional - Literatura Contemporânea - o texto transcrito.  À distância, a escolha  não é fácil de explicar.

Entretanto, alguma coisa deve ter mudado significativamente. O que me parece é que há acontecimentos a que não damos a devida importância... e depois já é tarde, habituamo-nos.

É como na invasão russa. Não agimos no imediato, e depois acomodamo-nos...

 

9.5.22

O tempo idiomático e o tempo cultivado por Agrário

(A intenção não foi obviamente essa, mas a frase depreciativa “não adianta, nem atrasa”, aplicada a alguém ou a alguma coisa que pouca ou nenhuma contribuição dê para a solução de determinado problema, é aplicada à relojoaria, uma defesa dos relógios mecânicos.)

Há pessoas que são “relógios de repetição”

“Acertar os relógios”

Alguém é “como um relógio”

Tempos imemoriais (passado muito remoto)

Tempo morto (período de ociosidade)

Tempo útil (prazo legal)

A seu tempo (na ocasião própria)

Atrás do tempo, tempo vem! (exclamação para aconselhar que se espere com paciência por novas oportunidades...)

De todos os tempos

Em dois, em três tempos

Aproveitar enquanto é tempo

Arranjar tempo

Dar tempo ao tempo

Entreter o tempo

Pisar o tempo (fugir)

Tomar tempo a alguém

Tempo da pedra lascada (paleolítico)

Tempo em que Judas perdeu as botas

Tempo das vacas magras / das vacas gordas

 

As horas canónicas, em que os padres rezavam os ofícios divinos: a hora de prima (ao romper do sol); hora de terça (9 do dia); hora de sexta (meio-dia); hora de nova (3 da tarde); hora de véspera (6 da tarde); horas completas (depois do anoitecer).

Relógio = coração

Relógio = estômago

Ter “a barriga a dar horas” (ter fome)

O relógio da morte (o caruncho)

“Relógio de Almada” = “o burro quando zurra”

 

Camões, Écloga II: “Ao longo do sereno / Tejo...” - excerto.

Mas tu, Tempo, que voas apressado,

Um deleitoso estado quão asinha

Nesta vida mesquinha transfiguras

Em mil desaventuras, e a lembrança

Não deixas por herança do que levas!

Assim que, se nos cevas com prazeres,

É pera nos comeres no melhor.

Cada vez em pior te vás mudando;

Quanto vens inventando, que hoje aprovas,

 Logo amanhãs reprovas com instância!

 Ó estranha inconstância tão profana

  De toda a cousa humana inferior,

  A quem o cego error sempre anda em anexo!

  Mas eu de que me queixo? Ou que digo?

Vive o Tempo comigo, ou ele tem

Culpa no mal que vem de cega gente?

Porventura ele sente, ou ele entende

Aquilo que defende o Ser Divino?

Ele usa de contínuo seu ofício,

Que já por exercício lhe é devido:

Dá-nos fruto, colhido na sazão

Do fermoso Verão; e no Inverno,

Com seu humor eterno congelado,

Do vapor levantado co’a quentura

Do Sol, a terra dura lhe dá alento,

Pera que, o mantimento produzindo,

Estê sempre cumprindo seu costume;

Assim que, não consume de si nada,

Nem muda da passada vida um dedo,

Antes sempre está quedo no devido,

Porque este é seu partido e sua usança;

E nele esta mudança é mais firmeza.

Mas quem a Lei despreza e pouco estima

De quem lá de cima está movendo

O Céu sublime e horrendo, o Mundo puro,

Este muda o seguro e firme estado

Do tempo, não mudado da Verdade.

Não foi naquela idade de ouro claro

O firme Tempo caro e excelente?

Vivia então a gente moderada;

Sem ser a terra arada, dava pão;

Sem ser cavado, o chão as frutas dava;

Nem chuva desejava, nem quentura:

Supria então Natura o necessário.

Pois quem foi tão contrário a esta vida?

-  Saturno, que, perdida a luz serena,

Causou que, em dura pena desterrado,

Fosse do Céu deitado, onde vivia,

Porque os filhos comia que gerava.

Por isso se mudava o Tempo igual

Em mais baixo metal; e assim descendo

Nos veio, enfim, trazendo a este estado...

 

7.5.22

Não sei quem é o Speer de Putin

Para os megalómanos, destruição e construção encontram-se lado a lado ... Arrasam-se cidades para construir novas cidades, com avenidas maiores, com arcos de triunfo mais altos, para que a superação seja inultrapassável e inquestionável; aos seus olhos, os próprios povos ganham mais densidade, mesmo que a expansão seja aniquiladora, pois as vitórias  legitimadoras acabam sempre em derrota...

Poupa-se Paris para construir uma nova Berlim que ofusque definitivamente a cidade das luzes. Invade-se a Rússia para superar Napoleão...

No entanto, no caso da Rússia, não se percebe o que é que Putim quer construir que lhe assegure a imortalidade por mil anos... Eu, pelo menos, não sei quem é o SPEER de Putin...

( Para quem queira entender o desvario do atual czar russo, recomendo a leitura de alguns dos ensaios do livro de Elias Canetti, A Consciência das Palavras.)

Do Segredo e Singularidade, cito: 

«O círculo mais restrito que rodeia Hitler na residência de Obersalzberg (...) é constituído pelo bem experimentado fotógrafo, o motorista, o secretário, a amiga, duas secretárias, a cozinheira dietética e, por fim, mais uma pessoa de um género completamente diferente, o seu arquiteto particular. Todas elas, com esta única exceção, foram selecionadas segundo o princípio da utilidade mais primária.» 

 

5.5.22

A língua da rosa

O repuxo segura o fluxo, filtrando um murmúrio de queda de água...

O utente espera uma consulta salvífica das quedas recentes, como se o diagnóstico resolvesse por si a dor própria e alheia... Mais longe, o som plangente não consegue delimitar o sonho avesso à realidade. 

Só a rosa parece conhecer o caminho, indiferente às cores que a cercam - espinhos protegem-na muito para além do seu tempo de vida...

Se a rosa escrevesse, a língua dela seria de pétalas...

No desastre de Mariupol, nem sequer há espinhos!

 

 3.5.22

Se escrevesse cartas

Se escrevesse cartas várias vezes ao dia, e estas ainda fossem respondidas e entregues antes da lua chegar, então registaria que ao acordar logo a dor lombar se sobrepôs ao sol escondido pelos estores fechados... Claro que o destinatário deveria ser masoquista e nada ter para fazer, a não ser o registo sumário de minudências do quotidiano...Tempos houve que o destinatário dessas missivas se prestava a ser incomodado sem nada receber em troca, exceto uma atenção doentia e estéril...

E talvez lembrasse o amigo distante que partiu para o Brasil quando o Sol abrasava a cidade, e do qual, hoje, nada se sabe ou, talvez, haja quem saiba, mas ele tenha decidido que não quer ser incomodado com cartas de falso arrependimento... 

E também poderia recordar o outro amigo, escritor, que já não responde a e-mails porque se fartou da humanidade ou, melhor, da falta dela...

E ainda poderia escrever uma carta à Ucrânia, mas não sei se os bombeiros entregam cartas, já que deixei de ouvir falar de carteiros. Daqui, donde observo a Ucrânia, estou sem perceber se os códigos postais ainda são válidos ou se os russos os roubaram, porque odeiam os mensageiros... 

De qualquer modo, evitaria escrever à Ucrânia por causa do meu hábito de me queixar por tudo e por nada...  pois tudo o que ela me poderia responder acabaria por incomodar-me terrivelmente, mesmo se ela não me pedisse armas... apenas que a libertassem dos jogos de poder.

 

2.5.22

Se Kafka...

Se Kafka passasse por aqui antes de se ter transformado, aproveitaria para tudo anotar. 

Da greve da rodoviária à hipótese da roupa ficar por engomar, deixando para as 6:30 de amanhã o toque do despertar...

Da passagem matinal pelo supermercado à descoberta tardia de que o vistoso e apetitoso saco de fruta  escondia maças podres de alcobaça...

Da dificuldade em lidar com quem esquece atos recentes e guarda na memória vívidos episódios de outros tempos...

Das dores cuja intensidade é difícil de avaliar, mas que exigem uma torrente de analgésicos, de ansiolíticos e de hipnóticos... 

Dos passeios esburacados, inclinados, enraizados... dos degraus inesperados, dos olhos que abandonam os pés...

Das exigências, dos queixumes... dos espelhos que dá vontade de quebrar ou de eliminar de vez...

 

1.5.22

Suspenso pelo Meta / Facebook

A publicação de Uma Ideia Insensata teve como efeito uma suspensão de 48 horas, pois terei ofendido a Comunidade.

Afinal, a hipótese de que os americanos podem tirar proveito da invasão da Ucrânia pela Rússia sempre é 'insensata'.

Quanto à liberdade de expressão, é melhor não sair dos carris. 

Entretanto, vou seguir o exemplo dos pombos...

 

30.4.22

Uma ideia insensata

Para terminar este trágico mês de abril, em que alguns continuam a celebrar o passado enquanto outros são chacinados ou obrigados a fugir do chão que os viu nascer ou os acolheu, vou anotar aqui uma ideia insensata: os americanos, mais do que a vitória da Ucrânia, desejam a derrota da Rússia.

Lá no fundo, os americanos sabem que tal vitória ucraniana só será possível com o envolvimento direto da Europa, o que significa que, no melhor dos cenários, os povos da Europa também sairão muito mais pobres...

Esta ideia pode parecer insensata, mas surgiu-me quando li que o Pentágono está a pressionar o governo português para que envie para Kiev um conjunto de blindados de lagartas do modelo M113A, de fabrico norte-americano, que se encontram no Campo Militar de Santa Margarida há quase 30 anos - veículos já em vias de obsolescência tecnológica

Enviar equipamento obsoleto não compromete os americanos, mas dá um sinal errado aos russos. E como bem sabemos, esta guerra não é só contra a Ucrânia, serve os interesses americanos e chineses, por mais que eles digam o contrário.

 

25.4.22

O pavor de Putin

Bem sei que no dia 25 de Abril recuamos no tempo e por lá ficamos umas horas, perdendo-nos em citações, umas mais poéticas outras mais grotescas... e poucos levam a mal.

No entanto, hoje, as minhas citações obedecem a uma preocupação distinta. Vou citar Elias Canetti, com uma singela recomendação. Procurem ler atentamente o ensaio PODER E SOBREVIVÊNCIA, publicado em 1962:

  • Entre os fenómenos mais sinistros da história intelectual humana encontra-se a fuga ao concreto.
  • O autêntico intuito do poder é tão grotesco como incrível: ele quer ser o único. Quer sobreviver a todos, para que nenhum lhe sobreviva. É a todo o custo que ele é quer escapar à morte e, portanto, não deve haver ninguém, mesmo ninguém, que lhe possa causar a morte. Enquanto houver pessoas, sejam elas quais forem, ele nunca se sentirá seguro. 
  •  

23.4.22

O Primo Basílio, porquê?

Um pulha flaubertiano que atravessa incólume o romance. No entanto, Eça de Queirós dá-lhe a capa...

Da Srª D. Luísa Mendonça de Brito Carvalho, o que dizer?  Apesar da nefasta leitura de romances românticos, o que parece ter-lhe desfeito a felicidade conjugal terá sido a partida do marido para o Alentejo, ausência aproveitada pelo retornado primo. O estrangeirado fascinou-a! 

A hipótese de Luísa conhecer o Mundo reduz-se ao viajado e experimentado Basílio. Afinal, o engenheiro Jorge vive num espaço fechado, cercado de amigos sem grandes ambições... a não ser  Acácio, 'a figura digna do Conselheiro'. 

Só que Acácio representa uma dignidade retrógrada, uma caricatura de um zelo artificioso, de um saber bafiento, de uma seriedade questionável... valores estes premiados com o grau de cavaleiro da ordem de Sant'Iago.

Não fossem a Juliana e o Julião, tudo no romance cheiraria a ranço, e não sei se valeria a pena propor a leitura do 'Primo Basílio' a quem quer que fosse, embora destas duas personagens também não haja nada a esperar... a revolta social esfuma-se num aneurisma, e a revolução não passa de uma ameaça inconsistente.

E o estilo? Esse fica para os estilosos...

 

 

18.4.22

Os estrénuos defensores da Terra... e a guerra

Não percebo o que é que está a acontecer com os estrénuos defensores da Terra.

Ainda não há muito, moviam céus e terra para estarem presentes no palco mediático, defendendo as energias limpas, combatendo a desflorestação, apelando à descarbonização e, sobretudo, à mudança da mentalidade consumista e predadora de recursos...

Agora que a Rússia tudo põe em causa, destruindo, de forma sistemática, o território e todas as espécies que nele coabitam, sabotando os esforços, entretanto, encetados para preservar a Terra, os estrénuos defensores da Terra parece que optaram pelo silêncio cúmplice...

 

15.4.22

O ator não perece, mas falece a pessoa...

Por uns tempos, o ator não perece, mas falece a pessoa...e se alguma coisa sobra é a máscara... A Eunice vai continuar por cá na memória de uns tantos, mas não para sempre...

E as personagens vão continuar a ser reinventadas, esperar-se-ia que para sempre... 

No entanto, noutros palcos, há certas pessoas que se imaginam imortais... e que apostam tudo no aniquilamento da vida, querendo  convencer-nos que os seus gestos são nobres...

Esses atores proclamam a palavra e, ao mesmo tempo, disparam as armas... cada vez mais mortíferas.

E nós assistimos serenamente, esperando que um dia as forcas se erguerão das cinzas... Só que nessa hora não haverá ressurreição possível!

 

10.4.22

Aquele que tem plena autoridade

Neste período difícil para nossa pátria, que o Senhor ajude a cada um de nós a nos apoiarmos mutuamente, inclusive em torno do governo, e que ajude o poder a ser responsável pelo povo e a servi-lo com humildade e boa vontade, inclusive dar a sua própria vida.”, disse Cirilo I na missa do dia 10 de março, em Moscovo

Cirilo: 'aquele que tem plena autoridade' para se sujeitar a Putin... 

Que mais dizer? A Igreja lá, como em muitos outros lugares, no passado e no presente, continua ao serviço dos ditadores megalómanos que continuam a alimentar sonhos imperiais anacrónicos...

 

 

7.4.22

Por onde é que andam os satélites?

«Além de ajudar a prevenir os impactos de eventos naturais, os satélites também fornecem dados da atuação humana irresponsável ou até mesmo ilegal, conforme leis nacionais e internacionais, na Terra.»

Li algures que os satélites servem para monitorizar tudo e mais alguma coisa, como, por exemplo, atividades ilegais. 

Ora a invasão da Ucrânia é uma ação irresponsável, desumana e certamente ilegal. E se assim é, qual é a verdadeira monitorização dos movimentos bélicos da Rússia no seu território, nos territórios vizinhos e noutros mais distantes?

Que informação é que a NATO está a transmitir à Ucrânia? E a China que uso é que está a dar aos  seus satélites? 

Será assim tão difícil monitorizar tudo o que se passa no solo, no mar e no ar, acabando com a desinformação que vai fazendo o seu caminho, permitindo que se instale um sentimento de indiferença e, ao mesmo tempo, uma corrida desenfreada a todo o tipo de armas, sem falar no rearmamento de muitos países?

 

5.4.22

A Propaganda tolhe-nos a vista

 «Uma vez disse a António Ferro: Você faz a propaganda da Propaganda. E eu acho que a propaganda é como a luz indireta: deve iluminar sem ser vista.» Leitão de Barros

São tantos os olhos que se movem no palco da guerra que, paradoxalmente, as imagens vão cristalizando, deixando-nos na dúvida...

No caso da invasão da Ucrânia, melhor seria que os encenadores se retirassem da boca de cena..., deixando atuar simplesmente os repórteres de imagem, sem previamente os domesticar, claro está.

Talvez, então, percebêssemos quem está a tirar proveito desta barbaridade. Sim, porque, desde que o conflito teve início há quem tenha ficado mais rico...

 

2.4.22

Elias Canetti, A Língua Resgatada - História de uma Juventude

«Tu ainda não és nada e convences-te de que és tudo o que conheces dos livros e dos quadros.»

O romance revela-nos a vida de um jovem de origem sefardita, entre 1905 e 1921, em várias cidades: Ruse (Bulgária); Manchester (Inglaterra); Viena (Áustria); Zurique (Suíça)...

 

Vivendo num meio judaico, vai tomando partido..., rejeitando aqueles que asseguram o sucesso financeiro da família, e amando os que o deixam crescer no mundo das ideias, da inteligência. Mantém uma relação muito profunda, primeiro com o pai, entretanto falecido, e depois com a mãe com quem estabelece um diálogo confessional permanente, por vezes, asfixiante... que acaba por afastá-lo da vida real, como fica claro no última sequência - O Paraíso Perdido.

Como a leitura da obra não deve ser substituída por qualquer resumo, aproveito apenas para chamar a atenção para a sequência Como uma Pessoa se Torna Odiada (páginas 259 a 265 da edição portuguesa, editora cavalo de ferro, 2018). Faço-o, porque em termos pedagógicos este texto pode ser  extremamente útil para quem todos os dias gere uma sala de aula.

 

29.3.22

O peixão

Posso estar enganado, mas tenho a sensação de que o peixão devora tudo. Claro que a culpa não é dele, mas de quem o colocou no lago...

Li algures que, na Rússia, os meninos e as meninas têm novos manuais da história pátria, diligentemente explicada por 'novos' professores - afinal, na perspetiva putiniana, a Ucrânia nunca existiu...

E para o caso de surgirem dúvidas,  o peixão deu ordem para arrasar de vez o território que estava a refrear-lhe a gula.

Por cá, continuamos entretidos com o custo dos combustíveis humanos e mecânicos, sem esquecer que temos um 'novo' parlamento... e que tudo depende do resultado do futebol, para o bem e para o mal, porque a Macedónia do Norte para nós também não existe. Ou existe?

 

27.3.22

A Besta

As horas escorrem, mesmo se as adiantam... tudo parece retroceder. As horas desceram às catacumbas, à espera que das trincheiras chegue o sinal de libertação impossível.

Os satélites ignoram a ciência das bombas, incapazes de localizar a nova Besta do Apocalipse.

Só agora a Liberdade começa a compreender que a Besta tanto se alimenta do pacifismo como do belicismo.

(Entretanto, vivemos de imagens manipuladas por  títeres domésticos.)

 

25.3.22

Mariupol destruída

O general Mikhail Mizintsev, número dois no comando das forças armadas russas, e o líder checheno, Ramzan Kadyrov, um dos homens mais leais a Putin, tudo têm feito com o fito de derrotar três mil soldados ucranianos liderados pelo comandante do Batalhão Azov, Denis Projipenko,  de modo a tomar as ruínas da cidade de Mariupol

Mariupol foi fundada pelos cossacos no século XVIII, sendo um importante porto do Mar de Azov. Designou-se Jdanov entre 1948 e 1989, em homenagem a Andrei Jdanov. Na Segunda Guerra Mundial a cidade esteve ocupada pelos alemães entre 1941 e 1943 e ficou praticamente destruída, sendo depois reconstruída no típico estilo soviético.

No começo da Guerra Civil no Leste da Ucrânia, em março de 2014, tanto o governo central em Kiev quanto os separatistas da República Popular de Donetsk tentaram exercer controle sobre a região. Em meados de junho do mesmo ano, Mariupol já estava novamente sob controle das tropas da Ucrânia. Desde então, os rebeldes separatistas tentaram retomar a cidade, submetendo-a a bombardeamentos esporádicos de artilharia.

Pesquisa de 2020 refere que apenas 0,9% dos habitantes falam ucraniano em casa regularmente. O russo será a língua preferida de 81,9%...

 

21.3.22

As armas

O Poeta, à semelhança de outro Poeta, tudo fez para associar as 'armas' a uns barões que sem elas nada seriam. E nós vamos repetindo...

O Poeta, voluntariamente ou não, dá um valioso contributo para que continuemos a valorizar a expansão da língua, como se as outras línguas fossem descartáveis...

Agora, Putim quer impor pelas armas a língua russa a um povo que fala inglês como se de língua materna se tratasse - esta fuga à sua própria língua esconde certamente uma realidade que preferimos não abordar... No entanto, não é uma questão menor.

Convém não esquecer, apesar de toda a nossa experiência, que pelas armas se calam as línguas...

E se nas 'armas' procurássemos o que o significante proporciona, talvez encontrássemos: alguma folhagem, um rapper, um defesa central sérvio, uma canção, pontos sensíveis, ferramentas variadas, massagens... e longe ficaríamos da guerra.

 

 

 

 

18.3.22

O sentimento de urgência

Quando este sentimento desponta, isso significa que os dias estão contados, e que é fundamental prestar atenção ao modo como usamos o tempo. 

Ideia barthesiana, talvez, mas útil para quem compreende, traumaticamente ou não,  que já não tem muito tempo para iniciar uma vida nova.

Claro que, na maioria dos casos, os projetos ficam inacabados, se alguma vez iniciados... No entanto, há uma história que fica, satisfatória ou não...

Aquilo que hoje me preocupa é que a invasão russa não só veio modificar o sentido do 'sentimento de urgência', como, sobretudo, veio aniquilar o direito à esperança de milhões de ucranianos a quem não é dado tempo para crescer na sua terra e para a viver à sua maneira.

E nós aqui sentados, a queixarmo-nos...

 

15.3.22

Como se houvesse amanhã

Prometemos encontrarmo-nos mais tarde, um destes dias ou, até, no dia do Juízo Final... Para quê?

Conhecemos a verdade, mesmo que a crença seja inabalável, e, como tal, as declarações de reencontro são uma formalidade para  exorcizar os nossos medos...

Sempre que alguém nos escapa - agora, foi o Jorge -, percebemos que o fim pode chegar, anunciado ou não.

O melhor que temos a fazer é não adiar, como se houvesse amanhã...

 

12.3.22

É um ser, mas não é humano.

É um ser, mas não é humano.  À força de querer esmagar o inimigo à porta de casa, só dá razão às suas vítimas na própria Rússia.

Da sua cobardia faz força desmesurada e cega, primeiro na Ucrânia  e depois será tarde...

Entretanto, não se compreende do que é que a NATO está à espera para o atacar no seu covil.

(Não me digam que desconhecem o paradeiro do monstro!)

No entanto, a sua hora soará, mesmo que se se refugie no bunker mais profundo dos Urais.

 

 

9.3.22

Argumento safado

(A flor e o insecto completam-se!) Infelizmente, a perspetiva humana é bem distinta. 

Numa guerra, como a que a Rússia move contra a Ucrânia, o mais forte procura esmagar o mais fraco com o argumento safado de que o inimigo é a NATO. 

Ora, se tal é verdade, porque é que a Rússia não desafia abertamente a NATO?

Simplesmente, porque a guerra passaria desenrolar-se no território da Federação Russa... alastrando a toda a Europa.

Mesmo assim, andam por aí uns tantos idiotas, desejosos de um extermínio global, convencidos de que escapariam a uma guerra nuclear... 

A este propósito, decidi-me a reler O IDIOTA, de Dostoievski, mas sem grande proveito até ao momento, a não ser que a 'alma russa' vive mergulhada numa artificiosa idolatria.

 

7.3.22

Reflexo do momento

O registo fotográfico não obedece a nenhuma imposição. É o reflexo do momento...

No entanto, há sempre alguém que gosta de comentar. Foi o caso de um indivíduo mais ou menos da minha idade que decidiu interpelar-me jocosamente sobre o objetivo do meu ato.

Ouvi e voltei a ouvir a interpelação, só que hoje não me apeteceu responder.

Tenho como princípio não responder a provocações e estou cada vez mais convencido de que essa é a melhor forma de evitar conflitos.

Na guerra, nem a natureza escapa à fúria dos tiranos. E estes nascem facilmente das pedras...

 

3.3.22

Não se dialoga com o tirano

A invasão da Ucrânia pela Rússia é, antes de mais nada, um ato que não pode ser atribuído apenas à loucura de um indivíduo.

Na sua retaguarda movem-se muitos interesses e acobardam-se muitas populações.

Centrar a atenção no tirano é a forma típica de desresponsabilização a que História já nos habituou, e que acaba em catástrofe.

Por outro lado, dizer, privada ou publicamente, ao tirano que, enquanto o exército invasor se mantiver no território da Ucrânia, nenhuma ação militar será levada a cabo para o depor, é uma enorme insensatez.

Não se dialoga com o tirano porque este não tem qualquer respeito pela humanidade. Não se aperta a mão ao tirano. Não se pronuncia o nome do tirano...

 

24.2.22

O que fazer com 100.000 homens?

Deixá-los à míngua não seria boa ideia.

Só a vertigem os ajuda a compreender o que fazem na fronteira. Não a ultrapassar seria um suicídio. Por isso avançam confiantes da sua razão aniquiladora - vieram ao mundo para destruir e nada os irá impedir, pensam os 100.000 homens conduzidos à linha da frente, sem perceber que, nas suas costas, já foram descontados...

Do lado de cá, o esplendor das noites mal dormidas, fazendo de conta que os 100.000 homens, um destes dias, regressarão a casa como se nada tivesse sido destruído.

Avisam-me que são 200.000 homens, o número pouco importa... Bom seria saber se são, de facto, homens... prontos a matar outros homens...

Não sei bem se os tais 100.000 homens já se aperceberam que também eles podem ser mortos ou se a vodka lhes destruiu os neurónios, a não ser que as sinapses já sejam descartáveis...

Para além dos 100.000 homens, há outros homens que atravessam a fronteira com o objetivo de reportar a guerra. No entanto, falam sobretudo de si... Porque será?

100.000 homens atravessaram a fronteira, sem saberem para onde se dirigem, mas avançam. Cumprem ordens, pouco lhes interessa o resultado da travessia... Muito os homens gostam de cumprir ordens! Desculpa antiga.

100.000 homens continuam a avançar para Kiev e nós a assistir... A quê? Preferimos contemplar a destruição a agir.

 

19.2.22

Nestas terras inóspitas

Não sei se devo continuar, aqui, nestas terras inóspitas. Esforço-me por não ver nem ouvir, mas sinto que algo vai mal...

Prometeram-me que não invadiriam o meu território, mas vejo-me cercado, numa teia cada vez mais asfixiante...

Se ainda respiro, prevejo que seja por pouco tempo. O meu consolo é que, agora, tudo acontece em ritmo acelerado, ao contrário do que sempre procurei cumprir.

No entanto, quis tudo abarcar, e a pressa de chegar traiu-me. Deveria ter atrasado o passo, ficado suspenso do trinado, ter mandado o mundo às urtigas.

Nada disto faz sentido, é tudo banal, e não me digam que é possível transmutá-lo em qualquer coisa de original.

 

17.2.22

Miragens

«Não são as coisas que nos fazem mal, mas as tétricas imaginações que nós formamos sobre as coisas.» António Sérgio

«O intelecto é uno. Quem vê com 'miragens' o seu passado, constrói com 'miragens' o seu futuro. Com 'miragens' retóricas navegamos nós - na história, na literatura, na economia e na política - e não os portugueses do século XV.» António Sérgio

Mesmo que os soldados possam recolher aos quartéis, nada impede os tiranos de iniciar a guerra... Os conflitos do passado nada nos dizem sobre o amanhã da humanidade.

Há sempre quem nos queira anestesiar com as grandezas e as misérias individuais e coletivas, fazendo-nos crer que a História nos terá mostrado o caminho da paz, mas tal, no presente, não passa de miragem / imaginação, nos termos de António Sérgio.

 

13.2.22

Assobiamos para o lado

Na iminência da guerra, surpreende-me que não haja manifestações dos povos contra essa possibilidade. Revoltamo-nos tão facilmente mas, nesta matéria, assobiamos para o lado.

Porquê?

Pensamos, talvez, que tudo não passa de encenação. O problema é que qualquer encenação convém às principais nações beligerantes, e provavelmente não estamos a ver quais elas são, supondo que tudo se resume ao território ucraniano.

O conflito é entre a Federação Russa, com o apoio da China, e a NATO, totalmente subordinada aos Estados Unidos.

É bom não descurar que se esta vontade de redesenhar os espaços vitais avançar, a União Europeia acabará desfeita e ocupada.

 

10.2.22

Não gostei da encadernação

Hoje, passei pela Gulbenkian e aproveitei para ver a exposição fotográfica AS BRAVAS.

Percebi a intenção, mas não gostei da encadernação. Aquelas mulheres, muito bem fotografadas, foram, no entanto, transformadas em catedráticas vegetais... 

Como dizia Alçada Baptista, a aposta nos símbolos mata frequentemente a verdade e a vida... atitude, também, presente na obra de Urbano Tavares Rodrigues, por exemplo, no romance Filipa Nesse Dia.

Nesse dia, em Reguengos, Filipa já estava morta... Ainda se fosse em Sintra! E Hélio tivesse ido ao volante de um chevrolet...

 

6.2.22

Estranheza

A estranheza marca o que não é comum, o que não é autóctone.

Frequentemente, quem vem de fora ajuda-nos a superar debilidades de diverso tipo, mesmo que a nossa reação não seja a mais simpática. De qualquer modo, a integração progressiva acaba por reduzir a natural mesquinhez.

No entanto, há casos, como  os dos habitantes destes ninhos, que o melhor é eliminá-los antes que eles destruam a estabilidade do sistema...

(Ultimamente, tenho andado com a cabeça no ar, e o resultado tem sido este. Ninhos à porta dos bombeiros de Moscavide e Portela, na Urbanização do Cristo Rei...)

Esperemos que as autoridades não estejam adormecidas... E já agora, o melhor é que observem também a copa dos pinheiros.

 

4.2.22

Antes que...

Antes que eles regressem, deixem-me apreciar o retorno da poupa.

Segundo os especialistas, a poupa é pouco comum em Lisboa e Vale do Tejo, no entanto todos os anos eu a revejo às portas de Lisboa...

Como nada tenho a dizer sobre elesos opiniosos comentaristas, estou satisfeito com este inesperado reencontro.

Posso todavia citar o António Quadros que deles afirmou: 'proliferam, são pequenos juízes que tudo fazem para estabelecer uma hierarquia de valores à medida da sua pobreza de ideias.'

 

2.2.22

Neste inverno

Apesar da falta de chuva, a vida não acaba.... 

A estatística não perdoa - 20024 óbitos por covid desde março de 2020, a maioria com mais de 80 anos (cerca de 13000...)

A natureza com maior ou menor dificuldade acabará por superar a falta de chuva, mas nós, será que seremos capazes de superar a fatalidade sem cairmos na indiferença?

Ultimamente, os governos vão dando cada vez mais sinais de que o que importa é a economia, sem nunca confessar o óbvio: a morte dos mais velhos é, afinal, uma mais- valia.

 

31.1.22

O caminho

Quem olha muitas vezes para o caminho percorrido enquista-se e perde-se em autopiedade, quando não em vanglória. António Quadros, DN, 8 dez. 1991.

O que vale a pena é atravessar o mistério que, a cada passo, nos surpreende, dando conta dessa travessia, ainda que de forma desajeitada.

(Se nada acontece, o melhor é ficar em silêncio.)

O dia de ontem passa a sinalizar o termo de um ciclo, inaugurando, por seu turno, um novo caminho cheio de incertezas.

O resto não é literatura, e já caiu no olvido.

 

28.1.22

Com tantas flores...

Com tantas flores, não há desculpa, mesmo que umas se inclinem para a direita e outras para a esquerda.

O que as move? Talvez o capricho!? Pouco importa. Sem elas janeiro seria mais taciturno.

Com tantas flores, não faz sentido deixar de votar neste 30 de janeiro...

 

26.1.22

O mandarim

O mandarim regressou à China, não sem antes ter alimentado o nosso imaginário.

Sim, o ilusionismo não cativa apenas as crianças... faz-nos crer que somos grandes e que poderemos, ainda, ser ricos, mesmo que fechemos os olhos ao trabalho de cada dia...

Afinal, há mil e uma artimanhas ao nosso dispor....

Hoje, por momentos, cheguei a pensar em participar numa arruada, nem que fosse para fotografar uma andorinha... 

Só que ainda estamos em janeiro!

 

25.1.22

Só pode estar cansado...

(Dois motoristas da Carris: Tanto se me dá como se me deu.)

Mesmo que diga o contrário, só pode estar cansado. Tantos anos a esbracejar em águas turvas, não se pode esperar que se erga qual super-homem, mesmo que, por vezes, o obriguem a dizer o contrário.

Por estes dias, não é ele que está em causa, mas nós. É possível que nos apeteça variar, que nos apeteça vê-lo pelas costas e, como as trutas, subir o rio de água escassa. É possível que nos apeteça ficar em casa para, mais tarde, acusar os do costume.

Nós é que estamos em causa!

 

23.1.22

A REBELIÃO, Josep Roth

Andreas Pum, servidor de Deus e da Pátria, apesar da perda de uma perna em combate durante a Primeira Guerra Mundial, enfrenta os desaires da vida, convencido de que a Justiça e a Autoridade o protegem e lhe reconhecem o sacrifício...

O romance desenvolve-se, no entanto, não como comprovação das ilusões de Andreas Pum, mas como desconstrução da Fé do protagonista na ordem moral do mundo, o que tem como consequência uma atitude de rebeldia já que nem o Governo nem Deus se interessam pelos 'justos' deste mundo:

 

«Da minha inocente humildade, acordei para uma insubmissão vermelha, rebelde. Gostaria de Te negar, Deus, se fosse vivo e não estivesse diante de Ti. Mas, como Te vejo com os meus olhos e Te oiço com os meus ouvidos, tenho de fazer pior do que Te negar: tenho de Te injuriar! Na Tua fecunda falta de sentido, Tu geras milhões dos meus semelhantes, estes crescem, crentes e resignados, sofrem golpes em Teu nome, saúde imperadores, reis e governos em Teu nome, deixam que as balas lhe abram corpo feridas que criam pus...» Joseph Roth (1894-1939), A Rebelião, 1924.

Infelizmente, aqueles que sacrificam a Deus e à Pátria, aqueles que apostam na educação das novas gerações, aqueles que cuidam da saúde dos concidadãos, morrem revoltados, tal como Andreas Pum... e já entrámos em 2022. 

 

 

 

21.1.22

É só encenação!

As campanhas eleitorais aborrecem-me!

O maioral de cada partido percorre o país sem nada ver e ouvir, preso das marcações que o encenador partidário lhe fixou.

Em cada palco, tudo é artificioso: os figurantes movem-se em círculos fechados e os protagonistas não passam de fantoches mais ou menos emparelhados, com réplicas ensaiadas e, em regra, de mau gosto...

Antes da campanha começar, tinha a ideia de que nos partidos havia pessoas inteligentes, com ideias bem alicerçadas e capazes de as expor com clareza...

Entretanto, essas pessoas caíram no anonimato, e as ideias capazes desapareceram, como se tivéssemos passado a viver no reino da estupidez.

Antes, estava convencido de que sabia em que partido deveria votar, agora aconselham-me a votar no menor dos males... como se o mal pudesse ser graduado.

E depois admiram-se que as urnas fiquem às moscas...

 

18.1.22

Jorge Castanho, Estátuas Tenras (edição de autor)

Há dias, prometi ao Jorge Castanho que iria escrever sobre as suas Estátuas Tenras, mas, afinal, não posso cumprir a promessa, porque ele escreve como nenhum outro escritor que eu tenha lido...

Em cada página de Estátuas Tenras, a Bic modela as sensações de quem vai mapeando o território diurno e noturno, de quem sobe da raiz ao pensamento, de quem vai registando as anomalias (in)visíveis, de quem se apropria do simbólico para abrir novos horizontes, de quem denuncia o capitalismo que captura a obra, transformando-a numa mercadoria.

Em cada página de Estátuas Tenras, revivemos a infância e subimos pela árvore nela desenhada, reencontrando-nos, a cada passo, em lugares já vividos, sendo convidados, através de uma evocação, de um quadro, de um poema, a iniciar uma nova viagem, mesmo se confinados.

Logo, vou continuar a ler, esperando que o Jorge continue a escrever.

 

17.1.22

Lua de Janeiro

Não consta que traga mais dinheiro nem que esteja interessada no que por aqui se passa...  Resolvi capturá-la antes que ela se escape. Ilusão minha!

Eu é que não lhe escapo, mesmo em noite de lua nova... No entanto, isso não tem qualquer significado. 

Tudo foi traçado no vazio anterior, não se sabe é por quem nem com que intenção...

Isto sou eu a supor para reconhecer que nunca virei a responder a nenhuma das perguntas que marcaram a minha primeira lua...

 

16.1.22

Fazer o ninho atrás da orelha

Começou a campanha eleitoral... e começou com chalaça. 

Para quê? Para desviar a atenção.

Uns procuram emprego; outros procuram mantê-lo. O resto é conversa fiada.

Até o trabalhador procura a 'alma' fora de si, porque bem sabe que lá dentro o que se move não é confiável.

De facto, as almas tal como vieram assim se foram ou materializaram-se em intenções de todos conhecidas, por muito que se apregoe a bondade humana.

 

12.1.22

O evangelho de José Saramago

O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de Saramago. Só agora o li... e já passaram 30 anos...

Atraso indesculpável, não sei. Segui o escândalo, mas isso não tornou a leitura prioritária. Conhecia as personagens envolvidas, umas distantes e outras próximas, e também sabia que o tempo se encarregaria de separar as águas...

Neste último Natal,  decidi meter mãos à obra, e fui avançando, primeiro um pouco pesaroso e depois mais interessado no debate entre Deus, o Diabo e Jesus... Claro que ia avisado, se não estivesse atento à ironia, tudo acabaria num processo de aceitação ou de rejeição conforme a disposição mental...

No essencial, Saramago questiona o Deus inventado pelas religiões judaica e cristã - um deus imperialista que não olha a meios para submeter os Anjos, as Mulheres e os Homens, no último caso, representados por José e Jesus de Nazaré.

Surpreendentes são o Diabo e  Jesus que, apesar de terem entendido muito bem as  consequências para a Humanidade da estratégia de Deus, se deixarem reduzir a ovelhas mansas... Como diria o Pastor, não aprenderam nada!

Terminada a leitura, e salvaguardados os méritos literários do Autor, confesso que a interpelação de Saramago em nada se distingue da minha. E nesse aspeto, o Evangelho de Saramago não deveria ser atribuído a Jesus.

A não ser que José Saramago se identifique com Jesus e tenha aproveitado o mito para ajustar contas com o Pai... Será que Saramago aprendeu alguma coisa?

 

 

10.1.22

Os leitores

Não são residentes! Alguns são empurrados pela curiosidade; outros são furtivos. 

E se se apropriam de alguma ideia, não sei, nem tenho paciência para lhes seguir o rastro...

Ultimamente, tenho descoberto que o conhecimento pode tornar-se uma maçada, fazendo-nos perder a calma tão necessária aos últimos dias...

Claro que os leitores têm razão. Aqui, apenas um charco escuro e pestilento! Quem procura o charco, se ao lado se espraia o mar bonançoso?

E depois tenho de voltar para trás - os lapsos imperdoáveis, as vírgulas deslocadas, os desacordos precipitados... o excesso de possessivos.

A solidão é uma consequência... de que os leitores não têm qualquer responsabilidade. Só Deus saberá a causa, Ele que nela mora.  

 

9.1.22

O felino

Se quiser sobreviver, o felino não pode desperdiçar o tempo: as presas são escassas e furtivas.

Do que decorre (ou não) que também o tempo é escasso e furtivo. O que antes sucedeu não mata a fome e, mesmo que nos consuma, não nos serve de nada.

Tal como o felino, sigamos em frente até que a vida se esgote.

Tudo isto pode parecer um pouco rebuscado, mas não, o felino também foge dos exorcistas...

 

6.1.22

O terceiro pastor

 Não vejo a estrela de Belém! E se a não vejo, como poderei ver a aproximação dos reis  magos!

Agora compreendo o motivo de José Saramago. No lugar dos magos surgiram três pastores.

a) Com estas minhas mãos mungi as minhas ovelhas e recolhi o leite delas;

b) Com estas minhas mãos trabalhei o leite e fabriquei o queijo;

c) Com estas minhas mãos amassei este pão que te trago, com o fogo que só dentro da terra há o cozi. E Maria soube quem ele era. 

(O Evangelho Segundo Jesus Cristo)

 

1.1.22

Sem remissão

 Este blogue está nas últimas... Apenas regista tristezas e leituras.

Ontem, por exemplo, terminei a leitura de uma pequena obra, mas sagaz - 35 kilos d'espoir, de Anna Gavalda. 

Nunca tinha ouvido falar desta autora até há poucos dias; no entanto, percebo que é muito conhecida, por exemplo, na Alemanha. 

Anna Gavalda, baseando-se na sua experiência docente, narra a história de um jovem sem qualquer gosto pela escola porque, afinal, a escola também não gostava dele. 

Ao contrário de muitos outros desencantados, Grégoire tinha objetivos bem práticos  que passavam pela imaginação de soluções mecânicas - construir era o seu desígnio.

Apesar do fracasso escolar e familiar, acaba por superar as dificuldades, ajudado pelo avô.

Sinto que, de algum modo, também poderia ter escrito este belo livro, tantos foram os alunos que se sentaram à minha frente durante 46 anos, alguns completamente desenquadrados. Fico a pensar nos que se perderam... nos que perdi.

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