Ler a argumentação
1. Definir a argumentação
Neste
sentido, o discurso argumentativo é muito diferente do discurso científico
(demonstrativo):
Passar da demonstração à argumentação significa passar de um discurso onde os factores da enunciação foram neutralizados, onde o desenvolvimento das operações obedece a condições impostas pela sintaxe da lógica e do sistema demonstrativo, a um discurso onde o quadro e as condições da enunciação desempenham um papel determinante na escolha e disposição dos materiais utilizados - tipos de argumentos, esquemas de raciocínio ... discurso infinitamente aleatório, mais livre no seu desenvolvimento, discurso mais incerto na medida em que o escrevente (ou orador) nunca terá a certeza se consegue persuadir o interlocutor, o que explica os processos de reforço, um aspecto de redundância, típico do discurso argumentativo - características que estão ausentes na demonstração...
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O nível do raciocínio |
onde se organizam as operações
lógicas e onde se situam os conteúdos semânticos |
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O nível da realização
linguística de superfície |
o da lógica discursiva, da
lógica argumentativa |
2.1. Ler a argumentação consiste em:
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·
Identificar os conteúdos lógico-semânticos do
discurso ·
Avaliar a importância do seu tratamento, isto
é, a extensão do espaço discursivo assim constituído ·
Interpretar a natureza e a extensão do espaço
discursivo |
Argumentar é fazer de modo que um ponto de vista tome forma de verdade e seja tomado como verdade.
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Passiva |
Uma leitura manipulada, em que
o leitor se preocupa unicamente com o que é dito, em que ele se torna no
objecto sobre o qual incide a atividade do texto; |
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Activa |
Em que leitor não se satisfaz
em “sofrer” apenas os efeitos do texto, mas que procura identificar as
fontes, apreciar os efeitos, fazer uma leitura responsável. |
3. As categorias do discurso argumentado[1]
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Deliberativo |
aconselhar / desaconselhar |
útil / prejudicial |
futuro |
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Judiciário |
acusar / defender |
justo / injusto |
passado |
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Epidíctico |
louvar / censurar |
belo / feio |
presente |
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Crítico |
acordo / desacordo |
verdadeiro / falso |
passado |
É possível encontrar misturadas estas diferentes categorias numa mesma argumentação...
3.1. Do ponto de vista didático, podemos trilhar dois percursos:
- Propor ao aluno a leitura de microtextos (textos muito curtos, um ou dois parágrafos, extraídos da imprensa, por exemplo) agrupados por tipo de discurso (...) para que o aluno possa progressivamente identificar, sob realizações discursivas diferentes, a mesma estratégia argumentativa, habituando-o a proceder a análises semânticas...
-
Apoiar-se sobre uma prática prévia do discurso argumentado que permitirá ao
aluno constituir um sistema do discurso argumentado, apreciar a sua
funcionalidade, reinvestindo-o num trabalho de leitura.
A argumentação constrói-se quase sempre em relação ao já-dito, em relação a um ponto de vista formulado. Ela é discurso sobre outro discurso, o que explica a complexidade do seu funcionamento e da sua descodificação, visto que há imbricação da lógica da argumentação refutada, com a lógica da argumentação que a refuta. No limite, o discurso argumentado é o discurso de refutação. Deste modo, convencer é vencer, isto é combater uma posição já definida, e ler a argumentação consiste em discernir, em identificar uma estratégia de refutação.
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·
Negação pura e simples |
Consiste em negar pura e
simplesmente a opinião do adversário: É falso porque... |
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·
Raciocínio à fortiori |
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Distinção |
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·
A causa negada |
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5. Critérios para a elaboração de uma ficha
de leitura exaustiva do texto
argumentativo
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O texto aborda: |
objetos físicos acontecimentos atitudes comportamentos opiniões |
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·
A referência ao objecto do discurso é: |
dominante / secundária explícita / implícita |
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·
A posição do autor em relação ao objecto do
discurso é: |
favorável ( +, - ) neutra desfavorável (+, -) |
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·
A distância do autor ao objecto do seu
discurso é: |
nula (muito implicado) média (pouco implicado) importante (pouco ou nada
implicado) |
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·
A posição do autor é significativa: |
de uma atitude individual de um grupo social de uma comunidade cultural /
nacional |
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A atitude do autor em relação aos seus
leitores / ouvintes é: |
indulgente neutra agressiva |
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·
A posição respectiva autor / leitor: |
superioridade igualdade inferioridade |
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·
O objectivo do discurso é de : |
reforçar uma adesão modificar a atitude do leitor /
ouvinte |
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·
O modo de persuasão adoptado: |
convencer pela coerência lógica
do raciocínio conseguir a adesão pela força
da convicção |
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·
Modelo de referência: |
retórico fortemente articulado processo original |
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·
Os argumentos: |
são todos tomados em
consideração são, para alguns, omitidos |
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·
O discurso no seu conjunto parece: |
eficaz pouco eficaz |
-
Quem escreve?
-
A quem?
-
Sobre o quê?
-
Com que intenção?
-
Como?
-
Com que eficácia?
Bibliografia:
Algumas
questões temíveis:
-
E se há construção, que tipo de acções é que o sujeito que organiza o discurso
tem de efetuar?
-
Poder-se-á definir essas acções em termos de “operações”, umas de pensamento,
outras discursivas, e compô-las em modelo descritivo das estratégias que atuam
na maioria dos discursos?
- Como analisar então “logicamente” uma
argumentação?
Para Platão, o sentido é a ideia ou a essência: um princípio inteligível comum à realidade e ao pensamento.
Aristóteles rejeita a transcendência das ideias e substitui-a pela noção de forma, inerente aos indivíduos concretos. O que leva ao desenvolvimento da tradição do conceito, gerando, deste modo, o pensamento conceptual, que consiste em deduzir (dégager) formas abstractas a partir da experiência sensível e da observação concreta.
Entretanto,
as problemáticas das “essências” e das “ideias” cederam lugar primeiro ao nominalismo
e depois ao empirismo dos Modernos.
O
nominalismo preocupa-se em primeiro
lugar em preencher o desvio existente entre, por um lado, as nossas imagens, as
nossas impressões oriundas da experiência, e, por outro, os conceitos abstratos
que o pensamento elabora.
(...)
O desenvolvimento da linguística pós-saussuriana - em particular, o estruturalismo - veio reforçar a subordinação do sentido aos signos.
Vitória do EMPIRISMO: as formas e as
estruturas é que geram o sentido.
O
1º inspirado nas ideias de C. S. Peirce,
abandona o domínio da linguagem, não
sendo este mais do que uma parte de um conjunto mais vasto e geral dos
signos da vida social. Pressupõe-se que as diferentes classes de signos que
compõem este conjunto manifestam entre elas certas homologias; o postulado
subjacente é que o sentido geral de uma sociedade será compreendido desde que
se tenha podido e sabido corresponder todos os sistemas de signos que funcionam numa certa sociedade.
O
2º caminho procede do mesmo espírito de generalização. Batizado como “análise
do discurso”, a estratégia consiste, na maioria dos casos, em extrapolar a
nível do discurso ou da narrativa, considerados como textos, as mesmas leis que
aquelas que parecem reger a organização da frase elementar. Postula-se, também,
que os diferentes níveis de organização e de funcionamento da linguagem mantem
entre eles relações de homologia. Deste modo, o sentido de um discurso não é
definido a partir de uma qualquer
realidade exterior de que teríamos registo mas, exclusivamente a partir de
uma análise “des agencements” internos deste discurso.
-
um acto proposicional (o acto mesmo de dizer);
-
um acto “ilocucionário” (o que se faz ao falar: promessa, desejo, asserção...);
-
um acto “perlocucionário” (o que produzimos -o efeito - pelo facto de
falarmos).
A força lógica da frase proviria da
conjunção destes três tipos de actos.
A 1ª é uma extensão da análise semiológica:
compromisso entre dependências internas e definições de estruturas. Umas e
outras são supostas engendrar e regular o sentido.
A 2ª, derivada das “análises semânticas” da
frase, puxa o sentido para o lado da referência, isto é, para o exterior da
linguagem. Qualquer interpretação de um discurso só é possível se for feito um
comentário sobre as circunstâncias sociais que rodearam ou estimularam a
produção deste discurso. Geralmente, estas “circunstâncias” acabam por ser
responsabilizadas pela organização formal do discurso.
Nos
dois casos, o sentido é apenas um
pretexto do discurso, ou mesmo como referência escondida a interpretar para
além do discurso. As especificidades da linguagem são ignoradas: esta é apenas
concebida como meio de veicular significações. Sabemos, porém, que o
discurso produz sentido e responde a um projecto de sentido.
Os
Estoicos definiam: O sentido
é o “exprimido” da proposição, o acontecimento
que insiste ou subsiste na proposição. Qualquer discurso, uma vez escrito,
separa-se das características do seu surgimento. O seu sentido não é mais a intenção daquele que o pronunciou, mas uma intenção que pode por outros, ser
identificada e reidentificada, e esse reconhecimento objetiviza-a como acontecimento do discurso e não apenas
como acontecimento de um sujeito.
O
sentido é a relação que
estabelecemos ao “determinarmos” os elementos constitutivos de um enunciado. O sentido de um discurso existirá a
partir do momento em que esse discurso for construído. (...) O sentido é assim constituído por essas
relações de contacto (rapports de mises en présence) instauradas, primeiro
entre termos, depois entre proposições, compondo o discurso, e na condição, sem
dúvida, que esse arranjo seja reconhecido como significativo, “lógico”, isto é,
que o possamos compreender, seguir as marcas: palavras, ligações entre
palavras, relações entre frases.
A “significação” é então a construção por um discurso (...) de uma rede de referências para as quais se pode remeter este discurso e que permitirão “interpretá-lo”. O problema difícil da referência pode assim encontrar uma solução se o encararmos sob a forma de construções de sentido que se realizam graças às marcas de linguagem e que asseguram a relação entre os elementos do linguístico e os elementos exteriores a esse linguístico.
Certamente que o discurso visa sempre uma certa realidade exterior. Mas essa realidade de referência nunca é um dado primitivo que o discurso evoca como tal. É uma “recurso exterior” que ele pode “trabalhar”, atribuindo-lhe mais ou menos valor, ou distanciando-se dela, pondo-a mais ou menos em causa. O discurso age sobre essa significação, construindo-lhe outras significações. É aqui que reside o seu sentido: produzir outras significações. É aqui que intervém o jogo dos argumentos.
Os argumentos de um discurso manifestam jogos, mais ou menos controlados pelo sujeito, sobre as referências que ele quer assegurar e fazer reconhecer ao seu discurso.[2]
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Quando se sabe que não existe
nenhuma verdade do mundo admitida
por todos, argumentar é agir sobre
as verdades parciais de modo a
reforçá-las ou diminui-las, tentando valorizar ou desvalorizar as
significações que lhe estão associadas. |
Em síntese, o sentido de um discurso não se identifica com a sua forma, apesar da sua contribuição. Não se explica também pelo único recurso à consideração das circunstâncias que rodeiam o seu surgimento, embora estas possam contribuir para esclarecer a sua interpretação. O sentido de um discurso, é o tipo de objetos que ele constrói e aos quais vai dar significação, isto é, estatuto, afetando-lhes, por um lado, modos de existência, e por outro, reportando-os a objetos do mundo, supostamente admitidos por todos ou, pelo menos, reconhecidos por certos tipos de auditórios: objetos físicos, actores sociais, situações, acontecimentos, opiniões, teorias, crenças.
Discorrer, argumentar, é verdadeiramente agir.[3]
Todo o discurso é um conjunto de acções levadas a cabo pelo seu sujeito, umas necessárias, outras possíveis. Necessárias porque determinadas pelas regras da linguagem utilizada: o modo como a linguagem é estruturada e deve ser estruturada para que o discurso seja reconhecido como pertencendo efetivamente aquela linguagem.
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